Quem sou eu?

   Cultivo todas as paixões, de preferência, até as últimas conseqüências. Compulsivo colecionador de dvds, livros, discos de vinil e outras velharias mais. Um curioso com sede de pesquisa, crítico, leitor contumaz, apaixonado pela vida e pela morte, também por literatura, cinema e música. Ou então, não mais que um mero vagabundo. Nunca desejei ser mais do que isso. Não sou escravo nem senhor. Não tenho nada a perder e nada a ganhar.

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FUNERAL PARADE OF ROSES (BARA NO SORETSU)

Há muito tempo que estava curioso para assistir FUNERAL PARADE OF ROSES, filme japonês de 1969 dirigido por Toshio Matsumoto, pelo simples fato de que teria inspirado o LARANJA MECÂNICA, do Kubrick. Só esse detalhe me fez ficar com uma vontade danada de conhecer essa obra, pois Laranja sempre foi um dos meus filmes de cabeceira. Finalmente agora à noite tive a oportunidade de assisti-lo. É uma versão gay e contemporânea de Édipo Rei, tendo por protagonistas travestis japoneses, em que um moleque mata a própria mãe para mais tarde virar traveco e casar com o próprio pai! A principio, o filme estava me decepcionando, devia estar com a expectativa errada e alta demais por inconscientemente achar que seria algo como o próprio LARANJA MECÂNICA, por ler em tudo que e lugar que se refere ao filme japonês como tendo influenciado do Kubrick, embora eu soubesse que a história de um não tem nada a ver com a do outro. Mas lá pela metade superei a sensação de estranheza que a película provoca, e entrei no clima do filme. O enredo é um tanto quanto confuso com sua mescla de comédia de costumes com melodrama ácido, como se fosse algum dos filminhos de Pedro Almodóvar, mas aqui a diferença é como tudo é contado. O filme é cheio de invenções cinematográficas, utilizando e recriando inúmeras técnicas de filmagens para contar visualmente a história, com uma edição vertiginosa, repleta de elipses, cenas aceleradas, vinhetas, esquetes, entrevistas, justaposição súbita de tomadas, narrativa entrecortada e circular,com avanços e recuo no tempo, etc. Uma mistura bizarra e caótica de cenas documentais com ficção, retratando o submundo homossexual de Tokyo nos anos 60, como parte da contracultura nipônica, sempre alternando tons calmos e violentos na narrativa. E o fato de os personagens serem todos travestis acaba se tornando irrelevante, pois o caráter humano da história se sobrepõe a essa condição. Foi uma influência estética confessa de Kubrick, que dizia ser este um dos seus filmes preferidos. Ao assisti-lo, percebem-se claramente os vários momentos que Kubrick roubou para fazer o LARANJA, que reproduz cenas praticamente idênticas, entre as quais as que o Kubrick copiou para fazer a cena em que Alex DeLarge transa em ritmo acelerado com a música em velocidade alterada, o Alex caminhando de braços dados com as duas garotas na loja de discos, ou a que ele briga com a mulher do hotel até matá-la, atingindo-a com um objeto na cabeça, etc. Em suma, as sacadas visuais são praticamente as mesmas nesses e em outros momentos, movimentos de câmeras, soluções narrativas, essas coisas. Até o score desse é semelhante aos temas musicais criados por Walter Carlos para o LARANJA MECÂNICA. E ao mesmo tempo, ambos os filmes são obras distintas. E muito bons, apesar de que o do Kubrick tenha ficado bem mais famoso, até mesmo por ser muito melhor e mais palatável.



- Postado por: Vlademir às 03h12
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A BRUXA ANDA SOLTA NO MUNDO DO CINEMA

Essa semana tem sido marcada pela morte de figuras distintas ligadas ao cinema. Hoje foi anunciado o falecimento do ator Paul Scorfield, vencedor do Oscar de Melhor Ator por sua atuação em O HOMEM QUE NÃO VENDEU SUA ALMA (1966). Muitos também devem lembrar dele em QUIS SHOW (1994), em que ele interpretava o pai do personagem de Ralph Fiennes. Mas as perdas que mais repercutiram no mundo dos cinéfilos foram as do diretor Anthony Minghella e a do escritor Arthur C. Clarke, ocorridas na última quarta-feira, dia 19. Por um lado, nem dá para dizer que a morte de Minghella foi lamentada, pois é um cineasta que não vai fazer falta alguma. Ele é fruto de uma época em que a Miramax começou a produzir filmes superficiais com pinta de filme de arte, com verniz intelectual para fazer sucesso de critica e abocanhar um amontoado de Oscars. Vários filmes seguiram essa tendência durante certa época, entre os quais O PACIENTE INGLÊS, que deu fama mundial ao Minghella. Antes disso ele era um diretorzinho qualquer de filmes que ninguém conhecia, mas o sucesso de O PACIENTE INGLÊS não fez com que ele pudesse ser considerado um cineasta na acepção do termo. Esse épico intimista e romântico é um dos filmes mais chatos a ganhar o Oscar, com momentos arrastados e desiguais que o tornam entediante, e que se escora em sua historieta de amor e num espetacular trabalho de fotografia (comparável à do clássico Lawrence da Arábia, de David Lean). A referência ao Lean não é gratuita. Minghella queria ser, e pensava que era, David Lean. Coitado. Ainda fez um trabalho mais interessante com o requintado e envolvente O TALENTOSO RIPLEY, com o seu estilo elegante de sempre, mas que era prejudicado por ter um protagonista muito fraco (Matt Damon) e por ser um remake bastante inferior a O SOL POR TESTEMUNHA, de René Clement. Mas confirmou sua incompetência narrativa e mão pesada com o péssimo COULD MOUNTAIN, mais um épico inútil feito para ganhar Oscar. Fez mais um filme, INVASÃO DE DOMICILIO, com Jude Law (que se tornara seu ator favorito, astro dos seus últimos filmes) e Juliette Binoche, mas esse ainda não me arrisquei a conferir.  Enfim, por pior que fossem os seus filmes, sempre ficará a duvida de até onde ele poderia ter chegado com sua obra futura, se teria evoluído, se redimido, caso continuasse vivendo. Por outro lado, Arthur C. Clarke contribuiu de maneira muito mais significativa para o cinema por ter sido praticamente o co-autor de 2001 – UMA ODISSÉIA NO ESPAÇO, de Stanley Kubrick, um dos melhores filmes do mundo desde que foi lançado há quarenta anos. Clarke escreveu o conto A SENTINELA, e quando Kubrick decidiu fazer um filme de ficção cientifica, resolveu tomar como ponto de partida essa obra, e convidou Clarke para escreverem o 2001 (livro e filme). Clarke impregnou as histórias de ficção cientifica com poesia, reflexão e conceitos filosóficos, ao mesmo tempo em que antecipou revoluções tecnológicas e explorou jornadas fantásticas ao espaço sideral, investigando a vastidão do universo e seus mistérios. Um gênio, ainda que tenha se equivocado bastante ao criar uma seqüência inútil de seu maior clássico, 2010 (por sugestão de um escritor brasileiro de ficção científica), ao mesmo tempo em que abalou sua imagem por ações judiciais que sofreu de rapazes que alegavam terem sido abusados sexualmente por ele (o que o fez morar no Sri Lanka, onde a legislação é mais branda quando se trata de pedofilia). Mas deve-se sempre separar o autor de sua obra. O que importa é que, como artista, Clarke enriqueceu a literatura de ficção cientifica e deixou um legado muito grande para o cinema com 2001 – UMA ODISSÉIA NO ESPAÇO.



- Postado por: Vlademir às 20h54
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