Quem sou eu?

   Cultivo todas as paixões, de preferência, até as últimas conseqüências. Compulsivo colecionador de dvds, livros, discos de vinil e outras velharias mais. Um curioso com sede de pesquisa, crítico, leitor contumaz, apaixonado pela vida e pela morte, também por literatura, cinema e música. Ou então, não mais que um mero vagabundo. Nunca desejei ser mais do que isso. Não sou escravo nem senhor. Não tenho nada a perder e nada a ganhar.

Recomendo


Link


Histórico


- 24/08/2008 a 30/08/2008
- 17/08/2008 a 23/08/2008
- 10/08/2008 a 16/08/2008
- 03/08/2008 a 09/08/2008
- 27/07/2008 a 02/08/2008
- 20/07/2008 a 26/07/2008
- 13/07/2008 a 19/07/2008
- 06/07/2008 a 12/07/2008
- 29/06/2008 a 05/07/2008
- 15/06/2008 a 21/06/2008
- 08/06/2008 a 14/06/2008
- 01/06/2008 a 07/06/2008
- 25/05/2008 a 31/05/2008
- 11/05/2008 a 17/05/2008
- 04/05/2008 a 10/05/2008
- 27/04/2008 a 03/05/2008
- 20/04/2008 a 26/04/2008
- 13/04/2008 a 19/04/2008
- 06/04/2008 a 12/04/2008
- 30/03/2008 a 05/04/2008
- 23/03/2008 a 29/03/2008
- 16/03/2008 a 22/03/2008
- 09/03/2008 a 15/03/2008
- 02/03/2008 a 08/03/2008
- 24/02/2008 a 01/03/2008
- 17/02/2008 a 23/02/2008
- 10/02/2008 a 16/02/2008
- 03/02/2008 a 09/02/2008

Contador










THRILLER – A CRUEL PICTURE

Kill Bill é um marco do cinema contemporâneo. O filme é uma bosta, mas tornou conhecido vários filmes obscuros os quais Quentin Tarantino usou como influência para a confecção de seu filme. Uma dessas referências mais marcantes é a de um exploitation europeu de 1974 do sueco Bo Ane Vibenius, THRILLER – A CRUEL PICTURE, também conhecido como “They Call Her One-Eyed”, uma bordoada cinematográfica repleta de violência, sexo explicito e vingança no final. Se o mundo fosse perfeito, todo mundo assistiria esse filme sem saber nada de sua história, pois THRILLER é um dos filmes que quanto menos se sabe a respeito, mais surpreende, porém como não existe perfeição nesse mundo, ai vai uma sinopse de práxis: Madeleine é uma garota que, quando pequena, foi violentada por um mendigo e, traumatizada, perde a voz e nunca mais consegue proferir uma palavra sequer. Adolescente, tenta superar o passado trabalhando arduamente numa fazenda remota. Certo dia, depois de perder o ônibus que a levaria de volta pra casa, ela é abordada por um sujeito simpático que lhe oferece carona. Eles vão a um restaurante, onde ele a embebeda e depois a leva para uma casa estranha, onde ela é dopada e desmaia. O sujeito na verdade era um cafetão e enquanto ela dorme, ele injeta várias doses de heroína no braço da garota, de modo que ela já acorda viciada. O cafetão a chantageia e a prende no local para que ela se prostitua em troca de heroína e alguma grana, e uma série de circunstâncias a fazem perder um olho, ter que se submeter aos horrores da prostituição e os maus-tratos dos clientes e do cafetão, e ainda por cima descobre que seus pais morreram por causa dela. THRILLER pode parecer apelativo e fascista por justificar a justiça com as próprias mãos e a violenta vingança da protagonista no final, porém o filme tem um belo andamento narrativo e um desenvolvimento eficiente que constrói de maneira lenta e devagar um drama humano cruel e desolador até chegar perto do final, onde só ai a ação explode. Sim, durante mais de dois terços, o filme é mais um drama onde arrancaram tudo que Madeleine possuía, toda dignidade, seus laços afetivos, sua capacidade de expressão, seu olhar inocente e belo que já não existe mais. Não que o filme faça rodeios: ele é seco, direto, enxuto. Tecnicamente o filme é competente, ainda que tenha que se relevar alguma que outra cena de ação que trinta anos tenha envelhecido e as atuações over do elenco, o que não tira o mérito da marcante presença em cena da atriz principal, Christina Lindberg. Ela tinha vinte e poucos anos quando participou do filme, mas em cena parece ter uns dezesseis, e convence inteiramente, transmitindo toda a desolação que sua personagem possui. A maior polêmica do filme, no entanto, são as cenas pornôs enxertadas na narrativa, com direito a sexo anal, genitálias e ejaculações envolvendo prostitutas reais que serviram de dublês nessas seqüências (algo parecido com o que ocorreria com Calígula, de Tinto Brass, alguns anos depois). Porém, por mais explicitas que sejam essas cenas, elas de modo algum servem para excitar, por causa do contexto doentio e doloroso da fita. Por essas e outras, THRILLER tornou-se o segundo filme a ser banido na Suécia (o primeiro foi um de 1912), por causa do sexo e da violência (a cena da perfuração do olho é tão realista ao ponto de terem usado um cadáver na filmagem). Mas ainda assim o filme se impõe por suas qualidades, não pelo escândalo. No resto do mundo o filme foi lançado em versões cortadas (sem as seqüências de sexo hardcore), mas só se tornou definitivamente célebre quando Tarantino confessou a inspiração nele para criar Kill Bill, principalmente na composição do personagem de Elle Driver (interpretado por Daryl Hannah, que também usa o pach de pirata cobrindo o olho mutilado) além de outros detalhes na trama (como a vingança calculadamente metodicamente, etc.). Já o diretor do filme, Vibenius (assistente de Bergman em Persona e A Hora do Lobo), nunca mais fez nada de relevante. Enfim, THRILLER é um filme B que se transformou num clássico do cinema maldito, um filme que nos faz alimentar o desejo de pegar uma bazuca e sair por ai semeando a discórdia e matando a esmo.



- Postado por: Vlademir às 14h22
| envie esta mensagem


_______________________________



FILMES VISTOS NA SEMANA (20-26 ABRIL)

Moscou Contra 007 (Terence Young, 1963)REVISÃO *****
A Idade da Terra (Glauber Rocha, 1980)REVISÃO *
Parceiros da Morte (Sam Peckinpah, 1961) ***
Paisá (Roberto Rossellini, 1946) ****
Henrique V (Laurence Olivier, 1945) ***
O Anjo Nasceu (Julio Bressane, 1969) ***
O Corvo (Roger Corman, 1963) **
Evil Dead 2 (Sam Raimi, 1987) *
Gloria Feita de Sangue (Stanley Kubrick, 1957)REVISÃO *****
A Propos de Nice (Jean Vigo, 1929) ****
Blade Runner (Versão Internacional) (Ridley Scott, 1982) *****
Les Mistons (François Truffaut, 1957) ****
Histoire d’eau (François Truffaut & Jean-Luc Godard, 1961) ***
Di-Glauber (Glauber Rocha, 1977)REVISÃO ****
Sonata de Outono (Ingmar Bergman, 1978) ****


- Postado por: Vlademir às 18h45
| envie esta mensagem


_______________________________



DI-GLAUBER

 

"A morte é um tema festivo pros mexicanos, e qualquer protestante essencialista como eu não a considera tragedya . . Em Terra em Transe o poeta Paulo Martins recitava que convivemos com a morte...etc... dentro dela a carne se devora - e o cangaceiro Corisco, em Deus e o Diabo na Terra do Sol, morre profetizando a ressurreição do sertão no mar que vira sertão que vira mar...
Matei muitos personagens? Eles morreram por conta própria, engendrados e sacrificados por suas próprias contradições: cada massacre dialético que enceno e monto se autodefine na síntese fílmica, e do expurgo sobram as metáforas vitais.
As armas de fogo, facas e lanças são os objetos mortais usados por meus personagens, mas a rainha Soledad bebe simbolicamente veneno no final de Cabeças Cortadas e os mercenários de O Leão de Sete Cabeças são enforcados. Em Câncer, Antônio Pitanga estrangula Hugo Carvana, assim como Carvana se suicida em Terra em Transe. Em Claro foi usado um canhão para matar um mercenário no Vietnam e dois personagens morrem afogados em Barravento, além das multidões incalculáveis massacradas por Sebastião, Corisco, Diaz, etc.
Filmar meu amigo Di morto é um ato de humor modernista-surrealista que se permite entre artistas renascentes: Fênix/Di nunca morreu. No caso o filme é uma celebração que liberta o morto de sua hipócrita-trágica condição. A Festa, o Quarup - a ressurreição que transcende a burocracia do cemitério. Por que enterrar as pessoas com lágrimas e flores comerciais? Meu filme, cujo título, dado por Alex Viany, é Di-Glauber, expõe duas fases do ritual: o velório no Museu de Arte Moderna e o sepultamento no Cemitério São João Batista. É assim que sepultamos nossos mortos.
Chocado pela tristeza de um ato que deveria ser festivo em todos os casos (e sobretudo no caso de um gênio popular como Emiliano di Cavalcanti) projetei o Ritual Alternativo; Meu Funeral Poético, como Di gostaria que fosse, lui. . . o símbolo da Vida...
No campo metafórico transpsicanalítico materializo a vitória de São Jorge sobre o Dragão. E, no caso de uma produção independente, por falta de tempo e dinheiro, e dada a urgência do trabalho, eu interpreto São Jorge (desdobrado em Joel Barcelos e Antônio Pitanga) e Di-O Dragão. Mas curiosamente Eu Sou Orfeu Negro (Pitanga) e Marina Montini, dublemente Eurídice (musa de Di), é a Morte. Meus flash-backs são meu espelho e o espelho ocupa a segunda parte do filme, inspirado pelo Reflexos do Baile, de Antônio Callado, e Mayra, de Darcy Ribeiro. Celebrando Di recupero o seu cadáver, e o filme, que não é didático, contribui para perpetuar a mensagem do Grande Pintor e do Grande Pajé Tupan Ará, Babaraúna Ponta-de-Lança Africano, Glória da Raça Brazyleira!
A descoberta poética do final do século será a materialização da Eternidade."

Di (Das) Mortes, GlauberRocha, texto mimeografado, distribuído na sessão do filme em 11 de março de 1977 na Cinemateca do MAM.



- Postado por: Vlademir às 18h42
| envie esta mensagem


_______________________________



TABAJARA RUAS FILMA DOCUMENTÁRIO SOBRE LEONEL BRIZOLA

Outro dia ao visitar o blog do poeta e jornalista Nei Duclós, tive a agradável surpresa de descobrir que Tabajara Ruas havia finalizado um documentário sobre Leonel Brizola. Tabajara Ruas tem crédito merecido por ser o autor de romances muito bons e por ter co-dirigido o belo longa-metragem Neto Perde Sua Alma, e sendo este espaço um blog de cinema, só isso já seria suficiente para o filme merecer ao menos algumas linhas por aqui, mas o que me leva a escrever sobre ele é por eu sempre ter sido um admirador da figura de Leonel Brizola. Para o bem ou para o mal, provavelmente o maior estadista que apareceu na política brasileira na segunda metade do século XX. Seu surgimento na vida pública deu-se logo após a redemocratização brasileira, em 1947, quando candidato a deputado estadual aqui no Rio Grande do Sul. Getúlio Vargas, ao conhecê-lo, profetizou: “Esse guri vai longe!” Ganhou aquela primeira eleição, reelegendo-se em 1950. Sentiu o gosto da derrota no ano seguinte, na eleição para a prefeitura de Porto Alegre, quando foi derrotado por uma pequeníssima diferença de votos por Ildo Meneguetti (na época com o dobro de sua idade), bastante popular naquele período, principalmente por sua ligação com o Sport Club Internacional, o Rolo Compressor daqueles anos. Aquela derrota quase que sepulta a carreira política de Brizola, mas pode-se dizer que teve seu moral levantado um ano depois ao tomar posse como Secretário de Obras do Governo do Estado. Sua gestão nesse cargo é bastante considerada, tanto que em 1955 ele facilmente vence a eleição para prefeito de Porto Alegre. Nessa vertiginosa ascensão, três anos depois se elege o mais jovem governador do estado, com a maior votação da história. Mais importante que isso, é que até muitos dos adversários políticos o reconhecem como o maior governador que o Rio Grande do Sul já teve. Seu governo foi revolucionário, principalmente pela encampação da CEEE. Mas entrou definitivamente para a História do Brasil quando em 1961 impediu um Golpe Militar encabeçando a chamada Campanha da Legalidade, que estremeceu o país inteiro. Sua popularidade já não se restringia apenas ao Rio Grande: em 1962 foi eleito Deputado Federal pelo Rio de Janeiro (então estado da Guanabara), com um terço dos votos totais, a maior votação da história do país. Já era tido como a maior ameaça para a elite nacional, por causa de suas idéias nacionalistas e progressivas. Tanto que muitos defendem a tese de que o golpe de 1964 ocorreu principalmente para que Leonel Brizola não chegasse à presidência. Brizola queria armar a resistência ao Golpe, porém o presidente deposto João Goulart não permitiu. A única saída foi o exílio no Uruguai, onde tentou em vão formar grupos de revolta ao regime militar, mas principalmente manteve-se fiel a si mesmo ao negar uma aliança com seu antigo adversário, Carlos Lacerda (uma das mais odiosas figuras da história do Brasil), que ajudara no Golpe e que agora se reconciliara com a esquerda. Enquanto isso, no Brasil o regime tratava de manchar o seu nome e sua memória, usando os meios de comunicação que haviam à disposição no momento. Mais de dez anos depois, por pressão do governo brasileiro, Brizola foi expulso pelo governo uruguaio, e refugiou-se nos EUA e em seguida em Portugal, onde reuniu trabalhistas históricos, diante da incipiente redemocratização brasileira. Com a Abertura política, o estadista pôde voltar ao Brasil, em 1979, recebido nos braços do povo, pronto para ser presidente, mas os donos do poder trataram de adiar o máximo possível as eleições diretas, enquanto continuavam denegrindo a figura pública de Brizola. Teve a legenda de seu partido roubada, e denunciou uma fraude eleitoral que quase o impediu de ser eleito governador do Rio de Janeiro em 1982. Quatro anos depois, com o país inteiro envolvido na grande ilusão do Plano Cruzado, Brizola foi uma das poucas e mais altivas vozes dissonantes à proclamar aquele blefe, o que depois se confirmou ser verdade. As eleições presidenciais, entretanto, só vieram em 1989, mas o tempo já havia feito o seu estrago. Figuras medíocres como Collor e Lula haviam adquirido grande popularidade, e impediram a chegada de Brizola à presidência. Foi eleito mais uma vez governador do Rio de Janeiro, para um mandato que o desgastou bastante publicamente, com uma superexposição da violência no estado na mídia nacional (incluindo os tais arrastões nas praias cariocas), o que ajudou com que não vencesse mais nenhuma das eleições a que concorreu até sua morte. De tanta coisa que se pode dizer dele, destaca-se a fidelidade e grande admiração que recebia do valoroso Darcy Ribeiro, e por ter sido inimigo ferrenho e intransigivel da Rede Globo de Televisão (foi um dos poucos e o que mais bateu de frente contra os interesses dessa empresa), além do fato de ter sabido as vezes que tinha que apoiar ou não o hoje presidente Lula (tanto que ele retirou seu apoio logo no inicio do mandado do atual presidente). Enfim, por mais questionável e duvidosa que possa ser o perfil da figura pública descrita acima, sua biografia por si só garante o valor desse recém-lançado documentário sobre a sua pessoa. O site do filme é http://www.brizolatemposdeluta.com.br/

- Postado por: Vlademir às 18h09
| envie esta mensagem


_______________________________