Quem sou eu?

   Cultivo todas as paixões, de preferência, até as últimas conseqüências. Compulsivo colecionador de dvds, livros, discos de vinil e outras velharias mais. Um curioso com sede de pesquisa, crítico, leitor contumaz, apaixonado pela vida e pela morte, também por literatura, cinema e música. Ou então, não mais que um mero vagabundo. Nunca desejei ser mais do que isso. Não sou escravo nem senhor. Não tenho nada a perder e nada a ganhar.

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ONIBABA(1964)

ONIBABA é um ótimo exemplar de filme de terror japonês dos anos sessenta, realizado por Kaneto Shindo, conceituado cineasta que terá um de seus mais famosos filmes (OS FILHOS DE HIROSHIMA) lançados em DVD no Brasil pela Lume. ONIBABA transcorre durante o “Período dos Estados-Guerreiros” (que durou da metade do século XV até ao inicio do século XVII), um passado remoto de guerras no Japão feudal, o que intensifica a extrema miséria que se abate sobre as populações mais pobres. As terras são abandonadas pelos homens que partem para os campos de batalha, o que torna difícil a aquisição de alimentos por parte das mulheres que permanecem em suas casas. Duas delas, sogra e nora, ambas camponesas, são seres brutalizados que vivem em condições precárias numa cabana, entre folhas altas e um rio. A necessidade de sobrevivência as leva a um modo de vida arriscado: armar tocaias para matar samurais feridos e moribundos que passam por ali, para trocarem seus pertences por comida. Um dia, um vizinho que havia partido para a guerra em companhia do marido da mulher mais jovem, retorna, pondo em risco a sociedade entre as duas mulheres. O desejo carnal faz com que a mais jovem se entregue sexualmente ao vizinho, levando a jovem a correr sem pudores ao longo do campo para saciar seus desejos físicos nos braços do amante, indiferente a condições atmosféricas, e aos avisos da mulher mais velha e, mais no final do filme, resistindo a outras ameaças. A mais velha, precisando da valiosa companhia de sua nora, por esta ser necessária na luta pela sobrevivência, teme perdê-la nessas circunstâncias, o que fará com que ela arme até mesmo planos diabólicos, se for necessário. Outras surpresas são inseridas na história no decorrer da narrativa, o que faz com que a trama ganhe rumos estranhos e imprevistos, que não podem ser revelados para quem ainda não viu o filme, para não estragar o impacto que causa em quem o assiste pela primeira vez, o que faz com que ONIBABA seja um filme de mistério, beleza e enigma, ao mesmo tempo medonho e aterrorizante. Um filme de terror sem monstros, que se concentra na árdua luta pela sobrevivência, pois a sobrevivência conta mais do que todo o resto, e que cinematograficamente falando é rico em idéias e atmosfera, e que vai construindo um clima ascendente de horror.



- Postado por: Vlademir às 13h05
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SANTA SANGRE

 

Hoje assisti SANTA SANGRE, de Alejandro Jodorowsky, o homem que faz cinema com os “cojones”. Os filmes de Jodorowsky são quase como se Fellini ou Buñuel se aventurassem em outros gêneros os quais eles nunca quiseram se arriscar. No caso de SANTA SANGRE, os filmes de terror, vinte anos depois de ele ter rompido de modo virulento e absolutamente transgressor com as regras do western ao realizar EL TOPO, para mim, a sua obra-prima máxima. Mas em SANTA SANGRE, Jodorowsky já não tem o mesmo ímpeto, embora não deixe de acrescentar seu estilo fortíssimo ao gênero, o que acabou resultando em mais um filme maravilhoso. Porém, mais normal se comparado aos seus trabalhos anteriores, mas ainda bizarro e atordoante frente ao que a maioria dos outros cineastas tem nos apresentado nos recentes exemplares de terror das últimas décadas. Numa analise mais simples, SANTA SANGRE pode ser definido como uma variação de PSICOSE, do Hitchcock, com um serial killer que mata mulheres por “influência” de sua mãe. Mas a maior parte do enredo transcorre num circo, o que remete a um outro clássico, FREAKS, de Tod Browning, mas não por causa dos personagens deste, mas sim pelo mesmo clima sombrio e circense, que ao mesmo tempo mescla risos e tragédias iminentes e inevitáveis. Só que SANTA SANGRE tem muito sangue e é coloridissimo. Da mesma forma que na abertura de EL TOPO, quando o menino enterra na areia do deserto o seu primeiro brinquedo e o retrato da mãe para, enfim, se tornar um homem, em SANTA SANGRE o protagonista tenta se libertar da influência limitante da própria mãe Tem momentos estranhos e magistrais, como a cena de abertura com o protagonista paralisado em um tronco de um quarto de um sanatório, a menina de rosto pintado se equilibrando em uma corda em chamas, o enterro de um elefante com palhaços chorando, a mãe tendo seus braços decepados pelo marido atirador de facas, ou quando as mulheres saem dos túmulos... Tudo com um tratamento de imagens, cores e movimentos de um apuro estético bastante rico, com os seus tons em vermelho que se mesclam com cores de forte contraste como o azul, o laranja e o amarelo. É o favorito do diretor dentre os que ele próprio dirigiu.



- Postado por: Vlademir às 02h15
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