




Um dos primeiros diretores com quem comecei a me interessar por cinema europeu foi Carlos Saura, no tempo em que alguns dos seus filmes dos anos 70 eram exibidos legendados na Sessão Videoclube da TV Bandeirantes e que também eram disponibilizados em fitas vhs. Os filmes de dança que ele fez nos anos 80 nunca me chamaram a atenção, mas agora estou podendo conferir algumas de suas produções da década de 60, quando realizou os seus primeiros êxitos e conquistou repercussão internacional, despertando a admiração de gente como Luis Buñuel (a quem esse Peppermint Frappé é dedicado) e Stanley Kubrick (que depois o contrataria para fazer a dublagem espanhola de Laranja Mecânica e Barry Lyndon). Como todos sabem, os anos 60 sempre nos passam a impressão de intensas transformações de costumes e de pensamentos, com os jovens se transformando e os mais velhos chocados e mal sabendo como reagir a tudo isso. Peppermint Frappé gira em torno dessas questões, com um médico de meia-idade solteirão, Julian (Jose Luís Lópes Vasquez) que vê sua serenidade ser perturbada quando conhece Elena (Geraldine Chaplin, em sua primeira colaboração com Saura), uma loira inglesa de cabeça bastante avançada e em sintonia com as modas e transformações da época, que se veste de modo bastante sedutor, é esperta em demasia e gosta de dançar ao ritmo sensual do rock'n roll. É demais para os olhos do médico, que logo se fascina com a jovem e faz de tudo para estar por perto dela, mas com uma admiração que o assusta, e a própria Elena se faz de desentendida e o provoca ao mesmo tempo, brincando com o sujeito que já não é mais senhor das próprias vontades e sentimentos e cujas visões de Elena o remetem às lembranças fugazes de uma jovem com quem cruzara há muitos anos. Mas só o que resta ao médico é se consolar com a enfermeira, Ana (Geraldine Chaplin de novo, mas morena), garota bastante humilde e de modos tradicionais a quem ele decide se dedicar, mas não para amá-la de modo convencional, e sim incentivá-la e fazê-la aprender a se vestir, pensar e se comportar como as jovens atuais, pensando em torná-la um reflexo e uma extensão de sua musa inacessível Elena. Os críticos apontam o filme como uma descrição das frustrações da burguesia sob o regime de Franco, mas sinceramente nem pensei nisso ao assisti-lo (embora as metáforas de fato sejam bastante pertinentes, em torno de uma burguesia ávida por mudanças e sufocada pelo regime), o que me envolveu foi o drama que não chega a ser pesado, mas divertido e patético, beirando o amargo e inevitavelmente caindo no trágico, no que talvez seja o mais bunuelesco e delicioso dos filmes realizados por Saura.

Milk (que acaba de ser lançado em dvd e que só agora conferi) é bem melhor do que eu pensava. Mais do que uma boa cinebiografia de um ativista gay que se torna um líder político controvertido, o filme tem algo de Zodíaco, de David Fincher, não apenas na captura da atmosfera de São Francisco dos anos 70, por sua magnífica reconstituição de época (como notou o crítico Kleber Mendonça Filho, do CinemaScópio), mas sobretudo na luta de uma minoria diante de algo muito maior e monstruoso que se dissemina como um câncer na sociedade da época ─ a violência do serial killer que se transforma em lenda e em mito (em um dos filmes), e a intolerância e o preconceito que igualmente destroem vidas (no de Gus van Sant). Males que diante desses dois filmes por vezes acreditamos pertencer unicamente ao período e lugar retratado em ambos, mas sem dúvida não é preciso uma visão mais atenta para enxergar que são temas que se refletem em nossa própria época, repercutem através dos tempos, portanto, universais. E convenhamos: todo mundo torceu por Mickey Rourke no Oscar, que praticamente representou a si mesmo em The Wrestler (com admirável intensidade, sem dúvida), mas a interpretação mais rica é a de Sean Penn, mais composta, que se transformou no personagem sem parecer afetado, mas transmitindo toda a essência de seu papel.













Há quem diga (e não são poucos) que Manoel de Oliveira quando quer é capaz dos filmes mais chatos do mundo. Pode haver algo de verdade nessa afirmação (conheço pouco do diretor português), mas não há como passar incólume diante de Vale Abraão, um filme que merece ser visto, contemplado e admirado. É um tour de force de três horas e meia que transborda uma beleza toda própria por todos os poros, e deságua em fronteiras nunca antes ultrapassadas ou sequer imaginadas, que irradia uma luz que invade o terreno do que é mais sagrado, e parece se multiplicar à exaustão a cada plano no decorrer do filme até o limite, e que já não cabe mais na própria tela. É algo tão grande que muito nos escapa da vista, mas o que sobra e retemos nos olhos vale por dez filmes de muitos outros diretores. Uma releitura de Madame Bovary, de Flaubert, transportando a personagem para Portugal dos tempos atuais, num procedimento semelhante ao que Stanley Kubrick faria com o romance de Arthur Schnitzler em De Olhos Bem Fechados. O filme consegue dar conta de uma vida inteira (e por isso requer toda sua longa duração), no caso a vida da Ema de Leonor Silveira, mulher “com apetite pelas coisas tristes” e que se torna a razão de ser da película, em um processo em que personagem/atriz funde-se com o próprio filme ao ponto de as diferenças se tornarem indistintas e indivisíveis. A personagem adquire uma densidade assustadora e acumulada, que espanta os que a cercam e travam conhecimento com ela, e muito se deve ao excelente trabalho do diretor com a escritora Augustina Bessa-Luis, que escrevia um romance baseado na história de Flaubert à medida que ambos concebiam o roteiro. O filme lembra o Orson Welles tardio, o de História Imortal mais especificamente, só que numa potência elevada, e é tido por muitos críticos como o filme de Oliveira que mais se aproxima de uma linguagem clássica. Se é consenso entre alguns de que os filmes curtos de Manoel de Oliveira parecem ter o dobro da duração, Vale Abraão então pode ser considerado breve demais em seus 203 minutos.




A história cinematográfica oficial conta que os grandes filmes de Peter Bogdanovich são os que ele fez até Lua de Papel (1973). Depois disso, o único que seria mais digno de menção é o melodrama Mask (1985). Ledo engano. O diretor tem outros filmes muito bons, como o belo Daisy Miller (1974) e esse They All Laughed (1981), que está à altura dos melhores que realizou. É uma comédia sofisticada e inteligente que por cerca de duas horas mantém um tom de completa alegria e exuberância, beirando a um verdadeiro êxtase cinematográfico. O filme gira em torno dos detetives de uma agência de investigação particular que enfrentam problemas com maridos e esposas desconfiados, e que se apaixonam por duas mulheres que precisam vigiar: uma mais velha interpretada por Audrey Hepburn (em um de seus últimos filmes) e outra mais jovem feita pela modelo Dorothy Stratten, uma das mulheres mais lindas que já vi em um filme e por quem Bogdanovich se apaixonou e que tinha tudo para ser uma das maiores estrelas daquela década, mas que seria tragicamente assassinada pelo marido logo após as filmagens (a sua história foi contada em outro filme, Star 80, de Bob Fosse). O personagem de Stratten não é o centro da trama, mas o filme acaba sendo uma celebração de sua beleza (como pode ser visto nos screens), nos vários momentos em que Charles, o detetive interpretado por John Ritter, observa e lentamente se apaixona pela Dolores de Dorothy Stratten, num dos mais perfeitos exemplos da utilização do plano subjetivo, em várias cenas que se constituem em pouco mais do que um personagem a olhar para outro. No geral, o filme tem a graça e o requinte dos musicais (mas sem ser um exemplar do gênero), um exercício de estilos e formas cinematográficas que fascinam e com a perspicácia visual de um diretor interessado no sentido mais artesanal de seu oficio. Bogdanovich faz o possível para garantir que o movimento e a ação através do espaço cênico sejam exatos e eficientes, com um trabalho de edição e destreza em dispor os atores em cena, e deslocá-los em seus posicionamentos na tela, com sutis e esmerados alinhamentos de câmera, como também o capricho e o cuidado com os cenários e a excelente trilha sonora, que inclui canções de Frank Sinatra (entre as quais, a sua versão de New York, New York) e até de Roberto Carlos (!), num ótimo aproveitamento de uma de suas músicas tocada praticamente inteira numa sequência em que os personagens se encontram em uma loja. Parece o esforço de Bogdanovich em realizar uma comédia popular, mas sua elegância e bom gosto (estilístico) invariavelmente transcendem o próprio gênero. A lamentar apenas o título nacional, Muito Riso e Muita Alegria, sem dúvida uma das piores versões de títulos já feitas para um filme estrangeiro aqui no Brasil, e que deve ter ajudado para que o filme de Bogdanovich nunca tenha sido levado muito a sério por aqui. Mas é um dos dez filmes preferidos de Quentin Tarantino e o próprio Bogdanovich na introdução de seu livro Afinal, Quem Faz os Filmes declara ser o seu favorito dentre os que ele dirigiu.
Zingu # 32
Atualizações na Zingu, agora com a segunda parte do dossiê sobre o Cinema de Bordas, dessa vez em torno dos nomes de Joel Caetano, Marcos Bertoni e Pedro Onofre. A revista também conta com outros textos e novidades, como a estréia de minha coluna de lançamentos, com um artigo sobre A Hora do Lobo, de Ingmar Bergman (que acaba de sair em dvd lançado pela Versátil) e textos curtos sobre algumas estréias de cinema e dvds de filmes de Resnais, Godard, Eastwood, Person e outros (além de um perfil que escrevi sobre Winona Ryder para a seção Musas Eternas).
http://revistazingu.blogspot.com/2009/06/edicao32.html






Assisti São Bernardo, de Leon Hirszman, pensando o tempo todo em Sangue Negro, de Paul Thomas Anderson. O Paulo Honório interpretado com intensidade por Othon Bastos é uma espécie de versão cabocla do personagem de Daniel Day-Lewis em Sangue Negro, desde a caracterização física até a trajetória pontilhada pelo desejo de riqueza, pela obsessão e pelo egoísmo e indiferença, que os fazem não terem olhos para mais nada, nem mesmo para a própria mulher escolhida como esposa (no caso de São Bernardo). O filme de Hirszman é um estudo sobre a cobiça e os poderes simultaneamente construtivos e destrutivos que permeiam e desgastam a personalidade de um homem possuído por uma ambição desmedida, descortinando assim a ascensão e queda de um personagem aparentemente destituído de virtude e redenção, mas destinado somente ao vazio em que acaba todo homem que se julga o centro de tudo. O imperdível dvd nacional recupera e restaura as cores magníficas da fotografia excepcional de Lauro Escorel, que enquadra rigorosamente o homem fundido com a paisagem incomensurável. Certamente Graciliano Ramos é o escritor brasileiro cujas obras mais renderam grandes adaptações cinematográficas ─ e não custa lembrar que o seu melhor livro, Angústia , ainda não foi filmado.


Homenagem ao Lafa, que me enviou as duas imagens por e-mail: em Viver a Vida, Godard nos mostra Anna Karina emocionada com a Falconetti de O Martírio de Joana D'Arc, de Dreyer.

A Liga dos Blogues Cinematográficos fez uma votação para a escolha dos melhores filmes da década de 30. O resultado final pode ser visto no link a seguir (com textinho meu sobre O Atalante):
http://ligadosblogues.wordpress.com/2009/06/02/ranking-anos-30/#comment-850
A minha lista:
01. A Regra do Jogo (Jean Renoir, 1939)
02. O Atalante (Jean Vigo, 1934)
03. E o Vento Levou (Victor Fleming, 1939)
04. Luzes da Cidade (Charles Chaplin, 1931)
05. A Idade de Ouro (Luis Buñuel, 1930)
06. Tempos Modernos (Charles Chaplin, 1936)
07. M – O Vampiro de Düsseldorf (Fritz Lang, 1931)
08. Freaks (Tod Browning, 1932)
09. Olympia (Leni Riefenstahl, 1938)
10. Terra (Aleksandr Dovjenko, 1930)
11. Alexander Nevsky (Serguei Eisenstein, 1938)
12. Limite (Mario Peixoto, 1931)
13. Sócios no Amor (Ernest Lubistch, 1933)
14. Aconteceu Naquela Noite (Frank Capra, 1934)
15. Zero de Conduta (Jean Vigo, 1933)
16. No Tempo das Diligências (John Ford, 1939)
17. Paraíso Infernal (Howard Hawks, 1939)
18. Um Dia no Campo (Jean Renoir, 1936)
19. Vampiro (Carl T. Dreyer, 1931)
20. Conto dos Crisântemos Tardios (Kenji Mizoguchi, 1939)



Confissão: há muitos anos venho assistindo filmes de tudo quanto é espécie e origem, empenhado em conhecer filmografias inteiras de inumeros dos principais diretores da história do cinema, e por ai vai. Mas pode ser que em meu leito de morte, pouco antes de expirar, eu admita para mim mesmo que o meu filme preferido sempre foi Edward Mãos-de-Tesoura.

Outro dia comentei por aqui sobre alguns dos principais filmes acerca do universo existencial adolescente, e Mes Petites Amoureuses poderia estar incluído com louvor nessa linha, no entanto em vez de girar em torno da expectativa de se estar em vias da difícil transição da adolescência para o mundo adulto, o filme de Jean Eustache é sobre os ritos de passagem da infância para o começo de juventude, no melhor e pior que isso pode incorrer, desde as primeiras experiências, toques e beijos do garoto com meninas de sua idade quanto no fato dele adquirir vícios como o hábito de fumar ou deixar a escola para trabalhar como mecânico por imposição da família. O que mais se vislumbra é a solidão absoluta no olhar do menino de treze anos dotado de um agudo senso de observação diante das coisas ínfimas do mundo e dos pequenos gestos com grandes significados, e o filme é repleto deles, como uma espécie de meio-termo entre os trabalhos de Truffaut em torno da mesma temática (Les 400 Coups, Baisers Volés) e o rigor e o minimalismo de Bresson, sintetizando uma longa tradição do cinema francês com a crônica de infância. Ponto alto: a cena em que o menino entra no cinema para assistir Pandora & The Flying Dutchmen, de Albert Lewin e tenta arrancar um beijo da garota sentada a sua frente, procurando repetir os movimentos do casal de garotos ao lado, o que remete novamente a Truffaut (L'Argent de Poche, que seria feito dois anos mais tarde). Mas tudo com uma objetividade que beira o documental, e em muitos momentos um erotismo aflorado e imprevisto em torno dos encontros dos meninos e meninas, entretanto não há na maioria das cenas amorosas de Mes Petites Amoureuses resíduo algum de romantismo ou estereotipia, apenas uma necessidade orgânica e inadiável de contornar o tédio de viver e os mistérios sem respostas da existência.







Anticipation é o precursor dos sci-fic cabeças de Abel Ferrara (New Rose Hotel) e Olivier Assayas (Demonlover, Boarding Gate), não tanto pela trama em si, mas pela construção de um clima asséptico e de uma atmosfera misteriosa com detalhes minimalistas e transformando aeroportos e quartos de hotel em ambientes futuristas e desparametrizados, apenas trocando a era tecnológica das viagens interplanetárias do filme de Jean-Luc Godard pelo universo corporativo e sem fronteiras (e igualmente maquinizado, o que vai dar quase no mesmo que o filme de Godard) dos mencionados títulos de Ferrara e Assayas. E Anna Karina em 1967 no papel de uma prostituta em um futuro próximo no qual o Estado suprimiu o amor era tão musa e instigante quanto Ásia Argento em dois dos três filmes contemporâneos citados mais acima. Talvez um dos dez melhores do cineasta franco-suíço.

Acredito que Make Way for Tomorrow seja o filme com o melhor enfoque da solidão da velhice, ao menos dentro do cinema americano. Lembra um pouco o Era uma Vez em Tóquio, do Yasujiro Ozu, mas foi feito quinze anos antes pelo diretor Leo McCarey, e é um dos raros filmes da Hollywood da época a se concentrar no universo íntimo de um casal de velhinhos: Bark (Victor Moore) e Lucy Cooper (Beulah Bondi), que se encontram diante de um desastre financeiro e são despejados da casa onde viviam sozinhos e se entregam à mercê dos seus filhos de meia-idade (cada um já com famílias constituídas). Para resolver o incômodo do qual não tem como fugir, os filhos começam separando o casal para que possam dividir a inconveniência de hospedá-los um em cada casa diferente. O decorrer do filme é sobre como a auto-estima e a dignidade de cada um dos dois idosos vai minando aos poucos, ao mesmo tempo em que desde o princípio paira sobre todos a possibilidade de se resolver os problemas do casal enviando-os para alguma casa de asilo. Uma das grandes qualidades do filme é a direção de McCarey, que não caricaturiza nem exagera a questão da velhice, realizando um filme sincero e seco, e ao mesmo tempo bastante emocionante, mas sem apelar para a pieguice e a choradeira, pois ao mesmo tempo em que o casal se encontra desamparado e dependendo da generosidade dos filhos, estes por sua vez também sofrem ao lidar com a situação pela dificuldade de ter que arranjar espaço em suas vidas para acolher os pais que involuntariamente se tornam um problema inoportuno e inesperado em suas rotinas, o que não raro gera desconforto, irritação e tristeza, levantando-se a grande questão que é: “O que fazer com os nossos velhos?” Mas as estrelas do filme são o casal de velhinhos, que a despeito de tudo não cansam de despertar a compaixão dos filhos e de estranhos, e que no terço final decidem se reunir novamente para um longo passeio pelas ruas, lojas, bares e restaurantes de Manhattan, o que se revela um ultimo idílio para o casal, já sabedores de que não terão mais muito tempo um com o outro. Curiosamente esse filme nunca foi muito conhecido no Brasil, até onde eu sei jamais lançado em VHS ou dvd e até mesmo pouco freqüente em exibições na televisão, mas era um dos filmes preferidos de Orson Welles, que falou com entusiasmo do filme em entrevistas a Peter Bogdanovich que resultaram em livro, dizendo que Make Way for Tomorrow era capaz de fazer até uma pedra chorar. Era também o predileto do diretor McCarey dentre os que ele próprio dirigiu, e ao ganhar o Oscar de Direção por Cupido É Moleque Teimoso, do mesmo ano, o cineasta teria dito sobre o prêmio: “Thanks, but you gave it to me for the wrong picture."

La Caza, Carlos Saura; uma caçada repleta de simbolismos e com uma inesperada violência por parte do diretor espanhol. Uma reflexão sobre caça e caçador, sobre a distância de intenções entre o tiro e o alvo, ser objeto ou o sujeito pensante, e que começa como um filme de Buñuel mas termina como Sam Peckinpah.

Durante muito tempo um dos filmes mais inacessíveis para os cinéfilos foi O Estrangeiro, que Luchino Visconti dirigiu em 1967. Disponível em bootlegs de qualidades sofríveis e finalmente com legendas em português, pode-se conferir esse que é provável que seja o menos bom dos filmes do conde italiano. Mais tarde Visconti venceria com sobras o desafio de adaptar um outro clássico literário (Morte em Veneza), mas em O Estrangeiro o cineasta foi derrotado diante da prosa inexcedível de Albert Camus. O filme de Visconti é uma adaptação frustrada e ao mesmo tempo uma experiência cinematográfica não muito empolgante. Curiosamente o filme transpõe para a tela todos os acontecimentos e diálogos quase que intactos do romance original, mas fidelidade aqui não significou qualidade de adaptação de um veiculo para o outro (a ironia é que detratores de outras adaptações de obras literárias para o cinema costumam apontar as infidelidades do filme com a fonte original, o que aqui é praticamente o contrário). A verdade é que adaptar Camus para o cinema resulta num beco sem saída: não se podem reinventar aspectos da história original porque nos livros do escritor argelino os seus enredos são bem redondos e acabados, e é dali que se parte para a essência de suas obras, e tampouco é suficiente transportar esses enredos em suas completudes para o cinema porque as histórias são relativamente simples, e as suas essências não estão contidas ali, mas apenas parte-se daí para se chegar a algo indivisível e totalmente literário (portanto anti-cinematográfico) que contém toda a filosofia e a inquietante visão de mundo do seu autor (nos anos 90, o cineasta Luiz Puenzo também tentou adaptar outro clássico de Camus, A Peste, mas o resultado final foi tão ou mais desastroso que a adaptação de Visconti). Não se consegue enxergar no filme de Visconti o absurdo da existência humana entrevisto nas páginas de Camus, onde todas aquelas coisas sem-sentido que ocorrem adquirem um significado que se torna inexistente em película. O enterro da mãe de Meursault é tratado de forma tão rápida e superficial no começo do filme que se desperdiça uma abertura fundamental para se compreender os rumos com que mais adiante o personagem irá se confrontar e ser julgado . E também Marcello Mastroianni foi uma escolha inadequada para representar Meursault (ainda bem que ele não foi contratado para Morte em Veneza, como quase aconteceu), o ator é simpático demais para transparecer em seu semblante a amargura de antes e depois de sua condenação, enquanto que a participação de Anna Karina (como a namorada do protagonista, mas distante da beleza e da graça com que pode ser vista nos filmes do Godard) é apenas mais uma curiosidade que pouco ajuda ao filme. Um dos melhores momentos do livro é também um dos ápices do filme de Visconti, a longa cena do julgamento, que na tela soa farsesca demais, e não como um pesadelo, diferente do livro, onde o tom de farsa se mesclava com perfeição com a atmosfera de pesadelo. E talvez tenha faltado ao filme um tom mais contemplativo e enigmático, e quem sabe investido mais em intercalar uma quantidade maior de narrações em off (o que poderia transmitir um pouco mais da essência do livro, também narrado em primeira pessoa) com longos silêncios e tempos mortos para nos passar um sentimento de desolação e vazio com que Meursault se depara. Mesmo com todos os problemas apontados, não se trata de um filme ruim, mas acredito que mesmo para os que não conhecem o livro de Camus e assiste o filme de Visconti dificilmente não o incluirá como uma obra menor na filmografia do mestre italiano. Ainda assim, espero um dia poder revê-lo numa cópia melhor (talvez quando finalmente for lançado em dvd em algum lugar do mundo) e quem sabe então numa futura revisão O Estrangeiro como cinema possa se configurar um degrau acima do lugar onde ele parece permanecer hoje.
Zingu! # 31
A partir desse mês passo a colaborar na Revista Zingu!, que está com um especial sobre Cinema de Bordas, em torno das figuras e dos filmes de Felipe M. Guerra, Petter Baiestorf e Rodrigo Aragão. Além desse dossiê principal, tem um texto que escrevi sobre O Exército do Extermínio, de George A. Romero, a tradicional Coluna do Biáfora (com artigo do saudoso crítico paulista selecionado pelo Sergio Andrade), a quarta e última parte de "A Ficção Científica B na Guerra Fria" , do Gabriel Carneiro (que também assina uma resenha do clássico Beco Sem Saída, de William Wyler) e o Musas Eternas com o perfil de Julie Delpy, escrito pelo Filipe Chamy. E muito mais! Link.