


François Truffaut sempre foi dos maiores apaixonados pelo cinema de Alfred Hitchcock. Como fã ardoroso do mestre de suspense, analisou exaustivamente a sua obra e escreveu diversos textos, artigos e estudos, além de uma série de entrevistas que dariam origem ao seu mais famoso livro, que expôs toda a obra hitchcockiana, com detalhes de criação de todos os seus clássicos. Em 1967, depois de dez anos dirigindo curtas e longas-metragens, já consagrado como grande cineasta, Truffaut resolveu se arriscar em homenagear o estilo de Hitchcock, realizando um filme de suspense e vingança intitulado A NOIVA ESTAVA DE PRETO (La Mariée Etait em Noir), Uma das mais curiosas imitações dos filmes de Hitchcock, a começar pela música bastante climática de Bernard Hermann (que incluiu alguns trechos da Marcha Nupcial, só que com toques de terror). O mais interessante é que é uma das raras abordagens de Truffaut no cinema de gênero, com mais ação do que o habitual no restante de seus filmes. Mas ao contrário de um Brian DePalma, que chupa até os ossos e chega a copiar situações e cenas inteiras dos filmes de Hitchcock, Truffaut não cai na mesma armadilha e constrói seu filme com relativa originalidade. A trama é baseada numa novela policial que o diretor lia escondido na adolescência, sobre uma obcecada e misteriosa viúva transtornada pela sede de vingança, e que num plano ardiloso e pacientemente arquitetado, se dedica a eliminar um por um os responsáveis pelo homicídio de seu noivo, assassinado ao saírem da porta da igreja no dia do casamento Jeanne Moreau nem sempre convence no papel central, mas OK, ela é Jeanne Moreau e ponto final. As filmagens foram tumultuadas (com brigas do cineasta com Raoul Coutard, o diretor de fotografia, e com a própria atriz), e Truffaut não gostou muito do resultado final do filme, embora o próprio Hitchcock tenha escrito elogiando o filme. “Gostei especialmente da cena em que Moreau observa a morte lenta do homem que envenenou. Com meu humor algo especial, creio que a teria feito ir ainda um pouco mais longe, pondo uma almofada sob sua cabeça, para que ele morresse ainda mais confortavelmente.” A NOIVA ESTAVA DE PRETO é envolvente, sedutor e bonito, e bastante hitchcokiano, ainda que Truffaut não tenha assimilado com perfeição o estilo do mestre do suspense. O filme tem eventuais deficiências, como alguns furos na narrativa, certas soluções fáceis, e uma evidente inexperiência do diretor com cenas de ação, o que compromete alguns dos momentos da obra. É um filme imperfeito, desigual, mas cujo desequilíbrio não é suficiente para estragar seu resultado geral. Os críticos mais severos apontam como desastrosa essa influência de Hitchcock na obra de Truffaut, porém não é difícil apreciar A NOVA ESTAVA DE PRETO. Ainda que pareça deslocado em sua filmografia, é uma boa variação na carreira do diretor francês. Aliás, nesse final de semana prosseguirei um ciclo dedicado ao Truffaut, assistindo outros dois de seus filmes: A Sereia do Mississipi, com Catherine Deneuve, e A História de Adele H., com Isabelle Adjani.

O terror (antes de ser pasteurizado para ser consumido irrefletidamente de maneira simplista e sistemática pelo público cinéfilo médio) é o mais estranho e doente dos gêneros do cinema. Tanto que se levou algumas décadas para ser popularizado desde a invenção do cinematógrafo pelos irmãos Lumiere em 1895. Na década de 10 houve algumas experiências de horror com curtas, mas seriam os alemães a partir de 1919 que desenvolveriam suas obsessões dentro do estilo, com o surgimento de obras-primas como O Gabinete do Dr. Caligari, O Golem, e sobretudo, Nosferatu, tão aterrador que se criou a lenda de ser protagonizado por um monstro real. A indústria norte-americana logo enxergaria as possibilidades comerciais do gênero, criando uma série de exemplares de terror já na década de 20, porém se pode dizer que o estilo engatilhou lentamente até que em 1931 a Universal tomou de assalto as telas de cinema com duas produções que estouraram nas bilheterias e definiram o gênero no imaginário popular: Frankenstein, de James Whale, e Drácula, de Tod Browning. Além de transformarem em astros os seus atores principais, o mais importante é que esses dois filmes fizeram os produtores enxergarem um filão que para sempre seria dos mais rentáveis, e não apenas a Universal apressou a realização de novas produções de terror como outros estúdios preocuparam-se em explorar o potencial do gênero. Mas nenhum outro filme da época levou até as últimas conseqüências as possibilidades mais doentias e aterradoras do cinema quanto FREAKS, que Irving Thalberg produziu para Metro. Chamando o mesmo Tod Browning, que gozava de grande prestigio graças ao sucesso de Drácula, o cineasta teve carta branca do estúdio, que pediu à ele que fizesse algo ainda mais horripilante e assustador do que os filmes que a Universal vinha fazendo. Em suma, que superasse a forte concorrência do estúdio rival. Browning chamou dezenas de deformados reais que trabalhavam em diversas companhias ambulantes na Europa e na América para protagonizarem seu filme: vários anões, duas irmãs siamesas (quando uma é beijada, outra também gosta), uma mulher-barbada (e grávida), um homem-esqueleto (que não devia pesar mais que trinta quilos), três microcéfalos (duas mulheres e um homem, este também vestido de mulher, todos com cabeça minúscula e com comportamento infantilizado), um andrógino, uma mulher sem braços (que usa os dedos dos pés para levar o garfo à boca com toda naturalidade), e um homem indiano, sem braços nem pernas, formando apenas um torso, enfiado numa espécie de saco que o deixa com uma forma parecida como que de uma ameba (o mais impressionante é que esse último freak era capaz de acender com a maior tranqüilidade um cigarro com um fósforo que ele mesmo tira da caixa ou de fazer qualquer coisa com a boca). Esse estranhíssimo elenco composto sem truques nem maquiagem compunham o repertório principal do filme em questão. O enredo foi tirado de um livrinho obscuro: um dos anões, herdeiro de uma grande fortuna, é seduzido pela bela e gananciosa trapezista Cleópatra, que finge gostar dele, mas que com a ajuda do amante, Hércules (o homem-forte do circo em que todos eles trabalham), planeja roubar-lhe o dinheiro. Os outros deformados se dispõem a evitar o golpe. Browning conseguiu arrancar performances naturais e espontâneas dos deficientes, acostumados a representarem a si mesmos nos shows em que se apresentavam. Todos foram tratados com simpatia nos sets da produção (a única que se disse explorada pelo filme foi a mulher-barbada), ainda que impedidos de circularem muito longe das filmagens para não causarem temor no estúdio. Várias estrelas da época recusaram os papéis “normais” do filme, receosos de se comprometerem em um projeto tão diferente. É até injusto reduzir FREAKS a classificação de filme de terror (por mais que o filme esteja dentro do gênero), porque ele transcende e muito o gênero. FREAKS é mais um drama humano, no qual diferentemente do que poderia se supor, não glamouriza o horror, tampouco enxerga seus personagens como coitadinhos. FREAKS é o mais terrível exercício de terror nas telas, uma vez que nenhum outro utilizou o grotesco humano e real de tal forma, opondo e alternando humor negro e ternura, de um modo que o torna uma obra-prima ainda inigualável. Browning afrontou a noção maniqueísta tão usual no cinema e na literatura, que define heróis e vilões de acordo com a estética imposta pelos padrões de beleza. Quando FREAKS foi lançado, causou escândalo e naufragou nas bilheterias diante das escassas platéias que tiveram coragem de assisti-lo, acabando com a carreira de Browning, que dali em diante teve pouquíssimas outras oportunidades de dirigir. FREAKS ainda foi cortado e mutilado, até que com a implantação do Código de censura nas telas norte-americanas em 1934, o filme foi engavetado de vez. Em outros paises, foi proibido, principalmente na Inglaterra, onde foi atacado por religiosos e moralistas. Com o tempo, o cinema foi assimilando monstros de todas as estirpes em suas telas (mas nunca com o realismo do filme de Browning), até que FREAKS foi se tornando aceitável, sendo redescoberto nos anos 60 e ganhando aura de cult nas Sessões da Meia-Noite nos anos 70 – sem nunca, contudo, perder o caráter de filme maldito. O filme hoje em dia pode não aterrorizar tanto quanto no lançamento, mas conserva a mescla de pavor e lirismo que o transformou numa obra cinematográfica de qualidade ímpar. Um filme para ser reverenciado e revisto pelo menos uma vez a cada seis meses.

Kill Bill é um marco do cinema contemporâneo. O filme é uma bosta, mas tornou conhecido vários filmes obscuros os quais Quentin Tarantino usou como influência para a confecção de seu filme. Uma dessas referências mais marcantes é a de um exploitation europeu de 1974 do sueco Bo Ane Vibenius, THRILLER – A CRUEL PICTURE, também conhecido como “They Call Her One-Eyed”, uma bordoada cinematográfica repleta de violência, sexo explicito e vingança no final. Se o mundo fosse perfeito, todo mundo assistiria esse filme sem saber nada de sua história, pois THRILLER é um dos filmes que quanto menos se sabe a respeito, mais surpreende, porém como não existe perfeição nesse mundo, ai vai uma sinopse de práxis: Madeleine é uma garota que, quando pequena, foi violentada por um mendigo e, traumatizada, perde a voz e nunca mais consegue proferir uma palavra sequer. Adolescente, tenta superar o passado trabalhando arduamente numa fazenda remota. Certo dia, depois de perder o ônibus que a levaria de volta pra casa, ela é abordada por um sujeito simpático que lhe oferece carona. Eles vão a um restaurante, onde ele a embebeda e depois a leva para uma casa estranha, onde ela é dopada e desmaia. O sujeito na verdade era um cafetão e enquanto ela dorme, ele injeta várias doses de heroína no braço da garota, de modo que ela já acorda viciada. O cafetão a chantageia e a prende no local para que ela se prostitua em troca de heroína e alguma grana, e uma série de circunstâncias a fazem perder um olho, ter que se submeter aos horrores da prostituição e os maus-tratos dos clientes e do cafetão, e ainda por cima descobre que seus pais morreram por causa dela. THRILLER pode parecer apelativo e fascista por justificar a justiça com as próprias mãos e a violenta vingança da protagonista no final, porém o filme tem um belo andamento narrativo e um desenvolvimento eficiente que constrói de maneira lenta e devagar um drama humano cruel e desolador até chegar perto do final, onde só ai a ação explode. Sim, durante mais de dois terços, o filme é mais um drama onde arrancaram tudo que Madeleine possuía, toda dignidade, seus laços afetivos, sua capacidade de expressão, seu olhar inocente e belo que já não existe mais. Não que o filme faça rodeios: ele é seco, direto, enxuto. Tecnicamente o filme é competente, ainda que tenha que se relevar alguma que outra cena de ação que trinta anos tenha envelhecido e as atuações over do elenco, o que não tira o mérito da marcante presença em cena da atriz principal, Christina Lindberg. Ela tinha vinte e poucos anos quando participou do filme, mas em cena parece ter uns dezesseis, e convence inteiramente, transmitindo toda a desolação que sua personagem possui. A maior polêmica do filme, no entanto, são as cenas pornôs enxertadas na narrativa, com direito a sexo anal, genitálias e ejaculações envolvendo prostitutas reais que serviram de dublês nessas seqüências (algo parecido com o que ocorreria com Calígula, de Tinto Brass, alguns anos depois). Porém, por mais explicitas que sejam essas cenas, elas de modo algum servem para excitar, por causa do contexto doentio e doloroso da fita. Por essas e outras, THRILLER tornou-se o segundo filme a ser banido na Suécia (o primeiro foi um de 1912), por causa do sexo e da violência (a cena da perfuração do olho é tão realista ao ponto de terem usado um cadáver na filmagem). Mas ainda assim o filme se impõe por suas qualidades, não pelo escândalo. No resto do mundo o filme foi lançado em versões cortadas (sem as seqüências de sexo hardcore), mas só se tornou definitivamente célebre quando Tarantino confessou a inspiração nele para criar Kill Bill, principalmente na composição do personagem de Elle Driver (interpretado por Daryl Hannah, que também usa o pach de pirata cobrindo o olho mutilado) além de outros detalhes na trama (como a vingança calculadamente metodicamente, etc.). Já o diretor do filme, Vibenius (assistente de Bergman em Persona e A Hora do Lobo), nunca mais fez nada de relevante. Enfim, THRILLER é um filme B que se transformou num clássico do cinema maldito, um filme que nos faz alimentar o desejo de pegar uma bazuca e sair por ai semeando a discórdia e matando a esmo.
"A morte é um tema festivo pros mexicanos, e qualquer
protestante essencialista como eu não a considera tragedya . . Em Terra em
Transe o poeta Paulo Martins recitava que convivemos com a morte...etc... dentro
dela a carne se devora - e o cangaceiro Corisco, em Deus e o Diabo na Terra do
Sol, morre profetizando a ressurreição do sertão no mar que vira sertão que vira
mar...
Matei muitos personagens? Eles morreram por conta própria,
engendrados e sacrificados por suas próprias contradições: cada massacre
dialético que enceno e monto se autodefine na síntese fílmica, e do expurgo
sobram as metáforas vitais.
As armas de fogo, facas e lanças são os objetos
mortais usados por meus personagens, mas a rainha Soledad bebe simbolicamente
veneno no final de Cabeças Cortadas e os mercenários de O Leão de Sete Cabeças
são enforcados. Em Câncer, Antônio Pitanga estrangula Hugo Carvana, assim como
Carvana se suicida em Terra em Transe. Em Claro foi usado um canhão para matar
um mercenário no Vietnam e dois personagens morrem afogados em Barravento, além
das multidões incalculáveis massacradas por Sebastião, Corisco, Diaz,
etc.
Filmar meu amigo Di morto é um ato de humor modernista-surrealista que
se permite entre artistas renascentes: Fênix/Di nunca morreu. No caso o filme é
uma celebração que liberta o morto de sua hipócrita-trágica condição. A Festa, o
Quarup - a ressurreição que transcende a burocracia do cemitério. Por que
enterrar as pessoas com lágrimas e flores comerciais? Meu filme, cujo título,
dado por Alex Viany, é Di-Glauber, expõe duas fases do ritual: o velório no
Museu de Arte Moderna e o sepultamento no Cemitério São João Batista. É assim
que sepultamos nossos mortos.
Chocado pela tristeza de um ato que deveria ser
festivo em todos os casos (e sobretudo no caso de um gênio popular como Emiliano
di Cavalcanti) projetei o Ritual Alternativo; Meu Funeral Poético, como Di
gostaria que fosse, lui. . . o símbolo da Vida...
No campo metafórico
transpsicanalítico materializo a vitória de São Jorge sobre o Dragão. E, no caso
de uma produção independente, por falta de tempo e dinheiro, e dada a urgência
do trabalho, eu interpreto São Jorge (desdobrado em Joel Barcelos e Antônio
Pitanga) e Di-O Dragão. Mas curiosamente Eu Sou Orfeu Negro (Pitanga) e Marina
Montini, dublemente Eurídice (musa de Di), é a Morte. Meus flash-backs são meu
espelho e o espelho ocupa a segunda parte do filme, inspirado pelo Reflexos do
Baile, de Antônio Callado, e Mayra, de Darcy Ribeiro. Celebrando Di recupero o
seu cadáver, e o filme, que não é didático, contribui para perpetuar a mensagem
do Grande Pintor e do Grande Pajé Tupan Ará, Babaraúna Ponta-de-Lança Africano,
Glória da Raça Brazyleira!
A descoberta poética do final do século será a
materialização da Eternidade."
Di (Das) Mortes, GlauberRocha, texto mimeografado, distribuído na sessão do filme em 11 de março de 1977 na Cinemateca do MAM.
Saiu hoje a lista dos filmes do próximo Festival de Cannes. Os destaques são os novos de Clint Eastwood, Atom Egoyam, Philippe Garrel, Lucrecia Martel, Wim Wenders, Jia Zhangke, Irmãos Dardenne e a estréia de Charles Kauffman na direção. Walter Salles e Daniela Thomas estarão com filme novo também. E será curioso também a biografia do Che Guevara dirigida pelo Steven Soderberg (um cineasta que tenho curtido cada vez menos). Da mostra não-competitiva, destaque para uma paródia ao clássico de Sergio Leone (The God, The Bad, The Weird, do sul-coreano Ji-Woon Kim), além do último do Woody Allen e do novo Indiana Jones. Além desses todos, Emir Kusturica e Kar-Wai estarão apresentando seus mais recentes trabalhos, assim como a filha de David Lynch (Jennifer Lynch), que volta a filmar quinze anos depois do péssimo Encaixotando Helena. A lista ainda não foi fechada, falta a confirmação de outros títulos, como Blindness, do Fernando Meirelles. Sean Penn será o presidente do júri, formado ainda pelo ator e diretor italiano Sergio Castellitto, Natalie Portman, Alfonso Cuaron, a atriz alemã Alexandra Maria Lara, e os cineastas Apichatpong Weerasethakul e Rachid Bouchareb.
FILMES EM COMPETIÇÃO
Nuri Bilge Ceylan - Three Monkeys (Turkey-France-Italy)
Jean-Pierre & Luc Dardenne - Le Silence De Lorna (France-Belgium)
Arnaud Desplechin - A Christmas Story (France)
Clint Eastwood - Changeling (US)
Atom Egoyan - Adoration (Canada)
Ari Folman - Waltz With Bashir (Israel)
Philippe Garrel - La Frontiere De L’Aube (France)
Matteo Garrone - Gomorra (Italy)
Charlie Kaufman - Synecdoche, New York (US)
Eric Khoo - My Magic (Singapore)
Lucretia Martel - La Mujer Sin Cabeza (Argentina-Spain)
Brillante Mendoza - Serbis (The Philippines)
Kornel Mondruczo - Delta (Hungary-Germany)
Walter Salles & Daniela Thomas - Linha De Passe (Brazil)
Paolo Sorrentino - Il Divo (Italy)
Pablo Trapero - Leonera (Argentina-South Korea)
Wim Wenders - The Palermo Shooting (Germany)
Jia Zhangke - 24 City (China)
Steven Soderbergh - Che (US-Spain-France)—one four-hour competion title comprised of Guerrilla and The Argentine
FORA DE COMPETIÇÃO
Steven Spielberg - Indiana Jones And The Kingdom Of The Crystal Skull (US)
Mark Osborne and John Stevenson - Kung Fu Panda (US)
Ji-Woon Kim - The Good, The Bad, The Weird (South Korean)
Woody Allen - Vicky Cristina Barcelona (Spain-US)
SPECIAL SCREENINGS
Marina Zenovich - Roman Polanski: Wanted and Desired (US)
Wong Kar-wai - Ashes Of Time Redux (Hong Kong-China-Taiwan)
Daniel Leconte - C’est Dur D’etre Aime Par Des Cons (France)
Marco Tullio Giordana - Sangue Pazzo (Italy-France)
Terence Davies - Of Time And The City (UK)
MIDNIGHT SCREENINGS
Emir Kusturica - Maradona (Spain)
Jennifer Lynch - Surveillance (US)
Hong-Jin Na - The Chaser (South Korea)

RIO 40 GRAUS e RIO ZONA NORTE é uma das dobradinhas mais clássicas do cinema nacional, que representa o debute de Nelson Pereira dos Santos como cineasta. Antes ele havia realizado apenas alguns poucos curtas-metragens, mas se impôs no cenário cinematográfico nacional com essas duas realizações, sobretudo com o seu primeiro longa, que numa época dominada pela chanchada carioca e pela agonizante Vera Cruz paulista, foi um filme que serviu de base para que poucos anos depois surgisse o Cinema Novo Brasileiro. Pode-se dizer que é o marco zero do moderno cinema nacional. Rodado com orçamento minúsculo, com forte influência do neo-realismo italiano, o filme mostra com ar documental a vida dos moradores de um subúrbio pobre do Rio de Janeiro, com a praia de Copacabana por perto, as intrigas no futebol, os negros amontoados nos barracos da favela, etc. Era muito raro até então (para não dizer inexistente) favelas servirem de locações e negros como personagens centrais. Logo que ficou pronto, o filme ganhou enorme publicidade quando um delegado do Rio tentou censurá-lo, e foi saudado pelos críticos como uma autentica revelação, por sua abordagem direta e realista das ruas e favelas da Cidade Maravilhosa. Porém, Nelson não conseguiu a mesma repercussão com o filme seguinte, RIO ZONA NORTE, que embora fosse de concepção cinematográfica bastante próxima do filme anterior, abandonava o neo-realismo ortodoxo em favor de um melodrama mais elaborado, como que uma simbiose entre a estética neo-realista e o cinema de narrativa clássica. Se RIO ZONA NORTE foi visto como um retrocesso e foi rejeitado à época do lançamento, o tempo tratou de colocar as coisas em seus devidos lugares: hoje em dia, RIO 40 GRAUS sobrevive mais pelo valor histórico (embora continue com grandes qualidades), enquanto que RIO ZONA NORTE resistiu melhor com a passagem dos anos, comprovando que o filme era um passo adiante na obra de Nelson Pereira dos Santos. Ao contrário da narrativa episódica e difusa do anterior, RIO ZONA NORTE é mais concreto e eficaz ao mostrar a vida de um sambista negro (Grande Otelo) que, ferido ao cair de um trem de subúrbio, relembra os últimos meses de sua vida, principalmente a convivência com o filho marginal e as trapaças de um radialista de má-fé de olho em suas canções. O ponto alto é quando Grande Otelo apresenta a letra de um samba de sua autoria para Ângela Maria. Ele começa cantando, ela vai escutando, e em determinado momento a sua diva começa a cantar junto também, lendo a letra no pedaço de papel que o sambista lhe passara e colocando sua voz bem do jeito que o compositor sonhara. A câmera imediatamente acompanha a surpresa e o encantamento do sambista ao ouvir a voz da célebre cantora, com a feição de Grande Otelo se alterando de maneira arrepiante. O filme é repleto de momentos assim. Pena que o insucesso desse filme impossibilitou que Nelson fechasse a sua trilogia carioca, com “Rio Zona Sul”, jamais realizado.
Orson Welles apresenta Buster Keaton e sua obra prima A GENERAL. O vídeo é originalmente uma introdução de uma exibição de A GENERAL num ciclo de filmes mudos que a televisão norte-americana exibiu nos anos sessenta e dá uma geral na carreira de keaton, com fragmentos de vários de seus filmes. Welles considerava Keaton o cineasta mais subestimado da história do cinema. Já é um vídeo bastante manjado na internet, ripado do VHS "A General", n° 18 da coleção Os Clássicos do Cinema, lançada pela Filmax/Altaya. Mas é bastante interessante para quem ainda não assistiu. Felizmente está legendado (com português lusitano). E para quem se interessar em conhecer a obra de Keaton, no Youtube e no GoogleVideos tem vários de seus curtas e até longas-metragens inteiros para serem assistidos. É só procurar.

OS INCOMPREENDIDOS é o filme com o qual gostaria de ter iniciado a minha cinefilia. Ele tem a leveza dos filmes que assistimos pelo prazer de um simples passatempo, como também a profundidade das obras mais obrigatórias. E lança um olhar terno e afetuoso, ao mesmo tempo carregado de rebeldia, sobre uma das passagens da vida que nos é mais cara: a transição da infância para a adolescência (com uma visível influência de Jean Vigo, especialmente Zero de Conduta). E ousa concretizar na tela algo que muitos de nós naquela fase (ou até mesmo em qualquer outro período de nossa vida) almejamos fazer (e que o próprio Truffaut o fizera): a fuga. A fuga para o desconhecido, para o desejado, ou para lugar algum. Antoine correndo, a praia, o close. O filme é aquilo ali. A imagem mais forte que eu tenho da liberdade é aquela cena. Acho que foi Luc Moullet quem escreveu que OS INCOMPREENDIDOS é um filme tão bom por que François Truffaut era ao mesmo tempo um velho de setenta anos e um jovem de dezessete. E é digno de inveja que o cineasta tenha feito o que todo artista sonha: transformar sua vida, sua biografia, em obra de arte, por mais banal que seja sua existência. E logo no primeiro longa. Tão bom que o diretor teve que retornar ao personagem em filmes posteriores.

1 - Othon Bastos - em DEUS E DIABO NA
TERRA DO SOL
2 - Paulo Villaça - em O BANDIDO DA LUZ VERMELHA
3 - Jardel
Filho - em TERRA EM TRANSE
4 - Átila Iório - em VIDAS SECAS e OS FUZIS
5 -
Maurício do Vale - em DEUS E O DIABO NA TERRA DO SOL e DRAGÃO DA MALDADE CONTRA
O SANTO GUERREIRO
6 - Grande Otelo - em MACUNAÍMA
7 - Luis Linhares - em O
BANDIDO DA LUZ VERMELHA
8 - Paulo Cesar Pereio - em BANG BANG
9 - José
Lewgoy - em TERRA EM TRANSE
10- Brandão Filho - em ROMANCE DA
EMPREGADA