


É difícil dizer qual o melhor filme do diretor canadense David
Cronenberg, mas posso dizer com certeza que NAKED LUNCH é o meu preferido dentre
todos os que ele realizou. Outros filmes dele não me empolgaram tanto, como
SCANNERS e VIDEODROME (embora precise rever este, já que o assisti a uns dez
anos na TV aberta), que para mim são filmes apenas BONS. Mas NAKED LUCH me
apaixona. Começa pelo fato de eu me enxergar bastante no personagem principal,
pelo fato de eu também ser um escritor frustrado que trabalha num emprego de
merda. Mas minha empatia pelo filme não é só por isso, claro, é também pelo
filme ser Cinema com C maiúsculo. Para quem não conhece, trata-se da história de
Bill Lee (Peter Weller), um escritor junkie que trabalha como exterminador de
baratas para poder pagar as contas. Porém, ele começa a correr grandes riscos de
perder o emprego, pois é acusado de desperdício do seu estoque de inseticida. O
que acontece é que sua esposa, Joan (Judy Davis), esgota o material ingerindo-o
como uma droga qualquer. Incentivado pela esposa, ele, que também já foi
viciado, volta a usar da droga, o que faz com que ele dialogue com insetos
falantes, que o incumbem de matar sua esposa, o que ele acaba fazendo
acidentalmente. Bill foge para um lugar estranho por onde é levado por suas
alucinações, a Interzone, onde, munido de uma máquina de escrever que briga e/ou
se transforma em insetos gigantes, ele redige “relatórios” em que narra a seus
“superiores” (os insetos) a vida dos nativos dos lugares, entre os quais, outros
escritores obcecados por drogas, literatura e homossexualismo. Na verdade, Bill
e esses outros escritores são agentes disfarçados que tentam descobrir o
gerenciador local no tráfico de lacraias pretas brasileiras gigantes, que dão
origem a uma droga de efeito ainda superior as demais. Não é preciso dizer que
esse enredo de acontecimentos inacreditáveis e espetaculares formam um universo
surreal cheio de bizarrices, um delírio visual em que se sobressaem os insetos
gigantes que mais parecem crustáceos, verdadeiras criaturas que se assemelham às
que costumam povoar filmes de terror, mas que aqui fazem parte das “viagens”
perpetradas pela mente psicodélica dos personagens quando sob efeito dos
alucinógenos. O romance original do escritor beat William Burroughs foi
publicado em 1959, e, desde sua estréia, considerado escandaloso. Muitos o
julgavam intransponível para o cinema, até David Cronenberg encarou o desafio de
levá-lo para as telas e filma-lo na Inglaterra, Canadá e Japão, em 1991. De
fato, a tarefa de transformar esse argumento em filme sem resvalar na
mediocridade parecia ser uma tarefa das mais difíceis. Cronenberg superou todas
as barreiras da transposição e criou um filme inesquecível. Não li o romance,
mas embora digam que Cronenberg tenha atenuado bastante o livro original,
pode-se dizer que Cronenberg nunca levou suas bizarrices até as últimas
conseqüências que nem em NAKED LUNCH.Contar uma história dessas sem que o
resultado se torne uma bobagem muito grande é mesmo coisa de gênio.

Há poucos dias a Revista Bravo! publicou uma entrevista com os cineastas Fernando Meirelles e José Padilha, o diretor de Tropa de Elite. Se já não bastassem todas as discussões inúteis que esse filme há meses vem gerando, o diretor de Cidade de Deus tratou de fazer uma comparação infeliz envolvendo TROPA DE ELITE e o cineasta Glauber Rocha. Confiram trechos da entrevista:
BRAVO!: O que você achou de Tropa de Elite, Meirelles?
Fernando Meirelles: É extremamente impactante. Está toda hora nos jornais, nas revistas. Nunca vi isso acontecer com um filme brasileiro. Virou uma referência, o que é ótimo. Compreendo perfeitamente essa idéia de o longa tentar ser neutro, de não se aliar ao protagonista, o Capitão Nascimento, mas também de não o condenar. É o anti- Glauber Rocha. O Glauber era um cara que opinava em cada diálogo, em cada plano. E Tropa de Elite é o oposto. Essa estratégia tem muito mais impacto na sociedade do que qualquer filme que o Glauber fez.
B!: Será?
Meirelles: Na época do Glauber, você via alguém conversando nos bares sobre os filmes dele, fora os cineastas? Sua faxineira, seu taxista, seu porteiro? Eis a genialidade do Tropa: vou a um casamento no Morumbi [bairro nobre de São Paulo], e os bacanas estão comentando o filme. Vou tomar um café no boteco, e lá está o jardineiro conversando com a empregada sobre o filme. Acho que o Glauber nunca fez nada com essa dimensão.
A íntegra em:
http://bravonline.abril.com.br/indices/cinema/cinemamateria_265136.shtml
Não é a primeira vez que o Meirelles fala mal de Glauber Rocha. Ele já deixou bem claro que não gosta do Glauber. Até ai tudo bem, pois todo mundo tem o direito de gostar ou desgostar do que quer que seja, mas os argumentos que ele usou são muito toscos. Quer dizer que só porque Tropa de Elite é mais visto e comentado do que os filmes de Glauber, ele é melhor? Ora, nunca que o gosto da maioria das pessoas serviu para medir a qualidade de um filme. Seguindo nessa linha de raciocínio estúpida de Meirelles, o filme TITANIC seria melhor e mais importante do que CIDADÃO KANE, por exemplo, uma vez que TITANIC quando foi lançado era mencionado por todo mundo em tudo que é lugar, enquanto que CIDADÃO KANE nunca esteve na boca do povão... Sem falar que novelas também são comentadas em tudo quanto é lugar. Como também o Big Brother Brasil...
O Meirelles é um bom cineasta. Mas perdeu uma ótima oportunidade de ficar calado.
E lendo o restante da entrevista, li que o próximo filme do José Padilha vai ser sobre a corrupção no Congresso nacional. Se esse projeto se concretizar, será a confirmação de que esse Padilha é um oportunista que se ampara em temas polêmicos para atrair mídia e publicidade para seus filmes, apostando mais em assuntos do momento do que num trabalho de criação cinematográfico mais apurado.