

Saiu hoje a lista dos filmes do próximo Festival de Cannes. Os destaques são os novos de Clint Eastwood, Atom Egoyam, Philippe Garrel, Lucrecia Martel, Wim Wenders, Jia Zhangke, Irmãos Dardenne e a estréia de Charles Kauffman na direção. Walter Salles e Daniela Thomas estarão com filme novo também. E será curioso também a biografia do Che Guevara dirigida pelo Steven Soderberg (um cineasta que tenho curtido cada vez menos). Da mostra não-competitiva, destaque para uma paródia ao clássico de Sergio Leone (The God, The Bad, The Weird, do sul-coreano Ji-Woon Kim), além do último do Woody Allen e do novo Indiana Jones. Além desses todos, Emir Kusturica e Kar-Wai estarão apresentando seus mais recentes trabalhos, assim como a filha de David Lynch (Jennifer Lynch), que volta a filmar quinze anos depois do péssimo Encaixotando Helena. A lista ainda não foi fechada, falta a confirmação de outros títulos, como Blindness, do Fernando Meirelles. Sean Penn será o presidente do júri, formado ainda pelo ator e diretor italiano Sergio Castellitto, Natalie Portman, Alfonso Cuaron, a atriz alemã Alexandra Maria Lara, e os cineastas Apichatpong Weerasethakul e Rachid Bouchareb.
FILMES EM COMPETIÇÃO
Nuri Bilge Ceylan - Three Monkeys (Turkey-France-Italy)
Jean-Pierre & Luc Dardenne - Le Silence De Lorna (France-Belgium)
Arnaud Desplechin - A Christmas Story (France)
Clint Eastwood - Changeling (US)
Atom Egoyan - Adoration (Canada)
Ari Folman - Waltz With Bashir (Israel)
Philippe Garrel - La Frontiere De L’Aube (France)
Matteo Garrone - Gomorra (Italy)
Charlie Kaufman - Synecdoche, New York (US)
Eric Khoo - My Magic (Singapore)
Lucretia Martel - La Mujer Sin Cabeza (Argentina-Spain)
Brillante Mendoza - Serbis (The Philippines)
Kornel Mondruczo - Delta (Hungary-Germany)
Walter Salles & Daniela Thomas - Linha De Passe (Brazil)
Paolo Sorrentino - Il Divo (Italy)
Pablo Trapero - Leonera (Argentina-South Korea)
Wim Wenders - The Palermo Shooting (Germany)
Jia Zhangke - 24 City (China)
Steven Soderbergh - Che (US-Spain-France)—one four-hour competion title comprised of Guerrilla and The Argentine
FORA DE COMPETIÇÃO
Steven Spielberg - Indiana Jones And The Kingdom Of The Crystal Skull (US)
Mark Osborne and John Stevenson - Kung Fu Panda (US)
Ji-Woon Kim - The Good, The Bad, The Weird (South Korean)
Woody Allen - Vicky Cristina Barcelona (Spain-US)
SPECIAL SCREENINGS
Marina Zenovich - Roman Polanski: Wanted and Desired (US)
Wong Kar-wai - Ashes Of Time Redux (Hong Kong-China-Taiwan)
Daniel Leconte - C’est Dur D’etre Aime Par Des Cons (France)
Marco Tullio Giordana - Sangue Pazzo (Italy-France)
Terence Davies - Of Time And The City (UK)
MIDNIGHT SCREENINGS
Emir Kusturica - Maradona (Spain)
Jennifer Lynch - Surveillance (US)
Hong-Jin Na - The Chaser (South Korea)

RIO 40 GRAUS e RIO ZONA NORTE é uma das dobradinhas mais clássicas do cinema nacional, que representa o debute de Nelson Pereira dos Santos como cineasta. Antes ele havia realizado apenas alguns poucos curtas-metragens, mas se impôs no cenário cinematográfico nacional com essas duas realizações, sobretudo com o seu primeiro longa, que numa época dominada pela chanchada carioca e pela agonizante Vera Cruz paulista, foi um filme que serviu de base para que poucos anos depois surgisse o Cinema Novo Brasileiro. Pode-se dizer que é o marco zero do moderno cinema nacional. Rodado com orçamento minúsculo, com forte influência do neo-realismo italiano, o filme mostra com ar documental a vida dos moradores de um subúrbio pobre do Rio de Janeiro, com a praia de Copacabana por perto, as intrigas no futebol, os negros amontoados nos barracos da favela, etc. Era muito raro até então (para não dizer inexistente) favelas servirem de locações e negros como personagens centrais. Logo que ficou pronto, o filme ganhou enorme publicidade quando um delegado do Rio tentou censurá-lo, e foi saudado pelos críticos como uma autentica revelação, por sua abordagem direta e realista das ruas e favelas da Cidade Maravilhosa. Porém, Nelson não conseguiu a mesma repercussão com o filme seguinte, RIO ZONA NORTE, que embora fosse de concepção cinematográfica bastante próxima do filme anterior, abandonava o neo-realismo ortodoxo em favor de um melodrama mais elaborado, como que uma simbiose entre a estética neo-realista e o cinema de narrativa clássica. Se RIO ZONA NORTE foi visto como um retrocesso e foi rejeitado à época do lançamento, o tempo tratou de colocar as coisas em seus devidos lugares: hoje em dia, RIO 40 GRAUS sobrevive mais pelo valor histórico (embora continue com grandes qualidades), enquanto que RIO ZONA NORTE resistiu melhor com a passagem dos anos, comprovando que o filme era um passo adiante na obra de Nelson Pereira dos Santos. Ao contrário da narrativa episódica e difusa do anterior, RIO ZONA NORTE é mais concreto e eficaz ao mostrar a vida de um sambista negro (Grande Otelo) que, ferido ao cair de um trem de subúrbio, relembra os últimos meses de sua vida, principalmente a convivência com o filho marginal e as trapaças de um radialista de má-fé de olho em suas canções. O ponto alto é quando Grande Otelo apresenta a letra de um samba de sua autoria para Ângela Maria. Ele começa cantando, ela vai escutando, e em determinado momento a sua diva começa a cantar junto também, lendo a letra no pedaço de papel que o sambista lhe passara e colocando sua voz bem do jeito que o compositor sonhara. A câmera imediatamente acompanha a surpresa e o encantamento do sambista ao ouvir a voz da célebre cantora, com a feição de Grande Otelo se alterando de maneira arrepiante. O filme é repleto de momentos assim. Pena que o insucesso desse filme impossibilitou que Nelson fechasse a sua trilogia carioca, com “Rio Zona Sul”, jamais realizado.