


François Truffaut sempre foi dos maiores apaixonados pelo cinema de Alfred Hitchcock. Como fã ardoroso do mestre de suspense, analisou exaustivamente a sua obra e escreveu diversos textos, artigos e estudos, além de uma série de entrevistas que dariam origem ao seu mais famoso livro, que expôs toda a obra hitchcockiana, com detalhes de criação de todos os seus clássicos. Em 1967, depois de dez anos dirigindo curtas e longas-metragens, já consagrado como grande cineasta, Truffaut resolveu se arriscar em homenagear o estilo de Hitchcock, realizando um filme de suspense e vingança intitulado A NOIVA ESTAVA DE PRETO (La Mariée Etait em Noir), Uma das mais curiosas imitações dos filmes de Hitchcock, a começar pela música bastante climática de Bernard Hermann (que incluiu alguns trechos da Marcha Nupcial, só que com toques de terror). O mais interessante é que é uma das raras abordagens de Truffaut no cinema de gênero, com mais ação do que o habitual no restante de seus filmes. Mas ao contrário de um Brian DePalma, que chupa até os ossos e chega a copiar situações e cenas inteiras dos filmes de Hitchcock, Truffaut não cai na mesma armadilha e constrói seu filme com relativa originalidade. A trama é baseada numa novela policial que o diretor lia escondido na adolescência, sobre uma obcecada e misteriosa viúva transtornada pela sede de vingança, e que num plano ardiloso e pacientemente arquitetado, se dedica a eliminar um por um os responsáveis pelo homicídio de seu noivo, assassinado ao saírem da porta da igreja no dia do casamento Jeanne Moreau nem sempre convence no papel central, mas OK, ela é Jeanne Moreau e ponto final. As filmagens foram tumultuadas (com brigas do cineasta com Raoul Coutard, o diretor de fotografia, e com a própria atriz), e Truffaut não gostou muito do resultado final do filme, embora o próprio Hitchcock tenha escrito elogiando o filme. “Gostei especialmente da cena em que Moreau observa a morte lenta do homem que envenenou. Com meu humor algo especial, creio que a teria feito ir ainda um pouco mais longe, pondo uma almofada sob sua cabeça, para que ele morresse ainda mais confortavelmente.” A NOIVA ESTAVA DE PRETO é envolvente, sedutor e bonito, e bastante hitchcokiano, ainda que Truffaut não tenha assimilado com perfeição o estilo do mestre do suspense. O filme tem eventuais deficiências, como alguns furos na narrativa, certas soluções fáceis, e uma evidente inexperiência do diretor com cenas de ação, o que compromete alguns dos momentos da obra. É um filme imperfeito, desigual, mas cujo desequilíbrio não é suficiente para estragar seu resultado geral. Os críticos mais severos apontam como desastrosa essa influência de Hitchcock na obra de Truffaut, porém não é difícil apreciar A NOIVA ESTAVA DE PRETO. Ainda que pareça deslocado em sua filmografia, é uma boa variação na carreira do diretor francês. Aliás, nesse final de semana prosseguirei um ciclo dedicado ao Truffaut, assistindo outros dois de seus filmes: A Sereia do Mississipi, com Catherine Deneuve, e A História de Adele H., com Isabelle Adjani.

O terror (antes de ser pasteurizado para ser consumido irrefletidamente de maneira simplista e sistemática pelo público cinéfilo médio) é o mais estranho e doente dos gêneros do cinema. Tanto que se levou algumas décadas para ser popularizado desde a invenção do cinematógrafo pelos irmãos Lumiere em 1895. Na década de 10 houve algumas experiências de horror com curtas, mas seriam os alemães a partir de 1919 que desenvolveriam suas obsessões dentro do estilo, com o surgimento de obras-primas como O Gabinete do Dr. Caligari, O Golem, e sobretudo, Nosferatu, tão aterrador que se criou a lenda de ser protagonizado por um monstro real. A indústria norte-americana logo enxergaria as possibilidades comerciais do gênero, criando uma série de exemplares de terror já na década de 20, porém se pode dizer que o estilo engatilhou lentamente até que em 1931 a Universal tomou de assalto as telas de cinema com duas produções que estouraram nas bilheterias e definiram o gênero no imaginário popular: Frankenstein, de James Whale, e Drácula, de Tod Browning. Além de transformarem em astros os seus atores principais, o mais importante é que esses dois filmes fizeram os produtores enxergarem um filão que para sempre seria dos mais rentáveis, e não apenas a Universal apressou a realização de novas produções de terror como outros estúdios preocuparam-se em explorar o potencial do gênero. Mas nenhum outro filme da época levou até as últimas conseqüências as possibilidades mais doentias e aterradoras do cinema quanto FREAKS, que Irving Thalberg produziu para Metro. Chamando o mesmo Tod Browning, que gozava de grande prestigio graças ao sucesso de Drácula, o cineasta teve carta branca do estúdio, que pediu à ele que fizesse algo ainda mais horripilante e assustador do que os filmes que a Universal vinha fazendo. Em suma, que superasse a forte concorrência do estúdio rival. Browning chamou dezenas de deformados reais que trabalhavam em diversas companhias ambulantes na Europa e na América para protagonizarem seu filme: vários anões, duas irmãs siamesas (quando uma é beijada, outra também gosta), uma mulher-barbada (e grávida), um homem-esqueleto (que não devia pesar mais que trinta quilos), três microcéfalos (duas mulheres e um homem, este também vestido de mulher, todos com cabeça minúscula e com comportamento infantilizado), um andrógino, uma mulher sem braços (que usa os dedos dos pés para levar o garfo à boca com toda naturalidade), e um homem indiano, sem braços nem pernas, formando apenas um torso, enfiado numa espécie de saco que o deixa com uma forma parecida como que de uma ameba (o mais impressionante é que esse último freak era capaz de acender com a maior tranqüilidade um cigarro com um fósforo que ele mesmo tira da caixa ou de fazer qualquer coisa com a boca). Esse estranhíssimo elenco composto sem truques nem maquiagem compunham o repertório principal do filme em questão. O enredo foi tirado de um livrinho obscuro: um dos anões, herdeiro de uma grande fortuna, é seduzido pela bela e gananciosa trapezista Cleópatra, que finge gostar dele, mas que com a ajuda do amante, Hércules (o homem-forte do circo em que todos eles trabalham), planeja roubar-lhe o dinheiro. Os outros deformados se dispõem a evitar o golpe. Browning conseguiu arrancar performances naturais e espontâneas dos deficientes, acostumados a representarem a si mesmos nos shows em que se apresentavam. Todos foram tratados com simpatia nos sets da produção (a única que se disse explorada pelo filme foi a mulher-barbada), ainda que impedidos de circularem muito longe das filmagens para não causarem temor no estúdio. Várias estrelas da época recusaram os papéis “normais” do filme, receosos de se comprometerem em um projeto tão diferente. É até injusto reduzir FREAKS a classificação de filme de terror (por mais que o filme esteja dentro do gênero), porque ele transcende e muito o gênero. FREAKS é mais um drama humano, no qual diferentemente do que poderia se supor, não glamouriza o horror, tampouco enxerga seus personagens como coitadinhos. FREAKS é o mais terrível exercício de terror nas telas, uma vez que nenhum outro utilizou o grotesco humano e real de tal forma, opondo e alternando humor negro e ternura, de um modo que o torna uma obra-prima ainda inigualável. Browning afrontou a noção maniqueísta tão usual no cinema e na literatura, que define heróis e vilões de acordo com a estética imposta pelos padrões de beleza. Quando FREAKS foi lançado, causou escândalo e naufragou nas bilheterias diante das escassas platéias que tiveram coragem de assisti-lo, acabando com a carreira de Browning, que dali em diante teve pouquíssimas outras oportunidades de dirigir. FREAKS ainda foi cortado e mutilado, até que com a implantação do Código de censura nas telas norte-americanas em 1934, o filme foi engavetado de vez. Em outros paises, foi proibido, principalmente na Inglaterra, onde foi atacado por religiosos e moralistas. Com o tempo, o cinema foi assimilando monstros de todas as estirpes em suas telas (mas nunca com o realismo do filme de Browning), até que FREAKS foi se tornando aceitável, sendo redescoberto nos anos 60 e ganhando aura de cult nas Sessões da Meia-Noite nos anos 70 – sem nunca, contudo, perder o caráter de filme maldito. O filme hoje em dia pode não aterrorizar tanto quanto no lançamento, mas conserva a mescla de pavor e lirismo que o transformou numa obra cinematográfica de qualidade ímpar. Um filme para ser reverenciado e revisto pelo menos uma vez a cada seis meses.