


Sempre fui fã de carteirinha de Orson Welles, não apenas como cineasta, mas também como ator (lembro que em uma comunidade de cinema do orkut houve uma enquete de melhor ator, e eu fui o único a votar em Welles, incluído na enquete entre tantos astros consagrados do passado). Autor completo de seus filmes, ele sentiu o peso de aos 25 anos ter começado muito cedo com uma grande obra-prima, CIDADÃO KANE, para sempre considerado o melhor filme de todos os tempos. Com farta experiência anterior em teatro e rádio, Welles fez esse trabalho com total liberdade de criação, do modo que quis, já de saída impondo uma marca profunda na história do cinema. Esse feito extraordinário lhe trouxe inimigos invejosos e poderosos dentro da indústria cinematográfica, o que fez com a partir de então fosse colocado em um gueto maldito, de onde jamais se libertou totalmente. Seu segundo filme, SOBERBA, levava algumas inovações técnicas e formais de KANE a um passo adiante, mas o estúdio aproveitou-se de sua viagem ao Rio de Janeiro (como um dos representantes da Política da Boa Vizinhança em plena Segunda Guerra) para cortar trechos inteiros do filme, incluindo o final, ao mesmo tempo cancelando a produção do filme que viera rodar no Brasil, depois do diretor ter filmado muitos metros de película! Com os fracassos comerciais dos seus dois filmes, Welles foi colocado na geladeira, e impedido de dirigir durante alguns anos. Mesmo o casamento com Rita Hayworth (na época, a Deusa do Sexo), pouco ajudou. Para poder voltar a dirigir, Welles aceitou se submeter aos estúdios e dirigir, da forma exata que os produtores desejavam um argumento que lhe foi imposto, O ESTRANHO, filme que assisti hoje mais cedo. Franz Kindler é o nome real de Charles Rankin (Welles) um nazista que logo após a guerra refugia-se em uma pequena cidade norte-americana para iniciar vida nova de maneira clandestina. Ele arranja trabalho de professor, e uma bela noiva (Loretta Young), com quem acaba casando. Tudo seria perfeito se um outro membro do partido nazista não viesse ao seu encontro, a quem ele acaba tendo que matar, e o que é pior, no encalço dele vem um detetive que pertence a Comissão de Crimes de Guerra, que pretende descobrir o paradeiro de Kindler e capturá-lo para levá-lo a julgamento. O ESTRANHO é um bom filme sim, do padrão de qualidade da velha Hollywood, mas não no padrão de Welles. É um filme de encomenda, uma produção modesta a qual Welles se curvou aos engravatados, que não obstante a visualização sombria e o ritmo preciso, ressente-se de uma narrativa bastante linear, convencional e sem nuances, se comparado aos outros trabalhos do cineasta. O filme, apesar de tudo envolve o espectador, e cresce na meia-hora final, que culmina na antológica seqüência no relógio do alto da torre da igreja. É um filme que lembra muito A SOMBRA DE UMA DÚVIDA, de Hitchcock, e o que é pior, ouso dizer, Welles perde feio na comparação. Mas sabemos que é um filme em que ele não teve liberdade de criação, em que só teve a assinatura de Welles como diretor, pois é um filme de estúdio, não de Autor, levando em conta que, ao contrário da maioria de seus outros filmes como diretor, nesse o Welles não foi produtor nem roteirista. E ressalta-se o fato de que detalhes cruciais foram cortados do roteiro, contra a vontade do cineasta. Por essas e outras, é que era dentre os seus filmes o que ele menos gostava. Por outro lado, embora de fato seja o menos bom de seus trabalhos, o filme resiste bem ao tempo por suas qualidades cinematográficas.
Desde a semana passada uma de minhas resenhas mais recentes foi ao ar no Armadilha Poética, um dos sites mais bacanas do momento por se dedicar à música, cinema e literatura. A resenha em questão se refere ao ótimo CAÇADA HUMANA (texto publicado simultaneamente no blog antigo), um dos melhores filmes americanos da década de 60, felizmente recuperado para o público atual em formato digital. É um drama forte, envolvente, de grande impacto, que observa e questiona costumes, vicios e valores norte-americanos, e nesse sentido esse filme foi pioneiro em se preocupar em compor um painel dos piores hábitos existentes na sociedade ianque. O filme tem situações de alta voltagem, com uma galeria imensa de personagens, entregues a um grande elenco, e com grande direção de Arthur Penn. Além dessa resenha, entre outros textos, na seção de cinema o Armadilha Poética tem um belo artigo sobre "A Sindrome dos Falsos Épicos", de Roberto Souza, e um texto muito bom de Karina Yanagui sobre BRILHO ETERNO DE UMA MENTE SEM LEMBRANÇAS. Não deixem de conferir!
Clássico do cinema alemão, O ANJO AZUL é um filme maravilhoso, embora eu particularmente considero que o filme envelheceu um pouco com o passar do tempo, e mesmo a estrela Marlene Dietrich não impressiona tanto nos dias de hoje (acho Louise Brooks, só para citar uma outra musa da mesma época, muito mais sedutora e formosa), mas ainda assim é uma grande obra sobre a ruína fisica e moral de um homem que sucumbe diante dos encantos de uma mulher. A história é conhecida por todos os cinéfilos: o velho, sério, regrado e moralista professor Unrath (Emil Jannings, um dos melhores atores do mundo na época) se dirige até um cabaré para espionar seus alunos, mas acaba ele mesmo se apaixonando pela estrela do lugar: a cantora Lola-Lola, uma superfêmea triunfante, que se impôe com sua voz rouca e transborda sensualidade com suas admiráveis pernas e um jogo sugestivo de ligas negras. Trabalhando a partir dos desenhos do artista erótico Felicien Rops, o diretor Josef Von Stenberg criou em Lola-Lola uma figura tirada da imaginação dos adolescentes da década de 20. Aos poucos, a vida do professor vai se desintegrando, e ele perde emprego, moral, dignidade e tudo o mais pelo amor a Lola. Realidade e ficção se confundem quando pensamos que o diretor Stenberg (que vinha de uma ótima carreira nos Estados Unidos), se apaixonou por Marlene, e a levou para Hollywood, onde a dirigiu em uma série de filmes, todos abaixo do seu nível anterior, que fizeram com que Stenberg mergulhasse em uma grande decadência artistica e comercial na qual jamais se recuperou, ao mesmo tempo que fez com que Marlene se tornasse ainda mais famosa e popular. O ANJO AZUL permanece o trabalho mais importante da dupla. As poses e os movimentos de Marlene nesse filme foram minuciosamente planejados através das coreografias, e as canções valorizadas por sua voz grave. A câmera requintada e glamourizada do cineasta, na busca do poético e do exotismo, abusava de um estilo em que a luz e a atmosfera conduziam a história, criando o clima dramático. Um dos personagens mais sintomáticos do filme é o do palhaço que de sua mesa a tudo observa com serenidade e melancolia, e que mais tarde revela-se ele próprio um outro dos amantes abandonados por Lola, uma figura desajeitada que por si só profetiza, pela sua presença, o que será do futuro do professor. Acima, um video com Marlene.
Blog novo, vida nova. É o Olhar Implícito em sua nova fase, sem que isso altere suas intenções de se dedicar quase que exclusivamente ao cinema, e vez por outra a demais áreas de interesse geral. Se há alguma mudança, é unicamente de endereço, de provedor. Resolvendo experimentar o zip.net, acabei gostando de sua estrutura quanto ao visual, e suas opções, ferramentas, mais compativeis para blogueiros que queiram aprimorar melhor seus trabalhos. Mas quem quiser consultar os arquivos do blog antigo pode se dirigir a http://lazocorrea.blogspot.com
Fundado em abril de 2007, o Olhar Implícito está no ar há oito meses. A experiência está sendo compensadora, o aprendizado tem sido enriquecedor, apesar de que as vezes a gente mesmo questiona sobre a utilidade e trabalho ao qual nos dedicamos, inquirindo sobre a existência ou não do valor que possivelmente um simples blog na internet possa ter. Mas falar de filmes, discorrer sobre filmografias de diversos cineastas tem me feito aprender muito sobre a Sétima Arte, e quiçá, também a quem eventualmente leu algum dos textos que tenho postado - talvez alguém que não conheça algum dos filmes abordados fique curioso, corra atrás, goste e o Olhar Implícito terá contribuído de alguma forma para a formação do sujeito, que ficará feliz de ter lido aquelas linhas. Mas se existem acertos, não é menos verdadeiro que trata-se ainda de um blog muito desatualizado e que por respeito aos seus dois ou três leitores deveria estar mais atento ao que se passa no universo cinematográfico do passado, do presente e até dos que estão por vir. Espero que os visitantes gostem do novo Olhar Implícito. Se apreciarem, estão convidados a sempre retornarem a essas páginas com as quais me proponho a compartilhar o amor que o cinema desperta em muitos de nós. Sejam bem-vindos!