

Top Luis Buñuel

01. A Idade de Ouro
02. O Anjo Exterminador
03. O Discreto Charme da Burguesia
04. A Bela da Tarde
05. O Alucinado
06. Viridiana
07. Ensaio de um Crime
08. Esse Obscuro Objeto do Desejo
09. O Fantasma da Liberdade
10. Tristana + Simão do Deserto
(((revi Câncer, definitivamente um filme menor do grande Glauber: ele sabia muito bem disso... Certo que Julio não o viu na época: apenas se inspirou nos dois personagens, o bandido negro (Pitanga) e o bandido branco (Hugo Carvana): provocador, Julio chamou o mesmo Carvana e, como não queria Pitanga, optou por Milton Gonçalves: de resto, O Anjo Nasceu transfigura esses dois personagens e vai muito além de Câncer: não apenas testa a resistência do plano-sequência, como o satura. Em Cara a Cara/ 1968, já havia influências de Terra em Transe, mas todas as dívidas foram saldadas: em A Idade da Terra, Glauber também cita − também sem ter visto − até o péssimo Copacabana Mon Amour, aliás utilizando a lente cinemascope na mão de forma muito mais criativa que Sganzerla. Pra mim essa polêmica toda está encerrada: só lamento que tenha faltado generosidade entre as partes: são todos geniais inventores, deveriam reconhecer as influências mútuas & deixar de mistificação.
Jairo Ferreira, no CINEMA DE INVENÇÃO.
O novo filme de Claude Chabrol

Sempre há outra história. Sempre há mais do que os olhos vêem. É com essas palavras que Claude Chabrol encerra esse seu novo filme, e sugere a máxima de Georges Bernanos que dizia “ver bem as coisas, é ver além delas”. Bellamy é um filme de investigação, porém antes de ser um suspense ou policial, é sobretudo um filme de Claude Chabrol, que como de hábito se esmera na mise en scéne e num exame dos elementos e descrição perversa e cínica do comodismo pequeno-burguês, não como ilustração, nem crítica pontual ou com a impressão de algum juízo, mas como ato de fazer valer seu exercício de olhar. Paul Bellamy (Gérard Depardieu) é um comissário de polícia que já não tem mais disposição e vontade para trabalhar, preferindo continuar de férias em sua casa, na companhia da esposa (Marie Brunel), dedicando o seu tempo livre para investigar por conta própria – em paralelo com a investigação oficial – um caso de assassinato. A sua investigação o enche de curiosidade, não tanto pelo desejo de descobrir a verdade, mas de simplesmente acompanhar como simples espectador os fatos que vão se desenrolando e do qual procura se conservar na posição de testemunha bastante próxima, sem pressa ou necessidade de resolver o caso. Não é o melhor trabalho de Chabrol nessa presente década, mas mantém o alto nível de sua recente filmografia.
Profissão: Ladrão

Desde a estréia de Inimigos Públicos venho prometendo uma revisão de todos os filmes de Michael Mann, e começo agora com a sua estréia no cinema (antes ele já havia dirigido um elogiado telefilme, The Jericho Mile), The Thief (1981) onde o diretor já mandava muito bem desde esse começo de carreira. Trata-se de um filme policial digno dos realizados na década de setenta, e já prenunciando muito do gênero nos oitenta e noventa. A cena de abertura com o ladrão assaltando um cofre é mostrada com paciência e meticulosidade e atestam que tanto Michael Mann quanto o seu protagonista não estão para brincadeira. O diretor estreante recorre para atores que na época estavam entrando em decadência, e proporciona a esses ex-astros algumas de suas últimas oportunidades para brilhar. Caso de um envelhecido James Caan (provavelmente em seu último grande personagem no cinema) e da beldade Tuesday Weld (como eu amo as mulheres de Michael Mann), com uma beleza mais madura (ela ainda faria dois anos mais tarde o papel feminino principal em Era uma Vez na América). Em The Thief há o enfoque melancólico dos personagens, inseridos em uma trama policial que por vezes beira a tragédia grega, com grandes planos gerais e objetivos e o tratamento de imagens e de cores com quase a mesma qualidade dos filmes posteriores, e as ruas de Los Angeles filmadas com a imponência das grandes planícies do faroeste. Michael Mann arranca maduro nesse seu début nas telas de cinema, numa estréia tão auspiciosa como havia sido O Último Golpe, de Michael Cimino.

Obra-prima é o modo como muitos cinéfilos enchem a boca para se referirem a vários filmes do passado, e que é uma definição cada vez mais escassa para filmes recentes. Vincere (o mais recente trabalho de Marco Bellocchio), se não é uma, então é quase. A principio, Vincere é de como a História está sempre nos pregando uma trapaça, no sentido de que muitas vezes é de figuras idealistas que surgem os seres mais monstruosos. O filme de Bellocchio escapa da camisa-de-força das cinebiografias mais vulgares, por realçar Benito Mussolini como um indivíduo de carne e osso antes de apresentá-lo como figura mitológica, e mesmo contando a sua ascensão como líder revolucionário que esquece e passa por cima de seus ideais socialistas e companheiros de partido, e repudia a mulher que o ama, Vincere na verdade é sobre essa determinada mulher, Ida Dalser (Giovanna Mezzogiorno), que venera e mais tarde odeia o ditador italiano, acompanhando a sua trajetória desde o princípio. Trata-se de um estudo acerca do surgimento e transformação de um homem em mito − numa alteração não apenas psicológica, mas sobretudo física (o que não se refere a um simples e natural envelhecimento, e sim uma mutação que vai tornando a sua imagem mais ameaçadora e monstruosa). Com o tempo, Vincere acaba se tornando um filme sobre a loucura, o abandono e o desespero, assumindo o ponto de vista de Ida Dalser, que adorou o futuro ditador e a quem entregou todo o seu patrimônio, e que por sua vez a anulou como se ela nunca tivesse existido, como um fantasma (ou menos que um fantasma, como a própria Ida se define). Protagonista da primeira metade do filme, após o momento em que Mussolini (interpretado quando jovem por um Filippo Timi cheio de garra e fúria) finalmente entra para os livros de História ele passa a aparecer em Vincere apenas em cenas de arquivo, bustos ou fotografias. Em dado momento, Vincere sutilmente desperta a dúvida de quem seria o verdadeiro louco: a personagem que insiste em se declarar esposa do ditador, mesmo não tendo mais vínculo algum com ele e sequer um documento que comprove o matrimônio; ou o próprio Mussolini, que em seus discursos inflamados exalta uma vontade férrea de reviver o antigo Império Romano, o que conta com a adesão imediata de grande parte da população italiana? É um retrato estarrecedor do que foi a Itália no período entre as duas grandes guerras, e mais ainda, sobre a convicção e a fé finalmente destruídas de uma obstinada e intrépida mulher. Vale destacar ainda a cena em que Ida Dalser assiste O Garoto, de Charles Chaplin, e se reconhece no drama visto na tela, num campo-contracampo de tirar lágrimas.
Que fique claro, para quem não sabe, que Frank Tashlin é um dos favoritos desse blog.

Fritz Lang, em O Desprezo, de Jean-Luc Godard. Nunca em um filme um diretor filmou um colega de sua profissão de forma tão bela quanto no plano acima (cujas imagens foram devidamente surrupiadas do blog do Carlão Reichenbach).
"Hoje vou ao cinema me divertir com mais um espetáculo pirotécnico da série James Bond, como vibro com os filmes de Spielberg, Lucas. Sou fanático entusiasta de toda e qualquer parafernália em 70 mm e som Dolby stereo. Só que ainda não vi nada que se aproximasse de 2001: a Space Odity/ 1968 de Kubrick. Isso porque aí não há apenas tecnologia, mas poesia. "
Jairo Ferreira, em seu livro "Cinema de Invenção", a Bíblia do cinema experimental brasileiro.

Anselmo Duarte
(1920-2009)
Da mesma forma que foi sub-apreciado durante muito tempo, também sempre houve a tendência de muitos em superestimá-lo, provavelmente mais em simpatia ao individuo do que pelo seu valor como cineasta. Gosto de Anselmo Duarte como ator e diretor, mas para mim ele está para o cinema brasileiro da mesma forma que Warren Beatty e Robert Redford estão para o cinema americano. De galãs passaram a diretores, realizaram dois ou três bons filmes, foram agraciados com um grande prêmio por algum deles e depois não fizeram nada de relevante. Para uma cinematografia que sempre viveu aos trancos e barrancos como a nossa, foi elevado às alturas, entretanto, à rigor não foi um grande cineasta, pelo menos não da estatura de um Nelson Pereira dos Santos, Ruy Guerra, Walter Hugo Khoury, Rogério Sganzerla e tantos outros com carreiras mais extensas tanto em quantidade quanto em qualidade, apenas para ficarmos em alguns outros conterrâneos seus da época. Absolutamente Certo é uma bela e inteligente comédia, e O Pagador de Promessas certamente tem seus méritos, mas creio que a grande força do filme reside no texto e no extraordinário final, que faz quem o assiste sair da frente da tela acreditando ter visto um grande filme. Ainda assim, não consigo vê-lo com o mesmo impacto de outras obras do cinema brasileiro daquela década, e o que fez com que sua carreira não fosse vista com bons olhos não foi apenas a discutível Palma de Ouro em 1962, mas a qualidade bastante desigual de sua posterior filmografia. Não vi mas quero conhecer Veredas da Salvação, mas outros de seus filmes (como Descartes, Um Certo Capitão Rodrigo e O Crime do Zé Bigorna) deixam muito a desejar. Mas sem dúvida era um profissional que merece respeito, e uma figura que despertava simpatia e até compaixão pelos problemas de sua carreira, eu mesmo gostava de vê-lo nas (poucas) entrevistas na TV as quais pude assistir. E dentre os seus trabalhos como ator, recentemente me impressionei muito com a sua atuação em O Caso dos Irmãos Naves, de Luis Sérgio Person, em que interpreta um delegado impiedoso e assustador.
Palácio dos Anjos, de Walter Hugo Khoury, me faz pensar em Coisas Secretas, de Jean-Claude Brisseau. Há em ambos a forte presença de elementos capitalistas que regem as suas estruturas, que movem e desencadeiam as ações das personagens, que se constituem num jogo de poder entre os dois sexos, na medida em que se expandem as tensões entre essas personagens e deste conflito desenvolve-se toda uma estratégia de encenação. De um lado, os homens como os donos da situação, detentores do poder econômico, ricos, empresários e arrogantes e predadores insaciáveis, quase infantis em seus desejos e vontades, representados na figura do playboy Ricardo (Luc Merenda), que assedia constantemente uma das secretárias que trabalham como datilógrafas em sua instituição bancária, Bárbara (Geneviéve Grad). Por outro, as garotas que a principio estão na posição mais desfavorecida do jogo social e econômico, subalternas e longe de nessas condições alcançarem a liberdade financeira desejada (as protagonistas do filme de Brisseau também trabalham em um banco), todas elas enigmáticas, sensuais e problemáticas. Há a mais forte e inteligente (também a mais voluptuosa), a já citada Bárbara, rebelde e insubmissa, e a sua colega de apartamento e de trabalho, Maria (Rossana Guessa), mais menina e tola e com muito para aprender, assim como a terceira integrante do vértice feminino, a jovem Ana Lucia (Adriana Prieto), mais dinâmica e esperta. Bárbara ensina que poderiam utilizar o sexo como uma arma na escalada para o poderio econômico. Da mesma forma que as figuras femininas de Coisas Secretas se aproveitam de vários quadros superiores na instituição bancária em que trabalham, as de Palácio dos Anjos utilizam os arquivos de informações confidenciais do banco em que eram datilografas para se servirem de alguns dos homens mais podres de ricos do pedaço, com todos os dados possíveis que constavam nos dados da instituição financeira, mas não para serem meras prostitutas na casa de uma cafetina (Joana Fomm) que lhes propusera o trabalho escuso, mas sim como donas do próprio negócio, um bordel de luxo concebido entre as paredes do apartamento que dividem, um verdadeiro palácio em que residem anjos diabólicos e exterminadores, cercados de objetos meticulosamente dispostos em cena, com requinte e sofisticação (quadros, gravuras, cores vivas, etc.). Os sinuosos movimentos de câmera - que ora revelam bastante, ora revelam muito pouco -, os embates sexuais entre as personagens, a atenção dada ao décor como espaço de encontros íntimos e clandestinos, tudo isso Walter Hugo Khoury concebe não apenas como um mero dispositivo de representação de sexualidade/sensualidade mas também para melhor servir ao alcance sociológico do roteiro, mas sem nada de panfletário ou discursivo, até mesmo porque não há maniqueísmo ou traços de piedade na abordagem dos papéis, apenas uma legítima representação de mundo. Há também um esteticismo requintado em suas imagens, desde a sucessão de rostos femininos na abertura, ao som da trilha de Rogério Duprat. E um clima dúbio nas relações íntimas entre as três protagonistas, que de maneira bem contida se insinuam como integrantes de um quase ménage a trois, e cabe destacar ainda a presença fulgurante da francesa Geneviéve Grad, que eu não conhecia e que sem exagero algum se trata de uma das fêmeas mais desconcertantes e sedutoras que já passaram pelo cinema brasileiro, com rosto e traços físicos nada menos que inesquecíveis. Sua presença em cena contamina e alicia não somente as suas colegas e os homens que a procuram desesperadamente, mas também com a esposa de um dos seus clientes (Norma Bengell), uma mulher que passa a nutrir por ela um amor cego e um desejo doentio. Ainda sobre as comparações com Coisas Secretas, não se trata de especular se por acaso Brisseau teria supostamente assistido Palácio dos Anjos (o que é pouco provável, embora não impossível), longe disso, mas de estabelecer relações entre obras que se aproximem e que em pelo menos alguma medida se pareçam uma com a outra, até mesmo porque se muitos insistem em idiotices como a de rotular um autor da estatura de Walter Hugo Khoury como um Bergman brasileiro (ou pior, um sub-Bergman, o que vai dar na mesma), com certeza uma análise mais cuidada de seus trabalhos revelam que a sua obra também dialoga com a de outros mestres, escolas, épocas e tradições.