

Há muito tempo esperava assistir ao filme Incubus, de Leslie Stevens, produzido nos anos 60, o que tive a oportunidade de fazer agora à noite. É um dos filmes mais estranhos que se possa imaginar. Não só pelo tema, o demonismo, mas por toda a mítica que envolve essa fita falada inteiramente em esperanto (idioma criado no final do século XIX para se tornar uma linguagem internacional, o que nunca aconteceu). Talvez seja o mais maldito de todos os filmes jamais realizados, pela quantidade de tragédias que ocorreram com a maioria dos envolvidos na produção. Ann Altman (uma das atrizes principais) entrou em depressão e suicidou-se pouco tempo depois das filmagens. Na mesma época, Milos Milos (um outro dos atores principais) assassinou sua amante (que por sua vez era casada com o astro Mickey Rooney) e em seguida também se suicidou. Mais tarde, a filha de outra das atrizes (Eloise Hardt) foi raptada e assassinada. A empresa que produziu Incubus faliu logo após a pré-estréia em San Francisco, em que estiveram presentes Roman Polansky (o cineasta mais sem sorte de todos os tempos, e que provavelmente se inspirou nesse filme para a direção do seu O Bebê de Rosemary) e sua esposa Sharon Tate (assassinada poucos anos depois pelo bando do maníaco Charles Manson). Já o diretor Stevens, teve a carreira arruinada com o fracasso do filme, abandonando o cinema e partindo para a televisão. Por outro lado, tiveram melhor sorte William Shatner (que interpreta o protagonista), que também deixouo cinema, mas se tornou famoso na TV como o Capitão Kirk de Star Treek, e o diretor da ótima fotografia em preto-e-branco Conrad Hall, que se tornaria um dos mais respeitados profissionais de sua área. Apesar de tudo, Incubus por si só impõe-se como um excelente filme de terror, independente de toda a áurea maldita que carrega em torno de si. Em uma aldeia em ruínas, demônios se manifestam na forma de belas mulheres, os súcubos, que vagam pelos campos encarregados de seduzir homens para levá-los a perdição e a morte. A mais nova desses demônios (Allyson Ames) decide desencaminhar um homem justo e virtuoso (William Shatner), que vive isolado em uma suposta relação incestuosa com sua irmã (Ann Altman). Contrariada com os acontecimentos, a mais velha (Eloise Hardt) dos demônios evoca um demônio Incubus nessa luta pela posse das almas dos mortais. Ainda que o filme seja visivelmente realizado com poucos recursos, os aspectos técnicos são dignos de nota, como a já citada fotografia em preto-e-branco, mas, sobretudo o áspero clima de satanismo criado pelo diretor, realçado pela estranha sonoridade dos diálogos em esperanto e pela mórbida trilha sonora. O filme não contem maiores exageros visuais, sexo ou sanguinolência, mas traz consigo uma atmosfera carregada de terror. Começa lentamente, quase que de modo bucólico, mas impõe-se pelos aspectos sinistros de sua trama, com seres do além saindo de sepulturas, cenas fortes de estupro, e uma medonha aparição do próprio diabo! Na época do lançamento, acusações de bruxaria e de satanismo impediram que o filme tivesse uma carreira comercial, o que fez com que o filme fosse arquivado, levando sua produtora à falência. Os negativos originais e todas as cópias de Incubus acabaram se perdendo por trinta anos, e somente nos anos noventa foi descoberta uma cópia na Cinemateca Francesa, a partir da qual foi criada a versão restaurada disponível em DVD (mas infelizmente nunca lançado no Brasil). Julien Green, famoso critico francês, afirmou que se trata do melhor filme fantástico desde Nosferatu.
Erik (Rutger Hauer) é um ninfomaníaco de estilo de vida marginal que, quando não se dedica ao seu trabalho de pintor e escultor, procura saciar sua fome de sexo trepando com todo tipo de mulher que cruza seu caminho. Essa verdadeira odisséia sexual chega ao auge quando encontra Olga (Monique Van de Ven), uma ruivinha linda e também esquisita, com quem inicia um relacionamento intenso permeado de tesão, juras de amor, desavenças e discussões. A sinopse pode indicar um filme erótico banal, mas isso se o diretor não fosse um certo holandês chamado Paul Verhoeven, em seu primeiro filme de sucesso, e que depois prosseguiria sua carreira com algumas obras-primas tanto na Europa quanto na América. Esse LOUCA PAIXÃO (titulo nacional para TURSK FRUIT), para quem não sabe, é de 1973, e foi feito no país natal do diretor, sendo mais tarde consagrado como o melhor filme holandês de todos os tempos. De banal o filme não tem nada, pois Verhoeven pontilhou a trajetória dos seus personagens com muita insanidade, ódio, furor e questionamentos. A câmera do cineasta não poupa nada ao vasculhar a intimidade do casal e descrever até às ultimas conseqüências a jornada psicosexxual dos protagonistas, como expor o suor, o sangue e até mesmo as fezes (como na cena em que Erik apanha com a mão as fezes deixada por Olga na privada, para acalmá-la dizendo que o vermelho era decorrente da beterraba que ela comera no jantar, não de sangue). Mas essa não é a única seqüência bizarra do filme, igualmente perturbador é quando Erik enxerga Olga com outro, e quando os dois regressam a mesa de jantar onde estão com os demais convidados ele enojado vomita na cara dos que estão sentados diante ou ao lado dele. Toda essa escatologia em momento algum é atenuada, porém é mostrada de um modo tão competente por Verhoeven que em momento algum nos passa a sensação de gratuidade, exagero ou de provocação pura e simples. Essas cenas estão ali por que fazem com que o filme se torne mais genial, não para disfarçar superficialidades que o filme não tem (o que costuma ser o caso de outras obras que exageram em cenas desse feitio). Por outro lado, por mais que TURSK FRUIT tenha sido um dos primeiros filmes comerciais a explorar de um modo frenético e constante uma sucessão de ousados nus frontais de seus atores, o filme escapa de ser classificado como obra pornô por que o diretor carregou mais na densidade do que nos apelos eróticos da trama. TURSK FRUIT é enérgico, acelerado e repleto de seqüências bastante engraçadas que podem levar os espectadores mais precipitados a defini-lo como comédia, porém é igualmente pontuado de momentos solenes, melancólicos e até deprimentes que apenas os melhores dramas conseguem alcançar. Tudo para ilustrar com extrema beleza e sem pudores um amor louco que se reduz à lixo orgânico, conforme é cruelmente mostrado no último plano de TURSK FRUIT. Não há como ficar indiferente a um filme desses.

Finalmente assisti A Morte Num Beijo. Mas o que é isso, hein? Um petardo! A Morte num Beijo é um dos mais desconcertantes filmes noir jamais realizados. Aliás, é dos mais desconcertantes filmes feitos em qualquer gênero. O filme começa à mil, com Cloris Leachmann (em seu filme de estréia) correndo descalça e desesperada clamando por socorro pela estrada numa noite qualquer, antes de qualquer diálogo, ou antes mesmo dos créditos de abertura. A garota encontra um detetive particular de modos ríspidos e de poucas palavras, que aceita ampará-la e lhe dar carona. Só que todo enredo que se anuncia desde então é bruscamente cortado com uma inesperada ruptura narrativa: a garota é misteriosamente assassinada, e o protagonista sofre perda de memória, tem sua vida virada de pernas pro ar, sem maior idéia do que começa a ocorrer com ele, como se estivesse num pesadelo, passando a receber constantes ameaças, o que o faz iniciar uma busca desenfreada para tentar desvendar o mistério com que está envolvido, mergulhando num submundo que se revela extremamente bizarro e aterrador. O filme vai tomando reviravoltas cada vez mais imprevisíveis, que nem sempre se respondem, num estranho clima onírico, que faz com que hoje em dia muitos críticos e espectadores invoquem o universo estranho de David Lynch em relação a esse filme produzido há mais de cinqüenta anos! Esse é provavelmente o melhor e mais chocante trabalho do diretor Robert Aldrich (Vera Cruz, O Que Terá acontecido a Baby Jane, Os Doze Condenados), um show de encenação por parte do cineasta, que capricha nos variados ângulos de câmera, repleto de fusões/sobreposições de imagens enigmáticas que fazem parte de um senso estético digno da escola noir, da qual esse filme representa uma de suas traduções mais puras. A estética dos filmes em preto e branco é deslumbrante, por si só. A iluminação em claro e escuro, luz e sombras, é capaz de expor nuances, climas e ambientações de um modo todo particular para criar um efeito sombrio e aterrador. Essas características climas, sofisticação, contraste, luxo e (muitas vezes) até decadência, que seriam impossíveis com o colorido, e muitas obras-primas foram feitas assim. Nesse sentido, o filme noir foi a expressão mais absoluta desse fascínio que o preto e branco (e o claro e o escuro) despertam em muitos espectadores. E A Morte num Beijo uma de suas personificações mais perfeitas. Se o inicio do filme concorre como uma das mais espetaculares cenas de abertura de todos os tempos, o desfecho é não menos surpreendente e inacreditável, daqueles que nos fazem ficar horas na frente da tela depois de acabado, refletindo sobre o que acabou de assistir. Veja acima uma das cenas do filme.
