Cultivo todas as paixões, de preferência, até as
últimas conseqüências. Compulsivo colecionador de dvds, livros, discos de vinil
e outras velharias mais. Um curioso com sede de pesquisa, crítico, leitor
contumaz, apaixonado pela vida e pela morte, também por literatura, cinema e
música. Ou então, não mais que um mero vagabundo. Nunca desejei ser mais do que
isso. Não sou escravo nem senhor. Não tenho nada a perder e nada a
ganhar.
FILME DO NELSON PEREIRA DOS SANTOS NA TV - DIA 7 - 2h15
A Globo tem passado bons filmes na sessão
Intercine Brasil, nas madrugadas de segundas-feiras. Outro dia foi exibido “Alma
Corsária”, do Carlos Reichenbach. Agora nessa próxima segunda, será a vez do
mais recente filme do mestre Nelson Pereira dos Santos: BRASILIA 18%. Não vi
ainda, mas filmes do Nelson são imperdíveis. Confesso que a temática dessa sua
última obra não me chama tanto a atenção. Mas vale uma conferida. Está dada a
dica, com um trecho do filme no youtube.
A TALE OF TWO SISTERS (no Brasil, MEDO), filme de
terror coreano contemporâneo, só me faz acreditar ainda mais no que eu já
desconfiava: os melhores filmes asiáticos de horror devem ser os que permanecem
mais obscuros. Os que fazem mais sucesso, como esse e outros exemplares como
“Ring – O Chamado” são fracos e parecem que tentam emular “O Sexto Sentido”, do
Shamalayan. MEDO é tedioso, chato. Tem duas ou três cenas assustadoras e só. O
filme pouco impressiona. Na maior parte do tempo só enche lingüiça.
Surpreende-me é que ainda não tenha sido refilmado por Hollywood.
A DÁLIA NEGRA é um dos filmes mais fracos de Brian
DePalma. Consegue ser mais desinteressante até do que projetos de encomenda do
diretor, como é o caso de “Missão Impossível”, que já não era lá essas coisas.
Há anos o diretor vem em franca decadência (“Missão Marte” e “Femme Fatale” são
igualmente medíocres). A DÁLIA NEGRA, com exceção de duas ou três cenas
impressionantes, parece um teleplay americano qualquer, dos mais comuns,
daqueles que costumam ser exibidos nos Supercines da Globo. É trivial, é vazio,
e na maior parte das vezes, tedioso. Sofre com um trabalho de direção bastante
burocrático de DePalma, carente de criatividade por parte do diretor. O elenco
também não ajuda. Se “Femme Fatale” ressentia-se de um cast muito fraco, pode-se
dizer que em A DÁLIA NEGRA o diretor estraga atores que costumam ser competentes
nas mãos de outros cineastas: Aaron Eckhart, Scarlett Johansson, Hilary Swank
(que por sua vez se dá bem melhor em papéis masculinizados, como em “Meninos Não
Choram” e “Menina de Ouro”). O filme de DePalma se torna ainda mais sofrível se
comparado a outro recente filme sobre serial killers, o excepcional “Zodíaco”,
de David Fincher (que, ironicamente, seria o primeiro diretor a dirigir A DÁLIA
NEGRA). Se “Zodíaco” foi um passo adiante no gênero suspense, acrescentando
qualidades e representando uma evolução marcante nos filmes de assassinos em
série, A DÁLIA NEGRA é um amontoado de clichês constrangedor e revoltante, em
que tampouco as citações ao gênero noir ajuda a torná-lo melhor. Por sinal, no
momento David Fincher dá um banho em Brian DePalma.
Vi em dvd o EXORCISMO NEGRO, um dos filmes de José
Mojica Marins, numa cópia ripada do vhs norte-americano (“The Bloody Exorcism of
Coffin Joe”, com legendas em inglês, claro). Raro cultivador do gênero horror no
Brasil, Mojica teve o seu auge na década de 60, com a realização de quatro
obras-primas indiscutíveis do nosso cinema: “A Meia-Noite Levarei Sua Alma”,
“Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver”, “O Estranho Mundo de Zé do Caixão” e “O
Ritual dos Sádicos”. Á parte o aspecto artesanal e primitivo dessas produções,
os filmes recriavam com habilidade as fórmulas tradicionais do terror, cheios de
inventividade e vigor, numa releitura brejeira e tupiniquim do gênero,
subdesenvolvido e marginal. Depois dessa fase, Mojica decaiu muito o nível de
seus filmes, por causa de problemas com o alcoolismo, com a censura e até mesmo
por causa de um certo desleixo seu como artista. Pode-se dizer que Mojica é um
gênio desleixado, que como realizador é capaz de lances de enorme criatividade,
mas que peca por seqüências muito frágeis e ineficientes, roteiros
mal-costurados, cheios de pontos sem nós. E não raramente com certa carga de
humor involuntário, que em nada ajuda aos seus filmes. EXORCISMO NEGRO é bem
representativo dessa fase. Feito para aproveitar o lançamento do filme-evento
americano “O Exorcista” e pouco depois de ter apresentado seus filmes na França
e ter sido premiado por lá (despertando a atenção e admiração de críticos
europeus), Mojica rodou rapidamente com mais grana do que o habitual (e até com
alguns atores famosos, como Jofre Soares) essa sua abordagem do mesmo tema, tão
rapidamente que seu filme foi terminado antes mesmo que o clássico americano
fosse lançado. Essa pressa nas filmagens pode ser percebida no resultado da
tela: EXORCISMO NEGRO é fraco, pouco mais que razoável. No entanto, é o tipo de
filme que mesmo com suas fragilidades se torna uma curtição, um barato. Mojica
interpreta a si mesmo no filme, num exercício de metalinguagem em que começa
dando entrevista sobre seu personagem mais famoso e sobre o gênero terror em
geral. Até ai é tudo bem bacana. Á seguir, ele vai passar um fim de semana na
casa de campo de amigos, onde fatos estranhos começam a ocorrer: pianinho de
brinquedo toca sozinho; uma cadeira entra no quarto da menina ao mesmo tempo em
que a cabeça de uma imagem santa vai parar em cima do acento; animais selvagens
aparecem na árvore de natal; etc. Até que o cineasta descobre que quase todos
ali estão possuídos pelo demônio. O que era para ser muito interessante é
estragado com os defeitos que, de forma geral, prejudicam a maioria dos filmes
do cineasta: cenas muito boas e bem boladas alternando-se com trechos fracos e
dispensáveis. Porém, nada que torne o filme desprezível. A obra tem um clima que
prende a atenção dos aficcionados, e culmina com um clímax antológico, uma
sessão de torturas perpetrada pelo próprio Zé do Caixão, bem como o confronto
entre o criador e criatura, cenas essas que duram uns quinze minutos e que
lembram até os grandes momentos de seus melhores filmes. Mas isso não é
suficiente para fazer de O EXORCISMO NEGRO um grande filme. Mas ainda assim vale
uma conferida, principalmente aos fãs do cinema nacional, e de Mojica em
especial. Curiosidade: no final dos anos oitenta, o diretor escreveu o roteiro
de uma continuação desse filme, que contaria sobre a morte trágica de quase toda
a família do filme original, com exceção da menina, que possuída pelo espírito
do Zé do Caixão, era a responsável pelo genocídio do lar. Infelizmente, o
projeto nunca foi realizado.
JODOROWSKY FALA DE GLAUBER ROCHA: O OLHAR DO ESTRANGEIRO
Depois de Fernando Meirelles e asseclas cagarem pela boca e falarem o que não deviam, o cultuado Alejandro Jodorowsky fez algumas das mais lúcidas declarações que já li a respeito do cineasta Glauber Rocha. É o olhar e a opinião do estrangeiro, do que enxerga os fatos do lado de fora, sem as deformações do real que sofrem aqueles que estão perto demais para ver as coisas com maior amplidão. Não, não me refiro a elogios fáceis que o cineasta chileno tenha dito sobre Glauber, ainda que ele viva elogiando a pessoa e a obra do baiano. Numa entrevista cedida para a Revista eletrônica Contracampo, Jodorowsky descreveu Glauber de uma maneira que muitos brasileiros de fato foram testemunhas, mas que raramente foram lúcidos o suficiente para descrever em palavras. Pode-se dizer que se trata de uma declaração sem a cegueira da maior parte dos fãs de Glauber, que o tratam como um cânone muitas vezes sem nem conhecer direito sua obra e vida, mas também sem o recalque dos detratores, que insistem em não ver méritos e valor dos mais comprovados e irrefutáveis. Bom, sem mais delongas (até mesmo porque eu também sou suspeito por ser fã de Glauber Rocha), vou transcrever o trecho da entrevista que se refere ao cineasta brasileiro. Mas antes, só queria esclarecer que não pretendo fazer uma crônica quase diária sobre Glauber, uma vez que noutro dia já havia comentado uma noticia relacionado à pessoa dele. Se o faço agora, é apenas para apresentar um contraponto interessante a aquela infeliz declaração de Fernando Meirelles. E vamos todos deixar o falecido cineasta descansar em paz.
Jodorowsky: (...) Então, ele me conhecia. Éramos cineastas e em várias ocasiões nos falamos. Mas depois não pude falar com ele, porque estava completamente em outra dimensão. O seu cérebro já... Não quero dizer o que era, mas já não era uma pessoa normal, não estava normal. Parecia que não havia jeito. Estava em seu mundo, não se podia mais estabelecer nenhuma conversa com ele. Eu lamentei muito, porque assim parecia que ele ia morrer. Diga-me uma coisa. Eu não sei nada da vida do Glauber. Eu o vi muito drogado. Estou errado ou não? Ele estava muito drogado. Estava já à beira do coma, não? Me assustei, de tão drogado que estava.
Contracampo: E quando foi isso? Você se lembra?
Jodorowsky: Ah, isso eu não me lembro. A última vez que o encontrei foi no México. Ele já estava mal. Não pude, simplesmente não pude, ter uma conversa como tive antes, e pensei que ele ia morrer. Ele estava se autodestruindo de alguma forma. Agora, não sei o que aconteceu. Suponho que tenha morrido disso, não? Não sei o que foi. Imagino que tenha sido o desespero de lutar contra um sistema. O desespero. Mas como você vai aceitar um sistema que você ataca? É absurdo. Você destrói o sistema e quer que o sistema te aceite. A única maneira é ignorar o sistema. Ainda que o sistema te ignore, ele não te destrói. Porque se você o ataca, o sistema te arrebenta. Isso é uma opinião muito superficial. Talvez, eu esteja errado. Talvez eu erre, não sou crítico de cinema, não posso estar falando... No entanto, a mistura de literatura que fazia Rocha, a mistura de literatura com ficção, fora do estilo norte-americano, a poesia, as idéias, tudo isso, era um grande cinema. Para mim, era digno de se admirar. Verdadeiramente. Mas, não me influencio por ninguém. Só gostei, nada mais.
BRUTALIDADE (1947) CIDADE NUA (1948) MERCADO DE LADRÕES (1949) SOMBRAS DO MAL (1950) RIFIFI (1954) NUNCA AOS DOMINGOS (1959) PROFANAÇÃO (1960) TOPKAPI (1963) CORAÇÕES DESESPERADOS (1966) PROMESSA AO AMANHECER (1970)
Mais uma semana de muitos filmes, incluindo bastante cinema nacional, e com destaque para as dobradinhas envolvendo Rogério Sganzerla, Alain Resnais e vida e obra de Mário Peixoto.
OPERAÇÃO FRANÇA (William Friedkin, 1971) REVISÃO **** CASAMENTO OU LUXO? (Charles Chaplin, 1923) *** CÂNCER (Glauber Rocha, 1968-72) *** MULHERES E LUZES (Federico Fellini & Alberto Lattuada, 1950) *** ONDE A TERRA ACABA (Sérgio Machado, 2001) *** LIMITE (Mário Peixoto, 1931) REVISÃO ***** O HOMEM DO MORCEGO (Ruy Solberg, 1980) *** A MULHER DE TODOS (Rogério Sganzerla, 1969) ***** SEM ESSA ARANHA (Rogério Sganzerla, 1970) **** MEU TIO MATOU UM CARA (Jorge Furtado, 2004) ** DAYDREAMS (Buster Keaton & Eddie Cline, 1922) **** 007 CONTRA O SATÂNICO DR. NO (Terence Young, 1962) REVISÃO **** RIDE IN THE WHIRLWIND (Monte Hellman, 1965) ***** ANO PASSADO EM MARIENBAD (Alain Resnais, 1961) REVISÃO ***** MURIEL OU LE TEMPS D’UN RETOUR (Alain Resnais, 1963) ***