

O novo filme de Claude Chabrol

Sempre há outra história. Sempre há mais do que os olhos vêem. É com essas palavras que Claude Chabrol encerra esse seu novo filme, e sugere a máxima de Georges Bernanos que dizia “ver bem as coisas, é ver além delas”. Bellamy é um filme de investigação, porém antes de ser um suspense ou policial, é sobretudo um filme de Claude Chabrol, que como de hábito se esmera na mise en scéne e num exame dos elementos e descrição perversa e cínica do comodismo pequeno-burguês, não como ilustração, nem crítica pontual ou com a impressão de algum juízo, mas como ato de fazer valer seu exercício de olhar. Paul Bellamy (Gérard Depardieu) é um comissário de polícia que já não tem mais disposição e vontade para trabalhar, preferindo continuar de férias em sua casa, na companhia da esposa (Marie Brunel), dedicando o seu tempo livre para investigar por conta própria – em paralelo com a investigação oficial – um caso de assassinato. A sua investigação o enche de curiosidade, não tanto pelo desejo de descobrir a verdade, mas de simplesmente acompanhar como simples espectador os fatos que vão se desenrolando e do qual procura se conservar na posição de testemunha bastante próxima, sem pressa ou necessidade de resolver o caso. Não é o melhor trabalho de Chabrol nessa presente década, mas mantém o alto nível de sua recente filmografia.
Profissão: Ladrão

Desde a estréia de Inimigos Públicos venho prometendo uma revisão de todos os filmes de Michael Mann, e começo agora com a sua estréia no cinema (antes ele já havia dirigido um elogiado telefilme, The Jericho Mile), The Thief (1981) onde o diretor já mandava muito bem desde esse começo de carreira. Trata-se de um filme policial digno dos realizados na década de setenta, e já prenunciando muito do gênero nos oitenta e noventa. A cena de abertura com o ladrão assaltando um cofre é mostrada com paciência e meticulosidade e atestam que tanto Michael Mann quanto o seu protagonista não estão para brincadeira. O diretor estreante recorre para atores que na época estavam entrando em decadência, e proporciona a esses ex-astros algumas de suas últimas oportunidades para brilhar. Caso de um envelhecido James Caan (provavelmente em seu último grande personagem no cinema) e da beldade Tuesday Weld (como eu amo as mulheres de Michael Mann), com uma beleza mais madura (ela ainda faria dois anos mais tarde o papel feminino principal em Era uma Vez na América). Em The Thief há o enfoque melancólico dos personagens, inseridos em uma trama policial que por vezes beira a tragédia grega, com grandes planos gerais e objetivos e o tratamento de imagens e de cores com quase a mesma qualidade dos filmes posteriores, e as ruas de Los Angeles filmadas com a imponência das grandes planícies do faroeste. Michael Mann arranca maduro nesse seu début nas telas de cinema, numa estréia tão auspiciosa como havia sido O Último Golpe, de Michael Cimino.

Obra-prima é o modo como muitos cinéfilos enchem a boca para se referirem a vários filmes do passado, e que é uma definição cada vez mais escassa para filmes recentes. Vincere (o mais recente trabalho de Marco Bellocchio), se não é uma, então é quase. A principio, Vincere é de como a História está sempre nos pregando uma trapaça, no sentido de que muitas vezes é de figuras idealistas que surgem os seres mais monstruosos. O filme de Bellocchio escapa da camisa-de-força das cinebiografias mais vulgares, por realçar Benito Mussolini como um indivíduo de carne e osso antes de apresentá-lo como figura mitológica, e mesmo contando a sua ascensão como líder revolucionário que esquece e passa por cima de seus ideais socialistas e companheiros de partido, e repudia a mulher que o ama, Vincere na verdade é sobre essa determinada mulher, Ida Dalser (Giovanna Mezzogiorno), que venera e mais tarde odeia o ditador italiano, acompanhando a sua trajetória desde o princípio. Trata-se de um estudo acerca do surgimento e transformação de um homem em mito − numa alteração não apenas psicológica, mas sobretudo física (o que não se refere a um simples e natural envelhecimento, e sim uma mutação que vai tornando a sua imagem mais ameaçadora e monstruosa). Com o tempo, Vincere acaba se tornando um filme sobre a loucura, o abandono e o desespero, assumindo o ponto de vista de Ida Dalser, que adorou o futuro ditador e a quem entregou todo o seu patrimônio, e que por sua vez a anulou como se ela nunca tivesse existido, como um fantasma (ou menos que um fantasma, como a própria Ida se define). Protagonista da primeira metade do filme, após o momento em que Mussolini (interpretado quando jovem por um Filippo Timi cheio de garra e fúria) finalmente entra para os livros de História ele passa a aparecer em Vincere apenas em cenas de arquivo, bustos ou fotografias. Em dado momento, Vincere sutilmente desperta a dúvida de quem seria o verdadeiro louco: a personagem que insiste em se declarar esposa do ditador, mesmo não tendo mais vínculo algum com ele e sequer um documento que comprove o matrimônio; ou o próprio Mussolini, que em seus discursos inflamados exalta uma vontade férrea de reviver o antigo Império Romano, o que conta com a adesão imediata de grande parte da população italiana? É um retrato estarrecedor do que foi a Itália no período entre as duas grandes guerras, e mais ainda, sobre a convicção e a fé finalmente destruídas de uma obstinada e intrépida mulher. Vale destacar ainda a cena em que Ida Dalser assiste O Garoto, de Charles Chaplin, e se reconhece no drama visto na tela, num campo-contracampo de tirar lágrimas.
Que fique claro, para quem não sabe, que Frank Tashlin é um dos favoritos desse blog.

Fritz Lang, em O Desprezo, de Jean-Luc Godard. Nunca em um filme um diretor filmou um colega de sua profissão de forma tão bela quanto no plano acima (cujas imagens foram devidamente surrupiadas do blog do Carlão Reichenbach).
"Hoje vou ao cinema me divertir com mais um espetáculo pirotécnico da série James Bond, como vibro com os filmes de Spielberg, Lucas. Sou fanático entusiasta de toda e qualquer parafernália em 70 mm e som Dolby stereo. Só que ainda não vi nada que se aproximasse de 2001: a Space Odity/ 1968 de Kubrick. Isso porque aí não há apenas tecnologia, mas poesia. "
Jairo Ferreira, em seu livro "Cinema de Invenção", a Bíblia do cinema experimental brasileiro.

Anselmo Duarte
(1920-2009)
Da mesma forma que foi sub-apreciado durante muito tempo, também sempre houve a tendência de muitos em superestimá-lo, provavelmente mais em simpatia ao individuo do que pelo seu valor como cineasta. Gosto de Anselmo Duarte como ator e diretor, mas para mim ele está para o cinema brasileiro da mesma forma que Warren Beatty e Robert Redford estão para o cinema americano. De galãs passaram a diretores, realizaram dois ou três bons filmes, foram agraciados com um grande prêmio por algum deles e depois não fizeram nada de relevante. Para uma cinematografia que sempre viveu aos trancos e barrancos como a nossa, foi elevado às alturas, entretanto, à rigor não foi um grande cineasta, pelo menos não da estatura de um Nelson Pereira dos Santos, Ruy Guerra, Walter Hugo Khoury, Rogério Sganzerla e tantos outros com carreiras mais extensas tanto em quantidade quanto em qualidade, apenas para ficarmos em alguns outros conterrâneos seus da época. Absolutamente Certo é uma bela e inteligente comédia, e O Pagador de Promessas certamente tem seus méritos, mas creio que a grande força do filme reside no texto e no extraordinário final, que faz quem o assiste sair da frente da tela acreditando ter visto um grande filme. Ainda assim, não consigo vê-lo com o mesmo impacto de outras obras do cinema brasileiro daquela década, e o que fez com que sua carreira não fosse vista com bons olhos não foi apenas a discutível Palma de Ouro em 1962, mas a qualidade bastante desigual de sua posterior filmografia. Não vi mas quero conhecer Veredas da Salvação, mas outros de seus filmes (como Descartes, Um Certo Capitão Rodrigo e O Crime do Zé Bigorna) deixam muito a desejar. Mas sem dúvida era um profissional que merece respeito, e uma figura que despertava simpatia e até compaixão pelos problemas de sua carreira, eu mesmo gostava de vê-lo nas (poucas) entrevistas na TV as quais pude assistir. E dentre os seus trabalhos como ator, recentemente me impressionei muito com a sua atuação em O Caso dos Irmãos Naves, de Luis Sérgio Person, em que interpreta um delegado impiedoso e assustador.
Palácio dos Anjos, de Walter Hugo Khoury, me faz pensar em Coisas Secretas, de Jean-Claude Brisseau. Há em ambos a forte presença de elementos capitalistas que regem as suas estruturas, que movem e desencadeiam as ações das personagens, que se constituem num jogo de poder entre os dois sexos, na medida em que se expandem as tensões entre essas personagens e deste conflito desenvolve-se toda uma estratégia de encenação. De um lado, os homens como os donos da situação, detentores do poder econômico, ricos, empresários e arrogantes e predadores insaciáveis, quase infantis em seus desejos e vontades, representados na figura do playboy Ricardo (Luc Merenda), que assedia constantemente uma das secretárias que trabalham como datilógrafas em sua instituição bancária, Bárbara (Geneviéve Grad). Por outro, as garotas que a principio estão na posição mais desfavorecida do jogo social e econômico, subalternas e longe de nessas condições alcançarem a liberdade financeira desejada (as protagonistas do filme de Brisseau também trabalham em um banco), todas elas enigmáticas, sensuais e problemáticas. Há a mais forte e inteligente (também a mais voluptuosa), a já citada Bárbara, rebelde e insubmissa, e a sua colega de apartamento e de trabalho, Maria (Rossana Guessa), mais menina e tola e com muito para aprender, assim como a terceira integrante do vértice feminino, a jovem Ana Lucia (Adriana Prieto), mais dinâmica e esperta. Bárbara ensina que poderiam utilizar o sexo como uma arma na escalada para o poderio econômico. Da mesma forma que as figuras femininas de Coisas Secretas se aproveitam de vários quadros superiores na instituição bancária em que trabalham, as de Palácio dos Anjos utilizam os arquivos de informações confidenciais do banco em que eram datilografas para se servirem de alguns dos homens mais podres de ricos do pedaço, com todos os dados possíveis que constavam nos dados da instituição financeira, mas não para serem meras prostitutas na casa de uma cafetina (Joana Fomm) que lhes propusera o trabalho escuso, mas sim como donas do próprio negócio, um bordel de luxo concebido entre as paredes do apartamento que dividem, um verdadeiro palácio em que residem anjos diabólicos e exterminadores, cercados de objetos meticulosamente dispostos em cena, com requinte e sofisticação (quadros, gravuras, cores vivas, etc.). Os sinuosos movimentos de câmera - que ora revelam bastante, ora revelam muito pouco -, os embates sexuais entre as personagens, a atenção dada ao décor como espaço de encontros íntimos e clandestinos, tudo isso Walter Hugo Khoury concebe não apenas como um mero dispositivo de representação de sexualidade/sensualidade mas também para melhor servir ao alcance sociológico do roteiro, mas sem nada de panfletário ou discursivo, até mesmo porque não há maniqueísmo ou traços de piedade na abordagem dos papéis, apenas uma legítima representação de mundo. Há também um esteticismo requintado em suas imagens, desde a sucessão de rostos femininos na abertura, ao som da trilha de Rogério Duprat. E um clima dúbio nas relações íntimas entre as três protagonistas, que de maneira bem contida se insinuam como integrantes de um quase ménage a trois, e cabe destacar ainda a presença fulgurante da francesa Geneviéve Grad, que eu não conhecia e que sem exagero algum se trata de uma das fêmeas mais desconcertantes e sedutoras que já passaram pelo cinema brasileiro, com rosto e traços físicos nada menos que inesquecíveis. Sua presença em cena contamina e alicia não somente as suas colegas e os homens que a procuram desesperadamente, mas também com a esposa de um dos seus clientes (Norma Bengell), uma mulher que passa a nutrir por ela um amor cego e um desejo doentio. Ainda sobre as comparações com Coisas Secretas, não se trata de especular se por acaso Brisseau teria supostamente assistido Palácio dos Anjos (o que é pouco provável, embora não impossível), longe disso, mas de estabelecer relações entre obras que se aproximem e que em pelo menos alguma medida se pareçam uma com a outra, até mesmo porque se muitos insistem em idiotices como a de rotular um autor da estatura de Walter Hugo Khoury como um Bergman brasileiro (ou pior, um sub-Bergman, o que vai dar na mesma), com certeza uma análise mais cuidada de seus trabalhos revelam que a sua obra também dialoga com a de outros mestres, escolas, épocas e tradições.
Zingu # 36

Nova edição da Zingu, em seu especial de aniversário de três anos, homenageando o grande Carlos Reichenbach com um amplo material sobre a sua carreira. Tudo nessa edição é sobre o cineasta, enquanto que a revista está passando por uma fase de reformulação visual, ainda com alguns detalhes para ajeitar, e pode ser conferida no link mais abaixo. Participo da edição com resenhas sobre O Império do Desejo e Bens Confiscados, além de um artigo sobre a sua obra disponível em VHS e DVD.
Link para a edição:
Top anos 50
Prosseguindo as listas de cada década, esta foi especialmente difícil porque numa pré-seleção constavam oito filmes americanos absolutamente essenciais (dos quais dois tiveram que ser cortados, fora centenas de outras opções que tive que abrir mão). Foi provavelmente a melhor década do cinema americano (pode-se considerar o melhor período de Hollywood o que é compreendido entre 1939 e 1959). Para completar, mais quatro filmes europeus e asiáticos que não poderiam ficar de fora, tamanha minha reverência e adoração por cada um deles.

01. Viagem a Itália (Roberto Rossellini, 1953)
Rossellini é o pai do cinema moderno, e esse é o seu verdadeiro divisor de água, cuja passagem do tempo em momento algum o tornou menos forte ou impressionante. É o auge da melhor fase do cineasta, a dos filmes que realizou com sua esposa Ingrid Bergman.
02. Rastros de Ódio (John Ford, 1956)
Confesso que já preferi O Homem Que Matou o Facínora como o meu favorito na filmografia de Ford, porém Rastros de Ódio é um filme que cresce na cabeça de quem o vê mais de uma vez ao longo dos anos, e assisti-lo em momentos distintos da vida (adolescência, começo da idade adulta, e quem sabe numa fase mais madura) faz o filme amadurecer junto com a gente, e quem o assiste amadurece um pouco mais depois da experiência.
03. Rio Bravo (Howard Hawks, 1959)
Se não bastasse ser este um western por excelência, ainda traz passagens com o melhor que o diretor fez em outros gêneros, o que inclui um número musical (a cargo de Dean Martin e Ricky Nelson), momentos cômicos, um toque de romance e muita violência, em torno da situação de um cerco que em si não é tão importante quanto a interação do grupo de personagens díspares que dele participam e que aguardam o confronto final. Uma lição que seria usada em tantos outros filmes de ação contemporâneo (como os de Carpenter e Romero).
04. Um Corpo Que Cai (Alfred Hitchcock, 1958)
Esse é o melhor filme de suspense da história do cinema, e não tem para ninguém mais, nem para os outros filmes do diretor, tampouco os exemplares de demais cineastas que se especializaram no gênero, como Brian De Palma ou Dario Argento.
05. A Marca da Maldade (Orson Welles, 1958)
Eu fico imaginando como será assistir aquele plano-sequência da abertura em uma tela de cinema. Existe uma certa tendência em considerar esse o melhor filme de Welles, o que não concordo, porém o filme é tão bom que não é absurdo algum encará-lo dessa maneira.
06. Noite e Neblina (Alain Resnais, 1955)
As pessoas costumam esquecer o quanto esse filme é extraordinário. Não sei se por ser um curta ou por ser um documentário, ou quem sabe por todo horror que questão não apenas de trazer a tona, mas sobretudo de servir como alerta de que formas de uma peste totalitária e formas de extermínio em geral pertencem a um único tempo e a um único país e que não olhamos a nossa volta. Um dos filmes mais tristes e políticos do mundo, sua estrutura como cinema é nada menos que genial, e na obra de Resnais perde somente para Marienbad.
07. Viver (Akira Kurosawa, 1952)
O maior cineasta oriental é Mizogushi, mas nenhum outro filme japonês me emociona mais do que este que é um dos mais pungentes e dolorosos filmes sobre a velhice e a iminência da morte. É de levar às lágrimas.
08. Contos da Lua Vaga (Kenji Mizoguchi, 1953)
O mais conhecido trabalho de Mizoguchi, que mescla de forma desconcertante elementos dramáticos, aventura, humor e forças sobrenaturais.
09. Cantando na Chuva (Stanley Donen/ Gene Kelly, 1952)
Da mesma forma que Crepúsculo dos Deuses, trata da passagem do cinema mudo para o sonoro, o que destruiu muitas carreiras, mas isso não é motivo para se realizar um drama pesado e lamentoso, no que dá origem a um dos filmes mais alegres de todos os tempos. Se não houvesse as canções que o tornam um (brilhante) musical, seria então considerado uma das melhores comédias do cinema.
10. Crepúsculo dos Deuses (Billy Wilder, 1950)
Esse é um filme que não passa incólume por nenhum cinéfilo que se preze, e seu poder de atração é imediato e irresistível.
Caralho, por essa não esperava! A Platina Filmes lançará em dvd aqui no Brasil as duas mais famosas adaptações de romances de James Joyce para o cinema (a mais aclamada adaptação cinematográfica do escritor é Os Vivos e os Mortos, de John Huston, mas esse é a partir de um conto). Há anos que sei que Joseph Strick, do cinema underground americano, adaptou Ulysses em 1967, e na década seguinte voltou ao autor irlândes na sua versão para O Retrato do Artista Quando Jovem. Não sei se os filmes realmente são bons (visto que Joyce é um dos escritores mais infilmáveis que se possa imaginar), mas são tão raros que esse lançamento merece ser saudado fortemente, e ambos os dvds devidamente assistidos. Nesse momento os dois dvds escontram-se na lista de futuros lançamentos da loja 2001, mas dentro de algumas semanas deverão estar disponíveis para a venda, provavelmente com um preço camarada como é habitual nos lançamentos da Platina (resta saber como estarão as qualidades de imagem). Por outro lado, pode ser que a novidade me estimule a finalmente ler o Ulysses original de James Joyce, que desde o começo do ano encontra-se aqui na estante esperando a minha decisão de encará-lo. O Retrato do Artista Quando Jovem eu já li, e é bem mais acessível do que se supõe, um dos livros mais grandiosos a retratar uma mente jovem e realmente é uma leitura imperdível.
Barry Lyndon

Texto originalmente em francês traduzido para o português no Dicionários de Cinema sobre um dos mais fundamentais filmes de Stanley Kubrick:
http://dicionariosdecinema.blogspot.com/2009/10/ha-sempre-uma-profunda-moralidade-ao.html
Singularidades de uma Rapariga Loura


Do texto de Eça de Queirós, o diretor Manoel de Oliveira reduz a sua arte ao essencial de apenas sessenta minutos, num filme breve como um sonho ou uma nota de sax. E é como um sonho que a narrativa se apresenta, sempre na mais discreta serenidade, um conto sobre desejo e frustração, com o protagonista Macário dividido entre o seu emprego garantido e a fatal visão da rapariga loura que almeja desde o dia em que a conhece, sendo que com os dois (emprego e mulher) não pode ficar. No entanto, existe a necessidade de continuar com o trabalho para possuir a rapariga desejada, o que não se lhe apresenta como possível, porque o tio que o abriga e o emprega no escritório de sua casa se opõe a essa união, recusando-se a ajudar o rapaz se ele insistir em continuar querendo a moça. De imediato surge o movimento contrário que dilacera o protagonista, entre interesses financeiros e vontade de estabilidade, Macário quer o emprego e a acolhida no lar do seu tio, capaz de garantir um futuro auspicioso e tranqüilo, entretanto já não consegue mais viver sem pensar na criatura da janela em frente, resguardada por uma cortina que ao mesmo tempo esconde e revela tudo e nada e capaz de alterar com facilidade a cabeça do homem que a ama. É um pouco como uma espécie de Two Lovers português, com o contador Macário bi-partido não entre duas mulheres, mas dividido entre a imagem de uma que o fascina na janela diante do seu quarto, com a estabilidade de uma vida acomodada, segura e modesta. Sem dinheiro e passando a morar em quartos simples de pensões baratas, dizimando rapidamente suas parcas economias, vai até a África para um trabalho que lhe renderá um ótimo lucro, porém em mais de uma ocasião será vítima das trapaças do destino e das armadilhas da vida. Oliveira se arma da estética em todos os sentidos para criar um todo sensorial e transportar quem assiste para dentro de sua narrativa. E a imagem da jovem rapariga de cabelos louros que se abana com um leque em sua janela é uma visão que justifica toda a loucura e perdição do personagem masculino, e a paixão por ela é tão instantânea como inevitável, e para ele arrebatadora. Penso que outros filmes (não todos, obviamente) também deveriam ter o espaço de pouco mais de uma hora de duração, com toda a condensação e concisão que se pode esperar nesse sentido em uma obra tão enxuta.

Seguramente o melhor dos trabalhos de Tarantino nessa presente década e talvez o mais sólido dos seus filmes. No começo tem cara de ser um daqueles bons e velhos filmes de guerra na linha de Os Doze Condenados e Os Canhões de Navarone, com um grupo de homens partindo numa missão suicida nos campos de batalha da Segunda Guerra, no caso soldados judeus liderados pelo tenente Aldo Raine (um ótimo Brad Pitt) para eliminar nazistas na França ocupada pelo exército alemão. Só que o filme é bem mais que isso, com subtramas e camadas distintas suficientes para dois ou três filmes diferentes. Não vi o filme italiano antigo com o mesmo título de Inglorious Bastards, portanto não saberia dizer o quanto são semelhantes (dizem que Tarantino tomou apenas o título emprestado), mas me parece que nesse novo filme Tarantino é menos referencial do que os anteriores, sem a necessidade de criar citações a dezenas de obras antigas desconhecidas apenas para mostrar muitas vezes gratuitamente o quanto a sua cultura cinematográfica é vasta. Nesse sentido, em Inglorious Bastards o que mais chama a atenção é o uso de gloriosas composições do mestre Ennio Morricone para alguns eurowesterns antigos, o que é feito com comedimento e sem exagero no longa. O filme já mostra a que veio logo no começo, com uma longa cena bastante tensa e dialogada que antecede a execução de uma família quase inteira pelos soldados do coronel nazista Hans Landa (Christope Watz, premiado em Cannes pelo papel), que age à procura de judeus escondidos na França a serviço da SS. Fiquei surpreso com a ausência de cenas de batalhas, porém o filme não se presta nessa direção, concentrando-se mais nas intrigas e peripécias tanto do grupo norte-americano quanto dos nazistas (incluindo figuras como o próprio Hitler e Goebbels), e surpreende ao inserir uma personagem feminina bem forte, a jovem Shosanna Dreyfus (Mélaine Laurent, uma revelação), que vive em Paris sob a identidade de uma proprietária de um cinema querendo se vingar dos nazistas, e cuja trajetória faz lembrar o recente A Espiã, de Paul Verhoeven, inclusive com um romance com um soldado alemão que termina de forma mais bela e incrível do que no filme holandês. O mais admirável é como Inglorious Bastards conjuga e concilia todas as suas subtramas e personagens, resultando bem coeso e redondo (reclamaria somente de uma cena excessivamente longa entre oficiais alemães bem no meio da projeção), num Tarantino violento e ao mesmo tempo mais divertido e sério do que nunca.
Top Anos 60
A minha década preferida. Na verdade, a melhor época do cinema mundial começa em 1959, com o lançamento da Nouvelle Vague (Acossado, Hiroshima, Mon Amour, Os Incompreendidos, O Signo do Leão), que daria origem a renovação do cinema novo em diversos países, até mais ou menos 1975, quando o cinema foi se tornando menos bom do que era, ao mesmo tempo que as noções de blockbusters e superproduções redefiniam a sétima arte, enterrando de vez o que se conhece como cinema clássico.

01. 2001 - Uma Odisséia no Espaço (Stanley Kubrick, 1968)
Uma das maiores explosões de genialidade no cinema. A história do homem resumida em sua luta por se impor num espaço físico (com a violência quase sempre como mola propulsora nesse processo), desde uma pequena porção de terra no alvorecer da humanidade até a conquista do macrocosmo no espaço sideral, numa jornada sensorial, mística e filosófica, de infinitas descobertas e possibilidades.
02. Ano Passado em Marienbad (Alain Resnais, 1961)
Um dos filmes da minha vida e o mais lúdico que conheço, que percorre vertiginosamente os labirintos das idéias, os corredores do tempo e da memória, os becos sem saída das lembranças. Um jogo de sedução, com a palavra usada como um canto, e que termina com o triunfo da poesia sobre o racíocinio frio, lógico e matemático.
03. Deus e o Diabo na Terra do Sol (Glauber Rocha, 1964)
Beatos e cangaceiros alçados à condição de figuras mitológicas em um sertão que só existe na imaginação e ao mesmo tempo é tão real.
04. Hatari (Howard Hawks, 1962)
Posso afirmar que não me lembro de nenhum outro filme que tenha assistido que diga tanto sobre a vida em seus imprevistos, desafios, trabalho, brincadeiras, disputas amorosas, corridas em alta velocidade, discussões, malandragem, companheirismo e lealdade.
05. O Desprezo (Jean-Luc Godard, 1963)
Impossível não se apaixonar por um filme desses, sendo que o mesmo não pode ser dito de nenhum outro filme do diretor (por melhores que muitos deles sejam).
06. O Demônio das Onze Horas (Jean-Luc Godard, 1965)
Tragédia, humor, aventura e muito existencialismo em um caleidoscópio de formas e artes (a poesia, a literatura, a pintura, o cinema propriamente dito, a música).
07. O Homem Que Matou o Facínora (John Ford, 1962)
Um dos cumes da arte de John Ford, e um dos melhores retratos de como se constrói uma civilização.
08. Persona (Ingmar Bergman, 1966)
Simplesmente o melhor filme do diretor sueco, por mais que tenha outros filmes também geniais.
09. Era uma Vez no Oeste (Sergio Leone, 1968)
O faroeste como ópera e mais barroco do que nunca.
10. Peeping Tom (Michael Powell, 1960)
O cineasta inglês tem uma série de obras-primas nos anos 40, mas deixou para o final de sua carreira esse seu trabalho mais brilhante e original.