


Kill Bill é um marco do cinema contemporâneo. O filme é uma bosta, mas tornou conhecido vários filmes obscuros os quais Quentin Tarantino usou como influência para a confecção de seu filme. Uma dessas referências mais marcantes é a de um exploitation europeu de 1974 do sueco Bo Ane Vibenius, THRILLER – A CRUEL PICTURE, também conhecido como “They Call Her One-Eyed”, uma bordoada cinematográfica repleta de violência, sexo explicito e vingança no final. Se o mundo fosse perfeito, todo mundo assistiria esse filme sem saber nada de sua história, pois THRILLER é um dos filmes que quanto menos se sabe a respeito, mais surpreende, porém como não existe perfeição nesse mundo, ai vai uma sinopse de práxis: Madeleine é uma garota que, quando pequena, foi violentada por um mendigo e, traumatizada, perde a voz e nunca mais consegue proferir uma palavra sequer. Adolescente, tenta superar o passado trabalhando arduamente numa fazenda remota. Certo dia, depois de perder o ônibus que a levaria de volta pra casa, ela é abordada por um sujeito simpático que lhe oferece carona. Eles vão a um restaurante, onde ele a embebeda e depois a leva para uma casa estranha, onde ela é dopada e desmaia. O sujeito na verdade era um cafetão e enquanto ela dorme, ele injeta várias doses de heroína no braço da garota, de modo que ela já acorda viciada. O cafetão a chantageia e a prende no local para que ela se prostitua em troca de heroína e alguma grana, e uma série de circunstâncias a fazem perder um olho, ter que se submeter aos horrores da prostituição e os maus-tratos dos clientes e do cafetão, e ainda por cima descobre que seus pais morreram por causa dela. THRILLER pode parecer apelativo e fascista por justificar a justiça com as próprias mãos e a violenta vingança da protagonista no final, porém o filme tem um belo andamento narrativo e um desenvolvimento eficiente que constrói de maneira lenta e devagar um drama humano cruel e desolador até chegar perto do final, onde só ai a ação explode. Sim, durante mais de dois terços, o filme é mais um drama onde arrancaram tudo que Madeleine possuía, toda dignidade, seus laços afetivos, sua capacidade de expressão, seu olhar inocente e belo que já não existe mais. Não que o filme faça rodeios: ele é seco, direto, enxuto. Tecnicamente o filme é competente, ainda que tenha que se relevar alguma que outra cena de ação que trinta anos tenha envelhecido e as atuações over do elenco, o que não tira o mérito da marcante presença em cena da atriz principal, Christina Lindberg. Ela tinha vinte e poucos anos quando participou do filme, mas em cena parece ter uns dezesseis, e convence inteiramente, transmitindo toda a desolação que sua personagem possui. A maior polêmica do filme, no entanto, são as cenas pornôs enxertadas na narrativa, com direito a sexo anal, genitálias e ejaculações envolvendo prostitutas reais que serviram de dublês nessas seqüências (algo parecido com o que ocorreria com Calígula, de Tinto Brass, alguns anos depois). Porém, por mais explicitas que sejam essas cenas, elas de modo algum servem para excitar, por causa do contexto doentio e doloroso da fita. Por essas e outras, THRILLER tornou-se o segundo filme a ser banido na Suécia (o primeiro foi um de 1912), por causa do sexo e da violência (a cena da perfuração do olho é tão realista ao ponto de terem usado um cadáver na filmagem). Mas ainda assim o filme se impõe por suas qualidades, não pelo escândalo. No resto do mundo o filme foi lançado em versões cortadas (sem as seqüências de sexo hardcore), mas só se tornou definitivamente célebre quando Tarantino confessou a inspiração nele para criar Kill Bill, principalmente na composição do personagem de Elle Driver (interpretado por Daryl Hannah, que também usa o pach de pirata cobrindo o olho mutilado) além de outros detalhes na trama (como a vingança calculadamente metodicamente, etc.). Já o diretor do filme, Vibenius (assistente de Bergman em Persona e A Hora do Lobo), nunca mais fez nada de relevante. Enfim, THRILLER é um filme B que se transformou num clássico do cinema maldito, um filme que nos faz alimentar o desejo de pegar uma bazuca e sair por ai semeando a discórdia e matando a esmo.
"A morte é um tema festivo pros mexicanos, e qualquer
protestante essencialista como eu não a considera tragedya . . Em Terra em
Transe o poeta Paulo Martins recitava que convivemos com a morte...etc... dentro
dela a carne se devora - e o cangaceiro Corisco, em Deus e o Diabo na Terra do
Sol, morre profetizando a ressurreição do sertão no mar que vira sertão que vira
mar...
Matei muitos personagens? Eles morreram por conta própria,
engendrados e sacrificados por suas próprias contradições: cada massacre
dialético que enceno e monto se autodefine na síntese fílmica, e do expurgo
sobram as metáforas vitais.
As armas de fogo, facas e lanças são os objetos
mortais usados por meus personagens, mas a rainha Soledad bebe simbolicamente
veneno no final de Cabeças Cortadas e os mercenários de O Leão de Sete Cabeças
são enforcados. Em Câncer, Antônio Pitanga estrangula Hugo Carvana, assim como
Carvana se suicida em Terra em Transe. Em Claro foi usado um canhão para matar
um mercenário no Vietnam e dois personagens morrem afogados em Barravento, além
das multidões incalculáveis massacradas por Sebastião, Corisco, Diaz,
etc.
Filmar meu amigo Di morto é um ato de humor modernista-surrealista que
se permite entre artistas renascentes: Fênix/Di nunca morreu. No caso o filme é
uma celebração que liberta o morto de sua hipócrita-trágica condição. A Festa, o
Quarup - a ressurreição que transcende a burocracia do cemitério. Por que
enterrar as pessoas com lágrimas e flores comerciais? Meu filme, cujo título,
dado por Alex Viany, é Di-Glauber, expõe duas fases do ritual: o velório no
Museu de Arte Moderna e o sepultamento no Cemitério São João Batista. É assim
que sepultamos nossos mortos.
Chocado pela tristeza de um ato que deveria ser
festivo em todos os casos (e sobretudo no caso de um gênio popular como Emiliano
di Cavalcanti) projetei o Ritual Alternativo; Meu Funeral Poético, como Di
gostaria que fosse, lui. . . o símbolo da Vida...
No campo metafórico
transpsicanalítico materializo a vitória de São Jorge sobre o Dragão. E, no caso
de uma produção independente, por falta de tempo e dinheiro, e dada a urgência
do trabalho, eu interpreto São Jorge (desdobrado em Joel Barcelos e Antônio
Pitanga) e Di-O Dragão. Mas curiosamente Eu Sou Orfeu Negro (Pitanga) e Marina
Montini, dublemente Eurídice (musa de Di), é a Morte. Meus flash-backs são meu
espelho e o espelho ocupa a segunda parte do filme, inspirado pelo Reflexos do
Baile, de Antônio Callado, e Mayra, de Darcy Ribeiro. Celebrando Di recupero o
seu cadáver, e o filme, que não é didático, contribui para perpetuar a mensagem
do Grande Pintor e do Grande Pajé Tupan Ará, Babaraúna Ponta-de-Lança Africano,
Glória da Raça Brazyleira!
A descoberta poética do final do século será a
materialização da Eternidade."
Di (Das) Mortes, GlauberRocha, texto mimeografado, distribuído na sessão do filme em 11 de março de 1977 na Cinemateca do MAM.