Cultivo todas as paixões, de preferência, até as
últimas conseqüências. Compulsivo colecionador de dvds, livros, discos de vinil
e outras velharias mais. Um curioso com sede de pesquisa, crítico, leitor
contumaz, apaixonado pela vida e pela morte, também por literatura, cinema e
música. Ou então, não mais que um mero vagabundo. Nunca desejei ser mais do que
isso. Não sou escravo nem senhor. Não tenho nada a perder e nada a
ganhar.
Orson Welles apresenta Buster Keaton e sua obra prima A GENERAL.
O vídeo é originalmente uma introdução de uma exibição de A GENERAL num ciclo de
filmes mudos que a televisão norte-americana exibiu nos anos sessenta e dá uma
geral na carreira de keaton, com fragmentos de vários de seus filmes. Welles
considerava Keaton o cineasta mais subestimado da história do cinema. Já é um
vídeo bastante manjado na internet, ripado do VHS "A General", n° 18 da coleção
Os Clássicos do Cinema, lançada pela Filmax/Altaya. Mas é bastante interessante
para quem ainda não assistiu. Felizmente está legendado (com português
lusitano). E para quem se interessar em conhecer a obra de Keaton, no Youtube e
no GoogleVideos tem vários de seus curtas e até longas-metragens inteiros para
serem assistidos. É só procurar.
OS INCOMPREENDIDOS é o filme com o qual gostaria de ter iniciado a minha cinefilia. Ele tem a leveza dos filmes que assistimos pelo prazer de um simples passatempo, como também a profundidade das obras mais obrigatórias. E lança um olhar terno e afetuoso, ao mesmo tempo carregado de rebeldia, sobre uma das passagens da vida que nos é mais cara: a transição da infância para a adolescência (com uma visível influência de Jean Vigo, especialmente Zero de Conduta). E ousa concretizar na tela algo que muitos de nós naquela fase (ou até mesmo em qualquer outro período de nossa vida) almejamos fazer (e que o próprio Truffaut o fizera): a fuga. A fuga para o desconhecido, para o desejado, ou para lugar algum. Antoine correndo, a praia, o close. O filme é aquilo ali. A imagem mais forte que eu tenho da liberdade é aquela cena. Acho que foi Luc Moullet quem escreveu que OS INCOMPREENDIDOS é um filme tão bom por que François Truffaut era ao mesmo tempo um velho de setenta anos e um jovem de dezessete. E é digno de inveja que o cineasta tenha feito o que todo artista sonha: transformar sua vida, sua biografia, em obra de arte, por mais banal que seja sua existência. E logo no primeiro longa. Tão bom que o diretor teve que retornar ao personagem em filmes posteriores.
RESCUE DAWN deve ser comemorado, sobretudo, por marcar o retorno de Werner Herzog aos filmes de ficção, depois de vinte anos restrito a documentários. Mas não se deve exagerar nos fogos de artifício. RESCUE DAWN é mais hollywoodiano do que herzoguiano. Nada contra o cinema americano, ainda mais que sou daqueles que desconfia que este seja, possivelmente, a melhor fonte de grandes filmes na história do cinema mundial. Mas RESCUE DAWN carece da personalidade de Herzog, que no passado concebeu uma quantidade considerável de obras-primas. O filme não tem o delírio, a grandeza, as invenções e a loucura dos grandes filmes do diretor. É competente, bonito, bem-realizado, e por vezes, emocionante. Mas poderia ter sido dirigido por algum outro cineasta ianque que ainda assim teria resultado da mesma maneira. A propósito, sem querer ser nostálgico, porque será que já não se fazem mais filmes como Aguirre ou Fitzcarraldo? Prefiro acreditar que RESCUE DAWN é apenas um projeto de encomenda (ainda que seja baseado num documentário que ele próprio dirigiu anteriormente) que ele dirigiu com correção para abocanhar uma grana fácil, porém espero que volte a dirigir filmes ao seu estilo, de preferência, com produções alemãs, para que não corra o risco de perder sua identidade artística. Até mesmo porque a maioria dos grandes diretores europeus sempre resistiu a se curvar a máquina hollywoodiana, que geralmente esmaga a personalidade de grandes realizadores estranhos à sua estrutura. Enfim, pode ser que RESCUE DAWN cresça com o tempo e que daqui uns vinte anos seja considerado um clássico. Ou que então permaneça como um filme menor de Werner Herzog.
DAY OF THE FIGHT (Stanley Kubrick, 1951) * FLYING PADRE (Stanley Kubrick, 1951) * THE SEAFARERS (Stanley Kubrick, 1953) * FEAR AND DESIRÉE (Stanley Kubrick, 1953) * O DRAGÃO DA MALDADE CONTRA O SANTO GUERREIRO (Glauber Rocha, 1969) REVISÃO ***** COPACABANA, MON AMOUR (Rogério Sganzerla, 1970) **** PAIXÕES QUE ALUCINAM (Samuel Fuller, 1963) ***** O BEIJO AMARGO (Samuel Fuller, 1964) ***** THE SHAPEAD (Herbert Blaché & Winchell Smith, 1920) **** DELIRIOS DE UM ANORMAL (José Mojica Marins, 1977) ** TWO-LANE BLACKTOP (Monte Hellman, 1971) ***** A PAIXÃO DE ANNA (Ingmar Bergman, 1969) *****
Em TWO-LANE BLACKOUT, Monte Hellman transpõe o
estilo de seus faroestes
para o cenário urbano e contemporâneo estadunidense. Os protagonistas são
caubóis sem chapéus em veículos de quatro rodas em vez dos cavalos do velho
oeste. A aridez é a mesma, com planos longos e o tempo estranho e parado em
contraponto aos carros acelerados em uma América existencial, e o som oscilando
entre o silêncio e os rocks norte-americanos de sua época (Doors, Kris
Kristofferson, Chuck Berry, etc.). Não lembro de muitos outros filmes que
mostrem o vazio da juventude em plena era hippie de forma tão incisiva como
esse. É um road-movie com o Dennis Wilson (dos Beach Boys), James Taylor, Laurie
Bird e Warren Oates (provavelmente o ator mais subestimado de todos os tempos).
O filme até esboça uma narrativa, mas ela é completamente abandonada, como que
se Hellman perdesse o interesse em contar uma história ou fazer a trama evoluir.
Ele só se preocupa em filmar lindamente os espaços vazios que serve como
catalisador e em que circulam os errantes protagonistas, com enquadramentos
perfeitos e resultados impressionantes. Não existe preocupação com enredo, trama
ou intriga. O que importa é o que a câmera mostra em cada momento. Não há
explicações anteriores e os propósitos e intenções dos personagens são tão
indefinidos quanto o destino que lhes é reservado. A estranheza da estrutura
persiste até o final, numa mesma direção, onde os movimentos do elenco e dos
carros são os únicos resquícios do que poderíamos chamar de trama. Mais
importante para o diretor não é o desfecho de sua história, mas o caminho até
ele, pelo efeito do cenário nos personagens, onde cada plano parece significar
muito mais do que mostra. Onde a câmera está tão viva e palpável quanto os
carros e homens que ela acompanha. É uma espécie de versão setentista de Velozes
e Furiosos, com carros potentes e seus pilotos, só que com cérebro e conteúdo.
Foi escolhido recentemente como um dos cinqüenta melhores filmes independentes
de todos os tempos. E disputa com Corrida Contra o Destino (Vanishing Point) o
posto de melhor road-movie do cinema americano.