


Sempre fui obcecado por livros sobre cinema. É uma das melhores formas de se aprofundar no assunto, conhecer novas referências, aprender mais sobre a história das cinematografias existentes, etc. Devoro tudo que encontro pela frente: livros teóricos, ensaios, criticas, entrevistas, roteiros de filmes, biografias, memórias, guias de vídeo e dvd, dicionários de filmes e/ou de cineastas, história do cinema em geral, etc. O último que adquiri foi um exemplar de um livrinho que nem sequer imaginava que existisse: uma coletânea de críticas de cinema escritas pelo escritor argentino Jorge Luis Borges, justamente um dos meus escritores prediletos. É um livro de capa vermelha, chamado DO CINEMA. Borges era um ficcionista brilhante, que costumava arquitetar histórias enigmáticas, geométricas como um jardim de veredas que se bifurcam (trocadilho referente ao título de um de seus contos mais famosos). Borges era também um poeta bastante expressivo, e um ensaísta de mão cheia. Escreveu bem mais sobre literatura, claro, mas também muita crítica cinematográfica. No prólogo do seu HISTÓRIA UNIVERSAL DA INFÂMIA, Borges reconhecia que os seus primeiros exercícios de ficção derivavam do cinema de Von Sternberg. O livro DO CINEMA reúne, entre outros textos, as críticas que entre 1931 e 1944 publicou no jornal Sur, sobre alguns filmes e diferentes aspectos da linguagem cinematográfica, além de um estudo realizado pelo escritor e cineasta argentino Edgardo Cozarinsky sobre a relação entre Borges e o cinema. O mais curioso desses textos, sem dúvida, é o referente à CIDADÃO KANE, escrito no mesmo ano em que o filme foi lançado, em 1941, poucos meses depois da estréia mundial do filme em Nova York. Nesse caso, é bastante interessante ler o que um gênio teve a dizer sobre a obra maior de outro gênio, justamente quando esta foi lançada. Apesar de algumas de suas opiniões sobre certos aspectos do filme hoje em dia poderem soar discutíveis, não deixa de ser admirável a análise que o escritor argentino faz da obra de Welles, buscando paralelos com outras manifestações artísticas (como a literatura de Conrad ou de Kafka, e também em pinturas pré-rafaelistas), e definindo-o como “um labirinto sem núcleo”. Não sou muito de ficar publicando textos alheios no blog, mas esse é tão raro e curioso, que não poderia deixar de compartilhar por aqui. A seguir, para todos os interessados transcrevo na integra o texto que Borges escreveu sobre CIDADÃO KANE.
UM FILME ESMAGADOR
Citizen Kane (cujo nome na República Argentina é El Ciudadano) tem pelo menos dois argumentos. O primeiro, de uma imbecilidade quase banal, quer subornar o aplauso dos muito distraídos. É formulável assim: um milionário oco acumula estátuas, jardins, palácios, piscinas, diamantes, carros, bibliotecas, homens e mulheres; à semelhança de um colecionador anterior (cujas observações é tradicional atribuir ao Espírito Santo) descobre que essas miscelâneas e pletoras são vaidade das vaidades e tudo é vaidade; no instante da morte, deseja um único objeto do universo, um trenó devidamente pobre com que brincou na sua infância! O segundo é muito superior. Junta à recordação de Koheleth a de um outro niilista: Franz Kafka. O tema (simultaneamente metafísico e policial, psicológico e alegórico) é a investigação da alma secreta de um homem através das obras que construiu, das palavras que pronunciou, dos muitos destinos que destroçou. É o procedimento de Joseph Conrad em Chance (1914) e do belo filme The Power and the Glory: a rapsódia de cenas heterogêneas, sem ordem cronológica. Esmagadoramente, infinitamente, Orson Welles exibe fragmentos da vida do homem Charles Foster Kane e convida-nos a combiná-los e a reconstruí-lo. As formas da multiplicidade, da desconexão, abundam no filme: as primeiras cenas registram os tesouros acumulados por Foster Kane; numa das últimas, uma pobre mulher luxuosa e doente joga no chão de um palácio, que é também um museu, com um quebra-cabeças enorme. No fim, compreendemos que os fragmentos não estão orientados por uma secreta unidade: o odiado Charles Foster Kane é um simulacro, um caos de aparências (corolário possível, já previsto por David Hume, por Ernest Mach e pelo nosso Macedônio Fernandez: nenhum homem sabe quem é, nenhum homem é alguém). Num dos contos de Chesterton – The Head of Caesar , creio – o herói observa que não há nada tão aterrador como um labirinto sem centro. Este filme é exatamente esse labirinto.
Todos sabemos que uma festa, um palácio, uma grande empresa, um almoço de escritores ou jornalistas, um ambiente cordial de franca e espontânea camaradagem são na sua essência horrorosos; Citizen Kane é o primeiro filme que os mostra com alguma consciência dessa verdade.
À execução é digna, em geral, do vasto argumento. Há fotografias de profundidade admirável, fotografias cujos últimos planos (como nas telas dos pré-rafaelistas) não são menos precisos e pontuais do que os primeiros.
Atrevo-me a suspeitar, no entanto, que Citizen Kane perdurará como “perduram” certos filmes de Griffith ou de Pudovkin, cujo valor histórico ninguém nega mas que ninguém se resigna a rever. Padece de gigantismo, de pedantismo, de tédio. Não é tão inteligente, é genial: no sentido mais sombrio e mais germânico dessa má palavra.
Jorge Luis Borges
Sur nº 83,
Agosto de 1941