Quem sou eu?

   Cultivo todas as paixões, de preferência, até as últimas conseqüências. Compulsivo colecionador de dvds, livros, discos de vinil e outras velharias mais. Um curioso com sede de pesquisa, crítico, leitor contumaz, apaixonado pela vida e pela morte, também por literatura, cinema e música. Ou então, não mais que um mero vagabundo. Nunca desejei ser mais do que isso. Não sou escravo nem senhor. Não tenho nada a perder e nada a ganhar.

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Contador










A NOIVA ESTAVA DE PRETO

François Truffaut sempre foi dos maiores apaixonados pelo cinema de Alfred Hitchcock. Como fã ardoroso do mestre de suspense, analisou exaustivamente a sua obra e escreveu diversos textos, artigos e estudos, além de uma série de entrevistas que dariam origem ao seu mais famoso livro, que expôs toda a obra hitchcockiana, com detalhes de criação de todos os seus clássicos. Em 1967, depois de dez anos dirigindo curtas e longas-metragens, já consagrado como grande cineasta, Truffaut resolveu se arriscar em homenagear o estilo de Hitchcock, realizando um filme de suspense e vingança intitulado A NOIVA ESTAVA DE PRETO (La Mariée Etait em Noir), Uma das mais curiosas imitações dos filmes de Hitchcock, a começar pela música bastante climática de Bernard Hermann (que incluiu alguns trechos da Marcha Nupcial, só que com toques de terror). O mais interessante é que é uma das raras abordagens de Truffaut no cinema de gênero, com mais ação do que o habitual no restante de seus filmes. Mas ao contrário de um Brian DePalma, que chupa até os ossos e chega a copiar situações e cenas inteiras dos filmes de Hitchcock, Truffaut não cai na mesma armadilha e constrói seu filme com relativa originalidade. A trama é baseada numa novela policial que o diretor lia escondido na adolescência, sobre uma obcecada e misteriosa viúva transtornada pela sede de vingança, e que num plano ardiloso e pacientemente arquitetado, se dedica a eliminar um por um os responsáveis pelo homicídio de seu noivo, assassinado ao saírem da porta da igreja no dia do casamento Jeanne Moreau nem sempre convence no papel central, mas OK, ela é Jeanne Moreau e ponto final. As filmagens foram tumultuadas (com brigas do cineasta com Raoul Coutard, o diretor de fotografia, e com a própria atriz), e Truffaut não gostou muito do resultado final do filme, embora o próprio Hitchcock tenha escrito elogiando o filme. “Gostei especialmente da cena em que Moreau observa a morte lenta do homem que envenenou. Com meu humor algo especial, creio que a teria feito ir ainda um pouco mais longe, pondo uma almofada sob sua cabeça, para que ele morresse ainda mais confortavelmente.” A NOIVA ESTAVA DE PRETO é envolvente, sedutor e bonito, e bastante hitchcokiano, ainda que Truffaut não tenha assimilado com perfeição o estilo do mestre do suspense. O filme tem eventuais deficiências, como alguns furos na narrativa, certas soluções fáceis, e uma evidente inexperiência do diretor com cenas de ação, o que compromete alguns dos momentos da obra. É um filme imperfeito, desigual, mas cujo desequilíbrio não é suficiente para estragar seu resultado geral. Os críticos mais severos apontam como desastrosa essa influência de Hitchcock na obra de Truffaut, porém não é difícil apreciar A NOVA ESTAVA DE PRETO. Ainda que pareça deslocado em sua filmografia, é uma boa variação na carreira do diretor francês. Aliás, nesse final de semana prosseguirei um ciclo dedicado ao Truffaut, assistindo outros dois de seus filmes: A Sereia do Mississipi, com Catherine Deneuve, e A História de Adele H., com Isabelle Adjani.



- Postado por: Vlademir às 19h26
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FREAKS, UM CLÁSSICO MALDITO DAS TELAS

O terror (antes de ser pasteurizado para ser consumido irrefletidamente de maneira simplista e sistemática pelo público cinéfilo médio) é o mais estranho e doente dos gêneros do cinema. Tanto que se levou algumas décadas para ser popularizado desde a invenção do cinematógrafo pelos irmãos Lumiere em 1895. Na década de 10 houve algumas experiências de horror com curtas, mas seriam os alemães a partir de 1919 que desenvolveriam suas obsessões dentro do estilo, com o surgimento de obras-primas como O Gabinete do Dr. Caligari, O Golem, e sobretudo, Nosferatu, tão aterrador que se criou a lenda de ser protagonizado por um monstro real. A indústria norte-americana logo enxergaria as possibilidades comerciais do gênero, criando uma série de exemplares de terror já na década de 20, porém se pode dizer que o estilo engatilhou lentamente até que em 1931 a Universal tomou de assalto as telas de cinema com duas produções que estouraram nas bilheterias e definiram o gênero no imaginário popular: Frankenstein, de James Whale, e Drácula, de Tod Browning. Além de transformarem em astros os seus atores principais, o mais importante é que esses dois filmes fizeram os produtores enxergarem um filão que para sempre seria dos mais rentáveis, e não apenas a Universal apressou a realização de novas produções de terror como outros estúdios preocuparam-se em explorar o potencial do gênero. Mas nenhum outro filme da época levou até as últimas conseqüências as possibilidades mais doentias e aterradoras do cinema quanto FREAKS, que Irving Thalberg produziu para Metro. Chamando o mesmo Tod Browning, que gozava de grande prestigio graças ao sucesso de Drácula, o cineasta teve carta branca do estúdio, que pediu à ele que fizesse algo ainda mais horripilante e assustador do que os filmes que a Universal vinha fazendo. Em suma, que superasse a forte concorrência do estúdio rival. Browning chamou dezenas de deformados reais que trabalhavam em diversas companhias ambulantes na Europa e na América para protagonizarem seu filme: vários anões, duas irmãs siamesas (quando uma é beijada, outra também gosta), uma mulher-barbada (e grávida), um homem-esqueleto (que não devia pesar mais que trinta quilos), três microcéfalos (duas mulheres e um homem, este também vestido de mulher, todos com cabeça minúscula e com comportamento infantilizado), um andrógino, uma mulher sem braços (que usa os dedos dos pés para levar o garfo à boca com toda naturalidade), e um homem indiano, sem braços nem pernas, formando apenas um torso, enfiado numa espécie de saco que o deixa com uma forma parecida como que de uma ameba (o mais impressionante é que esse último freak era capaz de acender com a maior tranqüilidade um cigarro com um fósforo que ele mesmo tira da caixa ou de fazer qualquer coisa com a boca). Esse estranhíssimo elenco composto sem truques nem maquiagem compunham o repertório principal do filme em questão. O enredo foi tirado de um livrinho obscuro: um dos anões, herdeiro de uma grande fortuna, é seduzido pela bela e gananciosa trapezista Cleópatra, que finge gostar dele, mas que com a ajuda do amante, Hércules (o homem-forte do circo em que todos eles trabalham), planeja roubar-lhe o dinheiro. Os outros deformados se dispõem a evitar o golpe. Browning conseguiu arrancar performances naturais e espontâneas dos deficientes, acostumados a representarem a si mesmos nos shows em que se apresentavam. Todos foram tratados com simpatia nos sets da produção (a única que se disse explorada pelo filme foi a mulher-barbada), ainda que impedidos de circularem muito longe das filmagens para não causarem temor no estúdio. Várias estrelas da época recusaram os papéis “normais” do filme, receosos de se comprometerem em um projeto tão diferente. É até injusto reduzir FREAKS a classificação de filme de terror (por mais que o filme esteja dentro do gênero), porque ele transcende e muito o gênero. FREAKS é mais um drama humano, no qual diferentemente do que poderia se supor, não glamouriza o horror, tampouco enxerga seus personagens como coitadinhos. FREAKS é o mais terrível exercício de terror nas telas, uma vez que nenhum outro utilizou o grotesco humano e real de tal forma, opondo e alternando humor negro e ternura, de um modo que o torna uma obra-prima ainda inigualável. Browning afrontou a noção maniqueísta tão usual no cinema e na literatura, que define heróis e vilões de acordo com a estética imposta pelos padrões de beleza. Quando FREAKS foi lançado, causou escândalo e naufragou nas bilheterias diante das escassas platéias que tiveram coragem de assisti-lo, acabando com a carreira de Browning, que dali em diante teve pouquíssimas outras oportunidades de dirigir. FREAKS ainda foi cortado e mutilado, até que com a implantação do Código de censura nas telas norte-americanas em 1934, o filme foi engavetado de vez. Em outros paises, foi proibido, principalmente na Inglaterra, onde foi atacado por religiosos e moralistas. Com o tempo, o cinema foi assimilando monstros de todas as estirpes em suas telas (mas nunca com o realismo do filme de Browning), até que FREAKS foi se tornando aceitável, sendo redescoberto nos anos 60 e ganhando aura de cult nas Sessões da Meia-Noite nos anos 70 – sem nunca, contudo, perder o caráter de filme maldito. O filme hoje em dia pode não aterrorizar tanto quanto no lançamento, mas conserva a mescla de pavor e lirismo que o transformou numa obra cinematográfica de qualidade ímpar. Um filme para ser reverenciado e revisto pelo menos uma vez a cada seis meses.



- Postado por: Vlademir às 22h26
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THRILLER – A CRUEL PICTURE

Kill Bill é um marco do cinema contemporâneo. O filme é uma bosta, mas tornou conhecido vários filmes obscuros os quais Quentin Tarantino usou como influência para a confecção de seu filme. Uma dessas referências mais marcantes é a de um exploitation europeu de 1974 do sueco Bo Ane Vibenius, THRILLER – A CRUEL PICTURE, também conhecido como “They Call Her One-Eyed”, uma bordoada cinematográfica repleta de violência, sexo explicito e vingança no final. Se o mundo fosse perfeito, todo mundo assistiria esse filme sem saber nada de sua história, pois THRILLER é um dos filmes que quanto menos se sabe a respeito, mais surpreende, porém como não existe perfeição nesse mundo, ai vai uma sinopse de práxis: Madeleine é uma garota que, quando pequena, foi violentada por um mendigo e, traumatizada, perde a voz e nunca mais consegue proferir uma palavra sequer. Adolescente, tenta superar o passado trabalhando arduamente numa fazenda remota. Certo dia, depois de perder o ônibus que a levaria de volta pra casa, ela é abordada por um sujeito simpático que lhe oferece carona. Eles vão a um restaurante, onde ele a embebeda e depois a leva para uma casa estranha, onde ela é dopada e desmaia. O sujeito na verdade era um cafetão e enquanto ela dorme, ele injeta várias doses de heroína no braço da garota, de modo que ela já acorda viciada. O cafetão a chantageia e a prende no local para que ela se prostitua em troca de heroína e alguma grana, e uma série de circunstâncias a fazem perder um olho, ter que se submeter aos horrores da prostituição e os maus-tratos dos clientes e do cafetão, e ainda por cima descobre que seus pais morreram por causa dela. THRILLER pode parecer apelativo e fascista por justificar a justiça com as próprias mãos e a violenta vingança da protagonista no final, porém o filme tem um belo andamento narrativo e um desenvolvimento eficiente que constrói de maneira lenta e devagar um drama humano cruel e desolador até chegar perto do final, onde só ai a ação explode. Sim, durante mais de dois terços, o filme é mais um drama onde arrancaram tudo que Madeleine possuía, toda dignidade, seus laços afetivos, sua capacidade de expressão, seu olhar inocente e belo que já não existe mais. Não que o filme faça rodeios: ele é seco, direto, enxuto. Tecnicamente o filme é competente, ainda que tenha que se relevar alguma que outra cena de ação que trinta anos tenha envelhecido e as atuações over do elenco, o que não tira o mérito da marcante presença em cena da atriz principal, Christina Lindberg. Ela tinha vinte e poucos anos quando participou do filme, mas em cena parece ter uns dezesseis, e convence inteiramente, transmitindo toda a desolação que sua personagem possui. A maior polêmica do filme, no entanto, são as cenas pornôs enxertadas na narrativa, com direito a sexo anal, genitálias e ejaculações envolvendo prostitutas reais que serviram de dublês nessas seqüências (algo parecido com o que ocorreria com Calígula, de Tinto Brass, alguns anos depois). Porém, por mais explicitas que sejam essas cenas, elas de modo algum servem para excitar, por causa do contexto doentio e doloroso da fita. Por essas e outras, THRILLER tornou-se o segundo filme a ser banido na Suécia (o primeiro foi um de 1912), por causa do sexo e da violência (a cena da perfuração do olho é tão realista ao ponto de terem usado um cadáver na filmagem). Mas ainda assim o filme se impõe por suas qualidades, não pelo escândalo. No resto do mundo o filme foi lançado em versões cortadas (sem as seqüências de sexo hardcore), mas só se tornou definitivamente célebre quando Tarantino confessou a inspiração nele para criar Kill Bill, principalmente na composição do personagem de Elle Driver (interpretado por Daryl Hannah, que também usa o pach de pirata cobrindo o olho mutilado) além de outros detalhes na trama (como a vingança calculadamente metodicamente, etc.). Já o diretor do filme, Vibenius (assistente de Bergman em Persona e A Hora do Lobo), nunca mais fez nada de relevante. Enfim, THRILLER é um filme B que se transformou num clássico do cinema maldito, um filme que nos faz alimentar o desejo de pegar uma bazuca e sair por ai semeando a discórdia e matando a esmo.



- Postado por: Vlademir às 14h22
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FILMES VISTOS NA SEMANA (20-26 ABRIL)

Moscou Contra 007 (Terence Young, 1963)REVISÃO *****
A Idade da Terra (Glauber Rocha, 1980)REVISÃO *
Parceiros da Morte (Sam Peckinpah, 1961) ***
Paisá (Roberto Rossellini, 1946) ****
Henrique V (Laurence Olivier, 1945) ***
O Anjo Nasceu (Julio Bressane, 1969) ***
O Corvo (Roger Corman, 1963) **
Evil Dead 2 (Sam Raimi, 1987) *
Gloria Feita de Sangue (Stanley Kubrick, 1957)REVISÃO *****
A Propos de Nice (Jean Vigo, 1929) ****
Blade Runner (Versão Internacional) (Ridley Scott, 1982) *****
Les Mistons (François Truffaut, 1957) ****
Histoire d’eau (François Truffaut & Jean-Luc Godard, 1961) ***
Di-Glauber (Glauber Rocha, 1977)REVISÃO ****
Sonata de Outono (Ingmar Bergman, 1978) ****


- Postado por: Vlademir às 18h45
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DI-GLAUBER

 

"A morte é um tema festivo pros mexicanos, e qualquer protestante essencialista como eu não a considera tragedya . . Em Terra em Transe o poeta Paulo Martins recitava que convivemos com a morte...etc... dentro dela a carne se devora - e o cangaceiro Corisco, em Deus e o Diabo na Terra do Sol, morre profetizando a ressurreição do sertão no mar que vira sertão que vira mar...
Matei muitos personagens? Eles morreram por conta própria, engendrados e sacrificados por suas próprias contradições: cada massacre dialético que enceno e monto se autodefine na síntese fílmica, e do expurgo sobram as metáforas vitais.
As armas de fogo, facas e lanças são os objetos mortais usados por meus personagens, mas a rainha Soledad bebe simbolicamente veneno no final de Cabeças Cortadas e os mercenários de O Leão de Sete Cabeças são enforcados. Em Câncer, Antônio Pitanga estrangula Hugo Carvana, assim como Carvana se suicida em Terra em Transe. Em Claro foi usado um canhão para matar um mercenário no Vietnam e dois personagens morrem afogados em Barravento, além das multidões incalculáveis massacradas por Sebastião, Corisco, Diaz, etc.
Filmar meu amigo Di morto é um ato de humor modernista-surrealista que se permite entre artistas renascentes: Fênix/Di nunca morreu. No caso o filme é uma celebração que liberta o morto de sua hipócrita-trágica condição. A Festa, o Quarup - a ressurreição que transcende a burocracia do cemitério. Por que enterrar as pessoas com lágrimas e flores comerciais? Meu filme, cujo título, dado por Alex Viany, é Di-Glauber, expõe duas fases do ritual: o velório no Museu de Arte Moderna e o sepultamento no Cemitério São João Batista. É assim que sepultamos nossos mortos.
Chocado pela tristeza de um ato que deveria ser festivo em todos os casos (e sobretudo no caso de um gênio popular como Emiliano di Cavalcanti) projetei o Ritual Alternativo; Meu Funeral Poético, como Di gostaria que fosse, lui. . . o símbolo da Vida...
No campo metafórico transpsicanalítico materializo a vitória de São Jorge sobre o Dragão. E, no caso de uma produção independente, por falta de tempo e dinheiro, e dada a urgência do trabalho, eu interpreto São Jorge (desdobrado em Joel Barcelos e Antônio Pitanga) e Di-O Dragão. Mas curiosamente Eu Sou Orfeu Negro (Pitanga) e Marina Montini, dublemente Eurídice (musa de Di), é a Morte. Meus flash-backs são meu espelho e o espelho ocupa a segunda parte do filme, inspirado pelo Reflexos do Baile, de Antônio Callado, e Mayra, de Darcy Ribeiro. Celebrando Di recupero o seu cadáver, e o filme, que não é didático, contribui para perpetuar a mensagem do Grande Pintor e do Grande Pajé Tupan Ará, Babaraúna Ponta-de-Lança Africano, Glória da Raça Brazyleira!
A descoberta poética do final do século será a materialização da Eternidade."

Di (Das) Mortes, GlauberRocha, texto mimeografado, distribuído na sessão do filme em 11 de março de 1977 na Cinemateca do MAM.



- Postado por: Vlademir às 18h42
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TABAJARA RUAS FILMA DOCUMENTÁRIO SOBRE LEONEL BRIZOLA

Outro dia ao visitar o blog do poeta e jornalista Nei Duclós, tive a agradável surpresa de descobrir que Tabajara Ruas havia finalizado um documentário sobre Leonel Brizola. Tabajara Ruas tem crédito merecido por ser o autor de romances muito bons e por ter co-dirigido o belo longa-metragem Neto Perde Sua Alma, e sendo este espaço um blog de cinema, só isso já seria suficiente para o filme merecer ao menos algumas linhas por aqui, mas o que me leva a escrever sobre ele é por eu sempre ter sido um admirador da figura de Leonel Brizola. Para o bem ou para o mal, provavelmente o maior estadista que apareceu na política brasileira na segunda metade do século XX. Seu surgimento na vida pública deu-se logo após a redemocratização brasileira, em 1947, quando candidato a deputado estadual aqui no Rio Grande do Sul. Getúlio Vargas, ao conhecê-lo, profetizou: “Esse guri vai longe!” Ganhou aquela primeira eleição, reelegendo-se em 1950. Sentiu o gosto da derrota no ano seguinte, na eleição para a prefeitura de Porto Alegre, quando foi derrotado por uma pequeníssima diferença de votos por Ildo Meneguetti (na época com o dobro de sua idade), bastante popular naquele período, principalmente por sua ligação com o Sport Club Internacional, o Rolo Compressor daqueles anos. Aquela derrota quase que sepulta a carreira política de Brizola, mas pode-se dizer que teve seu moral levantado um ano depois ao tomar posse como Secretário de Obras do Governo do Estado. Sua gestão nesse cargo é bastante considerada, tanto que em 1955 ele facilmente vence a eleição para prefeito de Porto Alegre. Nessa vertiginosa ascensão, três anos depois se elege o mais jovem governador do estado, com a maior votação da história. Mais importante que isso, é que até muitos dos adversários políticos o reconhecem como o maior governador que o Rio Grande do Sul já teve. Seu governo foi revolucionário, principalmente pela encampação da CEEE. Mas entrou definitivamente para a História do Brasil quando em 1961 impediu um Golpe Militar encabeçando a chamada Campanha da Legalidade, que estremeceu o país inteiro. Sua popularidade já não se restringia apenas ao Rio Grande: em 1962 foi eleito Deputado Federal pelo Rio de Janeiro (então estado da Guanabara), com um terço dos votos totais, a maior votação da história do país. Já era tido como a maior ameaça para a elite nacional, por causa de suas idéias nacionalistas e progressivas. Tanto que muitos defendem a tese de que o golpe de 1964 ocorreu principalmente para que Leonel Brizola não chegasse à presidência. Brizola queria armar a resistência ao Golpe, porém o presidente deposto João Goulart não permitiu. A única saída foi o exílio no Uruguai, onde tentou em vão formar grupos de revolta ao regime militar, mas principalmente manteve-se fiel a si mesmo ao negar uma aliança com seu antigo adversário, Carlos Lacerda (uma das mais odiosas figuras da história do Brasil), que ajudara no Golpe e que agora se reconciliara com a esquerda. Enquanto isso, no Brasil o regime tratava de manchar o seu nome e sua memória, usando os meios de comunicação que haviam à disposição no momento. Mais de dez anos depois, por pressão do governo brasileiro, Brizola foi expulso pelo governo uruguaio, e refugiou-se nos EUA e em seguida em Portugal, onde reuniu trabalhistas históricos, diante da incipiente redemocratização brasileira. Com a Abertura política, o estadista pôde voltar ao Brasil, em 1979, recebido nos braços do povo, pronto para ser presidente, mas os donos do poder trataram de adiar o máximo possível as eleições diretas, enquanto continuavam denegrindo a figura pública de Brizola. Teve a legenda de seu partido roubada, e denunciou uma fraude eleitoral que quase o impediu de ser eleito governador do Rio de Janeiro em 1982. Quatro anos depois, com o país inteiro envolvido na grande ilusão do Plano Cruzado, Brizola foi uma das poucas e mais altivas vozes dissonantes à proclamar aquele blefe, o que depois se confirmou ser verdade. As eleições presidenciais, entretanto, só vieram em 1989, mas o tempo já havia feito o seu estrago. Figuras medíocres como Collor e Lula haviam adquirido grande popularidade, e impediram a chegada de Brizola à presidência. Foi eleito mais uma vez governador do Rio de Janeiro, para um mandato que o desgastou bastante publicamente, com uma superexposição da violência no estado na mídia nacional (incluindo os tais arrastões nas praias cariocas), o que ajudou com que não vencesse mais nenhuma das eleições a que concorreu até sua morte. De tanta coisa que se pode dizer dele, destaca-se a fidelidade e grande admiração que recebia do valoroso Darcy Ribeiro, e por ter sido inimigo ferrenho e intransigivel da Rede Globo de Televisão (foi um dos poucos e o que mais bateu de frente contra os interesses dessa empresa), além do fato de ter sabido as vezes que tinha que apoiar ou não o hoje presidente Lula (tanto que ele retirou seu apoio logo no inicio do mandado do atual presidente). Enfim, por mais questionável e duvidosa que possa ser o perfil da figura pública descrita acima, sua biografia por si só garante o valor desse recém-lançado documentário sobre a sua pessoa. O site do filme é http://www.brizolatemposdeluta.com.br/

- Postado por: Vlademir às 18h09
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SAIU A LISTA DO FESTIVAL DE CANNES

Saiu hoje a lista dos filmes do próximo Festival de Cannes. Os destaques são os novos de Clint Eastwood, Atom Egoyam, Philippe Garrel, Lucrecia Martel, Wim Wenders, Jia Zhangke, Irmãos Dardenne e a estréia de Charles Kauffman na direção. Walter Salles e Daniela Thomas estarão com filme novo também. E será curioso também a biografia do Che Guevara dirigida pelo Steven Soderberg (um cineasta que tenho curtido cada vez menos). Da mostra não-competitiva, destaque para uma paródia ao clássico de Sergio Leone (The God, The Bad, The Weird, do sul-coreano Ji-Woon Kim), além do último do Woody Allen e do novo Indiana Jones. Além desses todos, Emir Kusturica e Kar-Wai estarão apresentando seus mais recentes trabalhos, assim como a filha de David Lynch (Jennifer Lynch), que volta a filmar quinze anos depois do péssimo Encaixotando Helena. A lista ainda não foi fechada, falta a confirmação de outros títulos, como Blindness, do Fernando Meirelles. Sean Penn será o presidente do júri, formado ainda pelo ator e diretor italiano Sergio Castellitto, Natalie Portman, Alfonso Cuaron, a atriz alemã Alexandra Maria Lara, e os cineastas Apichatpong Weerasethakul e Rachid Bouchareb.

FILMES EM COMPETIÇÃO
Nuri Bilge Ceylan - Three Monkeys (Turkey-France-Italy)
Jean-Pierre & Luc Dardenne - Le Silence De Lorna (France-Belgium)
Arnaud Desplechin - A Christmas Story (France)
Clint Eastwood - Changeling (US)
Atom Egoyan - Adoration (Canada)
Ari Folman - Waltz With Bashir (Israel)
Philippe Garrel - La Frontiere De L’Aube (France)
Matteo Garrone - Gomorra (Italy)
Charlie Kaufman - Synecdoche, New York (US)
Eric Khoo - My Magic (Singapore)
Lucretia Martel - La Mujer Sin Cabeza (Argentina-Spain)
Brillante Mendoza - Serbis (The Philippines)
Kornel Mondruczo - Delta (Hungary-Germany)
Walter Salles & Daniela Thomas - Linha De Passe (Brazil)
Paolo Sorrentino - Il Divo (Italy)
Pablo Trapero - Leonera (Argentina-South Korea)
Wim Wenders - The Palermo Shooting (Germany)
Jia Zhangke - 24 City (China)
Steven Soderbergh - Che (US-Spain-France)—one four-hour competion title comprised of Guerrilla and The Argentine

FORA DE COMPETIÇÃO
Steven Spielberg - Indiana Jones And The Kingdom Of The Crystal Skull (US)
Mark Osborne and John Stevenson - Kung Fu Panda (US)
Ji-Woon Kim - The Good, The Bad, The Weird (South Korean)
Woody Allen - Vicky Cristina Barcelona (Spain-US)

SPECIAL SCREENINGS
Marina Zenovich - Roman Polanski: Wanted and Desired (US)
Wong Kar-wai - Ashes Of Time Redux (Hong Kong-China-Taiwan)
Daniel Leconte - C’est Dur D’etre Aime Par Des Cons (France)
Marco Tullio Giordana - Sangue Pazzo (Italy-France)
Terence Davies - Of Time And The City (UK)

MIDNIGHT SCREENINGS
Emir Kusturica - Maradona (Spain)
Jennifer Lynch - Surveillance (US)
Hong-Jin Na - The Chaser (South Korea)



- Postado por: Vlademir às 19h46
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RIO 40 GRAUS E RIO ZONA NORTE, DE NELSON PEREIRA DOS SANTOS

RIO 40 GRAUS e RIO ZONA NORTE é uma das dobradinhas mais clássicas do cinema nacional, que representa o debute de Nelson Pereira dos Santos como cineasta. Antes ele havia realizado apenas alguns poucos curtas-metragens, mas se impôs no cenário cinematográfico nacional com essas duas realizações, sobretudo com o seu primeiro longa, que numa época dominada pela chanchada carioca e pela agonizante Vera Cruz paulista, foi um filme que serviu de base para que poucos anos depois surgisse o Cinema Novo Brasileiro. Pode-se dizer que é o marco zero do moderno cinema nacional. Rodado com orçamento minúsculo, com forte influência do neo-realismo italiano, o filme mostra com ar documental a vida dos moradores de um subúrbio pobre do Rio de Janeiro, com a praia de Copacabana por perto, as intrigas no futebol, os negros amontoados nos barracos da favela, etc. Era muito raro até então (para não dizer inexistente) favelas servirem de locações e negros como personagens centrais.  Logo que ficou pronto, o filme ganhou enorme publicidade quando um delegado do Rio tentou censurá-lo, e foi saudado pelos críticos como uma autentica revelação, por sua abordagem direta e realista das ruas e favelas da Cidade Maravilhosa. Porém, Nelson não conseguiu a mesma repercussão com o filme seguinte, RIO ZONA NORTE, que embora fosse de concepção cinematográfica bastante próxima do filme anterior, abandonava o neo-realismo ortodoxo em favor de um melodrama mais elaborado, como que uma simbiose entre a estética neo-realista e o cinema de narrativa clássica. Se RIO ZONA NORTE foi visto como um retrocesso e foi rejeitado à época do lançamento, o tempo tratou de colocar as coisas em seus devidos lugares: hoje em dia, RIO 40 GRAUS sobrevive mais pelo valor histórico (embora continue com grandes qualidades), enquanto que RIO ZONA NORTE resistiu melhor com a passagem dos anos, comprovando que o filme era um passo adiante na obra de Nelson Pereira dos Santos. Ao contrário da narrativa episódica e difusa do anterior, RIO ZONA NORTE é mais concreto e eficaz ao mostrar a vida de um sambista negro (Grande Otelo) que, ferido ao cair de um trem de subúrbio, relembra os últimos meses de sua vida, principalmente a convivência com o filho marginal e as trapaças de um radialista de má-fé de olho em suas canções. O ponto alto é quando Grande Otelo apresenta a letra de um samba de sua autoria para Ângela Maria. Ele começa cantando, ela vai escutando, e em determinado momento a sua diva começa a cantar junto também, lendo a letra no pedaço de papel que o sambista lhe passara e colocando sua voz bem do jeito que o compositor sonhara. A câmera imediatamente acompanha a surpresa e o encantamento do sambista ao ouvir a voz da célebre cantora, com a feição de Grande Otelo se alterando de maneira arrepiante. O filme é repleto de momentos assim. Pena que o insucesso desse filme impossibilitou que Nelson fechasse a sua trilogia carioca, com “Rio Zona Sul”, jamais realizado.



- Postado por: Vlademir às 19h59
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FILMES VISTOS NA SEMANA (13-19/ ABRIL)

RIO 40 GRAUS (Nelson P. dos Santos, 1955) ****
RIO ZONA NORTE (Nelson P. dos Santos, 1957) *****
RESCUE DAWN (Werner Herzog, 2006) ***
A LANÇA PARTIDA (Edward Dmytryk, 1954) ***
A MORTE PASSOU POR PERTO (Stanley Kubrick, 1955) REVISÃO ***
OS INCOMPREENDIDOS (François Truffaut, 1959) REVISÃO *****
JULES E JIM (François Truffaut, 1961) *****
DEUS E O DIABO NA TERRA DO SOL (Glauber Rocha, 1964) REVISÃO *****
DGAJÃO MATA POR VINGANÇA (José Mojica Marins, 1972) **
ABISMUS (Rogério Sganzerla, 1977) ***
BLADE RUNNER, O CAÇADOR DE ANDRÓIDES (Ridley Scott, 1982) *****
THE HIGH SIGN (Buster Keaton & Eddie Cline, 1921) REVISÃO *****
A FLAUTA MÁGICA (Ingmar Bergman, 1975) ****
O GRANDE GOLPE (Stanley Kubrick, 1956) REVISÃO *****


- Postado por: Vlademir às 19h51
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ORSON WELLES APRESENTA BUSTER KEATON

 

Orson Welles apresenta Buster Keaton e sua obra prima A GENERAL. O vídeo é originalmente uma introdução de uma exibição de A GENERAL num ciclo de filmes mudos que a televisão norte-americana exibiu nos anos sessenta e dá uma geral na carreira de keaton, com fragmentos de vários de seus filmes. Welles considerava Keaton o cineasta mais subestimado da história do cinema. Já é um vídeo bastante manjado na internet, ripado do VHS "A General", n° 18 da coleção Os Clássicos do Cinema, lançada pela Filmax/Altaya. Mas é bastante interessante para quem ainda não assistiu. Felizmente está legendado (com português lusitano). E para quem se interessar em conhecer a obra de Keaton, no Youtube e no GoogleVideos tem vários de seus curtas e até longas-metragens inteiros para serem assistidos. É só procurar.



- Postado por: Vlademir às 21h07
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A OBRA-PRIMA DE FRANÇOIS TRUFFAUT

OS INCOMPREENDIDOS é o filme com o qual gostaria de ter iniciado a minha cinefilia. Ele tem a leveza dos filmes que assistimos pelo prazer de um simples passatempo, como também a profundidade das obras mais obrigatórias. E lança um olhar terno e afetuoso, ao mesmo tempo carregado de rebeldia, sobre uma das passagens da vida que nos é mais cara: a transição da infância para a adolescência (com uma visível influência de Jean Vigo, especialmente Zero de Conduta). E ousa concretizar na tela algo que muitos de nós naquela fase (ou até mesmo em qualquer outro período de nossa vida) almejamos fazer (e que o próprio Truffaut o fizera): a fuga. A fuga para o desconhecido, para o desejado, ou para lugar algum. Antoine correndo, a praia, o close. O filme é aquilo ali. A imagem mais forte que eu tenho da liberdade é aquela cena. Acho que foi Luc Moullet quem escreveu que OS INCOMPREENDIDOS é um filme tão bom por que François Truffaut era ao mesmo tempo um velho de setenta anos e um jovem de dezessete. E é digno de inveja que o cineasta tenha feito o que todo artista sonha: transformar sua vida, sua biografia, em obra de arte, por mais banal que seja sua existência. E logo no primeiro longa. Tão bom que o diretor teve que retornar ao personagem em filmes posteriores.



- Postado por: Vlademir às 23h57
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RESCUE DAWN (2006)

RESCUE DAWN deve ser comemorado, sobretudo, por marcar o retorno de Werner Herzog aos filmes de ficção, depois de vinte anos restrito a documentários. Mas não se deve exagerar nos fogos de artifício. RESCUE DAWN é mais hollywoodiano do que herzoguiano. Nada contra o cinema americano, ainda mais que sou daqueles que desconfia que este seja, possivelmente, a melhor fonte de grandes filmes na história do cinema mundial. Mas RESCUE DAWN carece da personalidade de Herzog, que no passado concebeu uma quantidade considerável de obras-primas. O filme não tem o delírio, a grandeza, as invenções e a loucura dos grandes filmes do diretor. É competente, bonito, bem-realizado, e por vezes, emocionante. Mas poderia ter sido dirigido por algum outro cineasta ianque que ainda assim teria resultado da mesma maneira. A propósito, sem querer ser nostálgico, porque será que já não se fazem mais filmes como Aguirre ou Fitzcarraldo? Prefiro acreditar que RESCUE DAWN é apenas um projeto de encomenda (ainda que seja baseado num documentário que ele próprio dirigiu anteriormente) que ele dirigiu com correção para abocanhar uma grana fácil, porém espero que volte a dirigir filmes ao seu estilo, de preferência, com produções alemãs, para que não corra o risco de perder sua identidade artística. Até mesmo porque a maioria dos grandes diretores europeus sempre resistiu a se curvar a máquina hollywoodiana, que geralmente esmaga a personalidade de grandes realizadores estranhos à sua estrutura. Enfim, pode ser que RESCUE DAWN cresça com o tempo e que daqui uns vinte anos seja considerado um clássico. Ou que então permaneça como um filme menor de Werner Herzog.



- Postado por: Vlademir às 20h12
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FILMES VISTOS NA SEMANA (06-12/ABRIL)

DAY OF THE FIGHT (Stanley Kubrick, 1951) *      
FLYING PADRE (Stanley Kubrick, 1951) *
THE SEAFARERS (Stanley Kubrick, 1953) *
FEAR AND DESIRÉE (Stanley Kubrick, 1953) *
O DRAGÃO DA MALDADE CONTRA O SANTO GUERREIRO (Glauber Rocha, 1969) REVISÃO *****
COPACABANA, MON AMOUR (Rogério Sganzerla, 1970) ****
PAIXÕES QUE ALUCINAM (Samuel Fuller, 1963) *****
O BEIJO AMARGO (Samuel Fuller, 1964) *****
THE SHAPEAD (Herbert Blaché & Winchell Smith, 1920) ****
DELIRIOS DE UM ANORMAL (José Mojica Marins, 1977) **
TWO-LANE BLACKTOP (Monte Hellman, 1971) *****
A PAIXÃO DE ANNA (Ingmar Bergman, 1969) *****


- Postado por: Vlademir às 20h24
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TWO-LANE BLACKOUT (1971)

Em TWO-LANE BLACKOUT, Monte Hellman transpõe o estilo de seus faroestes para o cenário urbano e contemporâneo estadunidense. Os protagonistas são caubóis sem chapéus em veículos de quatro rodas em vez dos cavalos do velho oeste. A aridez é a mesma, com planos longos e o tempo estranho e parado em contraponto aos carros acelerados em uma América existencial, e o som oscilando entre o silêncio e os rocks norte-americanos de sua época (Doors, Kris Kristofferson, Chuck Berry, etc.). Não lembro de muitos outros filmes que mostrem o vazio da juventude em plena era hippie de forma tão incisiva como esse. É um road-movie com o Dennis Wilson (dos Beach Boys), James Taylor, Laurie Bird e Warren Oates (provavelmente o ator mais subestimado de todos os tempos). O filme até esboça uma narrativa, mas ela é completamente abandonada, como que se Hellman perdesse o interesse em contar uma história ou fazer a trama evoluir. Ele só se preocupa em filmar lindamente os espaços vazios que serve como catalisador e em que circulam os errantes protagonistas, com enquadramentos perfeitos e resultados impressionantes. Não existe preocupação com enredo, trama ou intriga. O que importa é o que a câmera mostra em cada momento. Não há explicações anteriores e os propósitos e intenções dos personagens são tão indefinidos quanto o destino que lhes é reservado. A estranheza da estrutura persiste até o final, numa mesma direção, onde os movimentos do elenco e dos carros são os únicos resquícios do que poderíamos chamar de trama. Mais importante para o diretor não é o desfecho de sua história, mas o caminho até ele, pelo efeito do cenário nos personagens, onde cada plano parece significar muito mais do que mostra. Onde a câmera está tão viva e palpável quanto os carros e homens que ela acompanha. É uma espécie de versão setentista de Velozes e Furiosos, com carros potentes e seus pilotos, só que com cérebro e conteúdo. Foi escolhido recentemente como um dos cinqüenta melhores filmes independentes de todos os tempos. E disputa com Corrida Contra o Destino (Vanishing Point) o posto de melhor road-movie do cinema americano.



- Postado por: Vlademir às 23h01
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MAIORES PERFORMANCES MASCULINAS DO CINEMA BRASILEIRO

Conforme o prometido, segue a minha lista com as Maiores performances masculinas do cinema brasileiro. Com um detalhe: não tenho certeza sobre qual seria a melhor atuação masculina no cinema nacional, fico dividido entre as três primeiras da lista. Particularmente, acho muito difícil ter que decidir entre essas três. Estive por colocar a antológica performance de Paulo Villaça em O BANDIDO DA LUZ VERMELHA como a melhor, mas optei por Othon Bastos como Corisco em DEUS E O DIABO NA TERRA DO SOL, com seus delírios, monólogos, discursos e ações violentas, embora a atuação que mais me comova seja a de Jardel Filho em TERRA EM TRANSE. Isso comprova que Glauber Rocha foi um extraordinário criador de personagens, que por mais que representassem as metáforas e alegorias do diretor, não eram apenas arquétipos gratuitos (pelo menos em seus melhores filmes, porque nos piores sim, os personagens eram bem fantoches e unidimensionais). Tanto que o Antônio das Mortes é o maior personagem do cinema brasileiro (juntamente com o Zé do Caixão,de José Mojica Marins). Mas, enfim, a nossa opinião não é mais que um grão de areia no deserto. Essa é a minha lista pessoal, e não custa nada lembrar de novo que tenho que assistir muitos filmes nacionais que ainda não tive oportunidade de ver.

1 - Othon Bastos - em DEUS E DIABO NA TERRA DO SOL
2 - Paulo Villaça - em O BANDIDO DA LUZ VERMELHA
3 - Jardel Filho - em TERRA EM TRANSE
4 - Átila Iório - em VIDAS SECAS e OS FUZIS
5 - Maurício do Vale - em DEUS E O DIABO NA TERRA DO SOL e DRAGÃO DA MALDADE CONTRA O SANTO GUERREIRO
6 - Grande Otelo - em MACUNAÍMA
7 - Luis Linhares - em O BANDIDO DA LUZ VERMELHA
8 - Paulo Cesar Pereio - em BANG BANG
9 - José Lewgoy - em TERRA EM TRANSE
10- Brandão Filho - em ROMANCE DA EMPREGADA



- Postado por: Vlademir às 23h09
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