Cultivo todas as paixões, de preferência, até as
últimas conseqüências. Compulsivo colecionador de dvds, livros, discos de vinil
e outras velharias mais. Um curioso com sede de pesquisa, crítico, leitor
contumaz, apaixonado pela vida e pela morte, também por literatura, cinema e
música. Ou então, não mais que um mero vagabundo. Nunca desejei ser mais do que
isso. Não sou escravo nem senhor. Não tenho nada a perder e nada a
ganhar.
Essa semana descobri uma noticia que me encheu de felicidade. CRIMES DE PAIXÃO, um dos bons filmes de Ken Russell, cult-movie dos anos 80, será lançado em DVD no Brasil pela Silver Screen. Há anos ausente da TV aberta brasileira, e muito difícil de encontrar nas locadoras em sua versão em VHS lançada pela Colúmbia, esperei por muito tempo que esse filme finalmente fosse lançado por aqui em formato digital. Foi o primeiro filme proibido para menores que assisti na vida, devia ter menos de dez anos de idade, nessa época assisti algumas vezes em reprises na TV Globo em altas horas da noite. Esse foi um dos filmes mais polêmicos (e censurados) do cinema, tinha muita perversão nesse filme. Kathleen Turner é uma linda desenhista de modas que durante as noites se traveste como uma prostituta de nome China Blue, usando uma exótica peruca loira e saindo às ruas para caçar homens. Nessa jornada, conhece um jovem insatisfeito com a esposa frigida, que cai de quatro pela protagonista, e um padre moralista (Anthony Perkins), que quer convertê-la, e os três juntos formam um triângulo amoroso dos mais bizarros. É uma história relativamente simples contada de modo bastante exagerado, bem nos moldes de Ken Russell, sempre com seus excessos visuais e temáticos. O trabalho de iluminação é primoroso, a atmosfera do filme é sombria e irônica (realçada pela trilha de Rick Wakeman) e Kathleen Turner tem um desempenho marcante, atuando em cenas absolutamente ousadas (ainda que mal apareça nua), muitas vezes beirando o escandaloso (como a cena em que ela realiza a vontade de um policial que quer ser sodomizado com um cacetete), cenas que dificilmente outras atrizes famosas fariam (e Kathleen era uma das mais badaladas da época, com os sucessos de Corpos Ardentes, O Médico Erótico e Tudo Por Uma Esmeralda). Outro destaque é Anthony Perkins, assustador como um pregador fanático que freqüenta clubes noturnos com shows de garotas nuas, e que se apaixona por China Blue, e que em razão disso resolve destruí-la. Um dos momentos mais bizarros é quando o padre veste a peruca de China Blue, e começa a gargalhar, como que incorporando a personagem da prostituta. O filme já foi definido como um cruzamento de A Bela da Tarde com Psicose, e de fato faz jus a essa definição, e ainda é um violento, amargo e furioso retrato da insatisfação de pessoas que peregrinam pelo submundo noturno das grandes cidades. O DVD ainda não está à venda, mas já foi anunciado como um dos próximos lançamentos na página da 2001 Vídeo. Vale a pena. Veja abaixo o trailer do filme no youtube.
O maior mérito dos filmes mais
recentes de Quentin Tarantino foi o de fazer com que muitos filmes antes
obscuros fossem redescobertos aos olhos e mentes de cinéfilos mais atentos. A
internet, é claro, contribuiu de forma decisiva para que essas obras estejam à
disposição para downloads a todos os interessados. Uma das referências mais
descaradas de Tarantino, sem dúvida, é o cinema de Russ Meyer, e seu maior
clássico, FASTER PUSSYCAT, KILL! KILL!.Meyer desde os anos 60 sempre foi objeto de culto para um público mais
restrito e privilegiado, e nos últimos anos cada vez mais seus filmes tem
atingido um número maior de espectadores. Foi ele quem descobriu as
possibilidades comerciais dos filmes chamados “nudies” (eróticos sem sexo
explicito), com o seu primeiro longa, THE IMMORAL MR. TEAS, de 1959, que
arrebentou nas bilheterias e fez com que os “nudies” se tornassem moda na época
(depois até Coppola começou se exercitando com uma câmera fazendo alguns desses
tipos de filmes). FASTER PUSSYCAT, KILL! KILL! (1965) é sobre três garotas que
trabalham como strippers que resolvem dar uma variada em suas vidas e saem em
seus carros possantes pelas estradas do deserto americano, apostando corrida com
quem aparecer. No caminho elas encontram um casal indefeso, uma discussão se
inicia e a líder das garotas surra o cara e o mata com as próprias mãos. Elas
seguem pela estrada, levando a namorada do cadáver como refém,e no trajeto
encontram outros tipos bizarros, e as conseqüências são trágicas e
imprevisíveis. Esse filme é delicioso em todos os sentidos, de provocar orgasmos
em qualquer um. Parece um cruzamento do ritmo, humor e diversão de algum
episódio dos seriados de ação e de aventura da época, com o cinismo, deboche e
ousadia do mais puro underground americano. Beirando o trash, mas sem situações
de nojeira, oscilando entre o cômico e o trágico, é um cinema descompromissado,
com a combinação certa de violência, humor e erotismo. FASTER PUSSYCAT, KILL!
KILL!, por sinal, nem abusa tanto do erotismo quanto os demais filmes do Meyer,
com nenhuma cena mais explicita de nudez ou de sexo, mas o erotismo
(principalmente o feminino) continua como a tônica dominante. É impressionante a
presença e o papel das mulheres nesse filme. Películas com mulheres no comando
da ação existem aos milhares, mas nesse filme a tendência chega a uma
estratosfera quase cósmica. As protagonistas aterrorizam o deserto californiano,
matam, estupram e quebram o pescoço de homens. As atrizes principais são de
encher os olhos, altas, fortes, gostosas, voluptuosas, cheias de curvas e roupas
minúsculas que mostram em demasia os contornos das boazudas, principalmente os
seios enormes (uma das obsessões de Russ Meyer). Ao mesmo tempo, elas são
assustadoras, sem que isso retire delas toda a feminilidade que carregam, ao
contrário, continuam bastante sedutoras (a ponto de fazer com que muitos
espectadores desejem ser assassinado como mais uma de suas vitimas!). O cineasta
colocava a mulher como um ser acima do machismo arraigado na sociedade em que
vivemos, superior até mesmo à inteligência masculina, levando em conta que em
seus filmes os homens são tolos, estúpidos, frágeis e burros, quando muito
servindo para saciar o desejo sexual das personagens femininas. E a beleza
feminina em sua obra não é ressaltada apenas em caráter sexual, mas também
conceitualmente, para representar a mulher como um ser livre e inteligente. No
entanto, por mais sedutor que isso tudo possa soar aos ouvidos alheios, e por
mais que nossas libidos sejam deliciosamente afloradas com o que vemos na tela,
FASTER ... é um filme que merece ser descoberto como obra de grande valor
autoral, de enorme qualidade técnica e narrativa, uma película cheia de
invenções e de surpresas a cada momento, um filme B da maior qualidade. Por mais
que as intenções do filme sejam apenas divertir, e por mais que os filmes
posteriores de Meyer carreguem ainda mais no sexo, FASTER... deve ser analisado,
acima de tudo, de maneira cinematográfica, e não como apelo pornográfico, como
muitos confundem. Quanto a Tarantino, é mais do que comprovado que FASTER... é
um dos filmes que ele mais “homenageia” em sua obra recente, sobretudo
em DEATH
PROOF (também estrelado por três mulheres, mas todas irritantes
e sem graça, nenhuma delas com a força e a sedução das protagonistas do clássico
de Meyer) e mesmo em KILL
BILL. Como se já não bastasse, um dos próximos
projetos do Taranta é de refilmar FASTER..., com Britney Spears no papel
principal! O que se pode dizer é que os dois KILL BILL juntos não são mais que
um peido perto de FASTER PUSSYCAT, KILL! KILL!