Quem sou eu?

  Vlademir Lazo Corrêa.
Cultivo todas as paixões, de preferência, até as últimas conseqüências. Compulsivo colecionador de dvds, livros, discos de vinil e outras velharias mais. Um curioso com sede de pesquisa, crítico, leitor contumaz, apaixonado pela vida e pela morte, também por literatura, cinema e música.

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Histórico


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- 01/07/2009 a 31/07/2009

Contador










Milk (que acaba de ser lançado em dvd e que só agora conferi) é bem melhor do que eu pensava. Mais do que uma boa cinebiografia de um ativista gay que se torna um líder político controvertido, o filme tem algo de Zodíaco, de David Fincher, não apenas na captura da atmosfera de São Francisco dos anos 70, por sua magnífica reconstituição de época (como notou o crítico Kleber Mendonça Filho, do CinemaScópio), mas sobretudo na luta de uma minoria diante de algo muito maior e monstruoso que se dissemina como um câncer na sociedade da época ─ a violência do serial killer que se transforma em lenda e em mito (em um dos filmes), e a intolerância e o preconceito que igualmente destroem vidas (no de Gus van Sant). Males que diante desses dois filmes por vezes acreditamos pertencer unicamente ao período e lugar retratado em ambos, mas sem dúvida não é preciso uma visão mais atenta para enxergar que são temas que se refletem em nossa própria época, repercutem através dos tempos, portanto, universais. E convenhamos: todo mundo torceu por Mickey Rourke no Oscar, que praticamente representou a si mesmo em The Wrestler (com admirável intensidade, sem dúvida), mas a interpretação mais rica é a de Sean Penn, mais composta, que se transformou no personagem sem parecer afetado, mas transmitindo toda a essência de seu papel.



- Postado por: Vlademir as 18h58
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Há quem diga (e não são poucos) que Manoel de Oliveira quando quer é capaz dos filmes mais chatos do mundo. Pode haver algo de verdade nessa afirmação (conheço pouco do diretor português), mas não há como passar incólume diante de Vale Abraão, um filme que merece ser visto, contemplado e admirado. É um tour de force de três horas e meia que transborda uma beleza toda própria por todos os poros, e  deságua em fronteiras nunca antes ultrapassadas ou sequer imaginadas, que irradia uma luz que invade o terreno do que é mais sagrado, e parece se multiplicar à exaustão a cada plano no decorrer do filme até o limite, e que já não cabe mais na própria tela. É algo tão grande que muito nos escapa da vista, mas o que sobra e retemos nos olhos vale por dez filmes de muitos outros diretores. Uma releitura de Madame Bovary, de Flaubert, transportando a personagem para Portugal dos tempos atuais, num procedimento semelhante ao que Stanley Kubrick faria com o romance de Arthur Schnitzler em De Olhos Bem Fechados. O filme consegue dar conta de uma vida inteira (e por isso requer toda sua longa duração), no caso a vida da Ema de Leonor Silveira, mulher “com apetite pelas coisas tristes” e que se torna a razão de ser da película, em um processo em que personagem/atriz funde-se com o próprio filme ao ponto de as diferenças se tornarem indistintas e indivisíveis. A personagem adquire uma densidade assustadora e acumulada, que espanta os que a cercam e travam conhecimento com ela, e muito se deve ao excelente trabalho do diretor com a escritora Augustina Bessa-Luis, que escrevia um romance baseado na história de Flaubert à medida que ambos concebiam o roteiro. O filme lembra o Orson Welles tardio, o de História Imortal mais especificamente, só que numa potência elevada, e é tido por muitos críticos como o filme de Oliveira que mais se aproxima de uma linguagem clássica. Se é consenso entre alguns de que os filmes curtos de Manoel de Oliveira parecem ter o dobro da duração, Vale Abraão então pode ser considerado breve demais em seus 203 minutos.



- Postado por: Vlademir as 23h02
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A história cinematográfica oficial conta que os grandes filmes de Peter Bogdanovich são os que ele fez até Lua de Papel (1973). Depois disso, o único que seria mais digno de menção é o melodrama Mask (1985). Ledo engano. O diretor tem outros filmes muito bons, como o belo Daisy Miller (1974) e esse They All Laughed (1981), que está à altura dos melhores que realizou. É uma comédia sofisticada e inteligente que por cerca de duas horas mantém um tom de completa alegria e exuberância, beirando a um verdadeiro êxtase cinematográfico. O filme gira em torno dos detetives de uma agência de investigação particular que enfrentam problemas com maridos e esposas desconfiados, e que se apaixonam por duas mulheres que precisam vigiar: uma mais velha interpretada por Audrey Hepburn (em um de seus últimos filmes) e outra mais jovem feita pela modelo Dorothy Stratten, uma das mulheres mais lindas que já vi em um filme e por quem Bogdanovich se apaixonou e que tinha tudo para ser uma das maiores estrelas daquela década, mas que seria tragicamente assassinada pelo marido logo após as filmagens (a sua história foi contada em outro filme, Star 80, de Bob Fosse). O personagem de Stratten não é o centro da trama, mas o filme acaba sendo uma celebração de sua beleza (como pode ser visto nos screens), nos vários momentos em que Charles, o detetive interpretado por John Ritter, observa e lentamente se apaixona pela Dolores de Dorothy Stratten, num dos mais perfeitos exemplos da utilização do plano subjetivo, em várias cenas que se constituem em pouco mais do que um personagem a olhar para outro. No geral, o filme tem a graça e o requinte dos musicais (mas sem ser um exemplar do gênero), um exercício de estilos e formas cinematográficas que fascinam e com a perspicácia visual de um diretor interessado no sentido mais artesanal de seu oficio.  Bogdanovich faz o possível para garantir que o movimento e a ação através do espaço cênico sejam exatos e eficientes, com um trabalho de edição e destreza em dispor os atores em cena, e deslocá-los em seus posicionamentos na tela, com sutis e esmerados alinhamentos de câmera, como também o capricho e o cuidado com os cenários e a excelente trilha sonora, que inclui canções de Frank Sinatra (entre as quais, a sua versão de New York, New York) e até de Roberto Carlos (!), num ótimo aproveitamento de uma de suas músicas tocada praticamente inteira numa sequência em que os personagens se encontram em uma loja. Parece o esforço de Bogdanovich em realizar uma comédia popular, mas sua elegância e bom gosto (estilístico) invariavelmente transcendem o próprio gênero. A lamentar apenas o título nacional, Muito Riso e Muita Alegria, sem dúvida uma das piores versões de títulos já feitas para um filme estrangeiro aqui no Brasil, e que deve ter ajudado para que o filme de Bogdanovich nunca tenha sido levado muito a sério por aqui. Mas é um dos dez filmes preferidos de Quentin Tarantino e o próprio Bogdanovich na introdução de seu livro Afinal, Quem Faz os Filmes declara ser o seu favorito dentre os que ele dirigiu.



- Postado por: Vlademir as 23h58
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Zingu # 32

Atualizações na Zingu, agora com a segunda parte do dossiê sobre o Cinema de Bordas, dessa vez em torno dos nomes de Joel Caetano, Marcos Bertoni e Pedro Onofre. A revista também conta com outros textos e novidades, como a estréia de minha coluna de lançamentos, com um artigo sobre A Hora do Lobo, de Ingmar Bergman (que acaba de sair em dvd lançado pela Versátil) e textos curtos sobre algumas estréias de cinema e dvds de filmes de Resnais, Godard, Eastwood, Person e outros (além de um perfil que escrevi sobre Winona Ryder para a seção Musas Eternas).

http://revistazingu.blogspot.com/2009/06/edicao32.html



- Postado por: Vlademir as 18h21
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Assisti São Bernardo, de Leon Hirszman, pensando o tempo todo em Sangue Negro, de Paul Thomas Anderson. O Paulo Honório interpretado com intensidade por Othon Bastos é uma espécie de versão cabocla do personagem de Daniel Day-Lewis em Sangue Negro, desde a caracterização física até a trajetória pontilhada pelo desejo de riqueza, pela obsessão e pelo egoísmo e indiferença, que os fazem não terem olhos para mais nada, nem mesmo para a própria mulher escolhida como esposa (no caso de São Bernardo). O filme de Hirszman é um estudo sobre a cobiça e os poderes simultaneamente construtivos e destrutivos que permeiam e desgastam a personalidade de um homem possuído por uma ambição desmedida, descortinando assim a ascensão e queda de um personagem aparentemente destituído de virtude e redenção, mas destinado somente ao vazio em que acaba todo homem que se julga o centro de tudo. O imperdível dvd nacional recupera e restaura as cores magníficas da fotografia excepcional de Lauro Escorel, que enquadra rigorosamente o homem fundido com a paisagem incomensurável. Certamente Graciliano Ramos é o escritor brasileiro cujas obras mais renderam grandes adaptações cinematográficas ─ e não custa lembrar que o seu melhor livro, Angústia , ainda não foi filmado.



- Postado por: Vlademir as 23h22
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Homenagem ao Lafa, que me enviou as duas imagens por e-mail: em Viver a Vida, Godard nos mostra Anna Karina emocionada com a Falconetti de O Martírio de Joana D'Arc, de Dreyer.



- Postado por: Vlademir as 20h46
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A Liga dos Blogues Cinematográficos fez uma votação para a escolha dos melhores filmes da década de 30. O resultado final pode ser visto no link a seguir (com textinho meu sobre O Atalante):

http://ligadosblogues.wordpress.com/2009/06/02/ranking-anos-30/#comment-850

A minha lista:

01. A Regra do Jogo (Jean Renoir, 1939)
02. O Atalante (Jean Vigo, 1934)
03. E o Vento Levou (Victor Fleming, 1939)
04. Luzes da Cidade (Charles Chaplin, 1931)
05. A Idade de Ouro (Luis Buñuel, 1930)
06. Tempos Modernos (Charles Chaplin, 1936)
07. M – O Vampiro de Düsseldorf (Fritz Lang, 1931)
08. Freaks (Tod Browning, 1932)
09. Olympia (Leni Riefenstahl, 1938)
10. Terra (Aleksandr Dovjenko, 1930)
11. Alexander Nevsky (Serguei Eisenstein, 1938)
12. Limite (Mario Peixoto, 1931)
13. Sócios no Amor (Ernest Lubistch, 1933)
14. Aconteceu Naquela Noite (Frank Capra, 1934)
15. Zero de Conduta (Jean Vigo, 1933)
16. No Tempo das Diligências (John Ford, 1939)
17. Paraíso Infernal (Howard Hawks, 1939)
18. Um Dia no Campo (Jean Renoir, 1936)
19. Vampiro (Carl T. Dreyer, 1931)
20. Conto dos Crisântemos Tardios (Kenji Mizoguchi, 1939)



- Postado por: Vlademir as 21h06
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